Texto de Bruno Proença hoje publicado no "Diário Económico"
"Pedro Passos Coelho voltou a recusar ontem na
Madeira a hipótese de renegociar o acordo com a ‘troika'. O
primeiro-ministro reiterou que só há o caminho da austeridade e do
sacrifício. "Posso bem com aqueles que pensam diferente de mim e posso
bem com aqueles que acham que estamos a seguir um caminho de austeridade
excessiva". As palavras de Passos Coelho revelam uma teimosia cega que é
difícil de compreender perante os dados económicos. Na sexta-feira ao
fim do dia, foram conhecidos os últimos dados da execução orçamental e
percebe-se que o défice orçamental está longe de estar controlado. Esta
tem sido a prova mais óbvia da incompetência do Governo nas finanças
públicas. Se a pesada herança socialista foi um álibi legítimo em 2011,
este ano, para o bem e para o mal, é da responsabilidade de Vítor
Gaspar, ministro das Finanças. E a melhor imagem para reflectir a
execução orçamental é a de um carro que bateu várias vezes contra o
muro.
O Orçamento do Estado inicial já foi emendado com dois orçamentos
rectificativos. A ‘troika' deu uma ajuda e passou a meta orçamental de
4,5% do PIB para 5%. E Gaspar deverá falhar este objectivo mesmo
recorrendo
ao pecado capital das receitas extraordinárias, que este
ano será a concessão da ANA. Sem medidas temporárias, o défice real
ficará acima dos 6%.
A isto junta-se uma dívida pública galopante que já passou os 120% do
produto, um desemprego histórico e a recessão que vai entrar no
terceiro ano. Perante este quadro de horror, como é que Pedro Passos
Coelho pode continuar a defender o mesmo caminho político, fechando a porta a qualquer rectificação? Não faz sentido.
A política económica terá que ser ajustada e isso terá que ser
negociado com a ‘troika'. A austeridade deve continuar mas temperada com
medidas para relançar o crescimento económico. É necessário garantir
que o financiamento chega às empresas e captar mais investimento directo
estrangeiro. Austeridade somada a nova austeridade resulta em depressão
económica e défice em derrapagem. Exactamente o oposto do que todos
desejamos, incluindo a ‘troika'. A evolução do IVA este ano é um bom
exemplo do que não se deve fazer. O Governo subiu a taxa, o que provocou
uma retracção no consumo. No final, menos receita para o Estado.
O plano de resgate vai ser renegociado, só falta saber quando. A
sétima avaliação da ‘troika', no primeiro trimestre do próximo ano, é
uma excelente altura. Já deverá ser visível que o Orçamento do Estado
para 2013 não é exequível e que os problemas económicos continuam por
resolver. Se Pedro Passos Coelho e a ‘troika' teimarem, haverá sempre a
prova dos nove: o regresso aos mercados. Porém, nessa altura
a situação política e social será ainda mais dramática. Vale a pena esperar?"
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
A austeridade de Passos Coelho
O homem de Berlim
"Alguém que não acredite na divina providência confia em Vítor Gaspar?
sábado, 24 de novembro de 2012
Acordar do pesadelo
Texto de Carvalho da Silva hoje publicado no "Jornal de Noticias"
Troika e Governo contribuíram de forma ímpar para afundar a nossa economia, destruíram emprego e delapidaram recursos do Estado. Na segunda-feira veio Gaspar dizer que agora "teremos de decidir que modelo queremos para o Estado e como o poderemos pagar". O primeiro-ministro disse que poderão vir a utilizar verbas da União Europeia (UE) para fazer "as reformas" do Estado, ou seja, para destruir rapidamente milhares e milhares de empregos diretamente na Administração Pública e indiretamente no privado, pois quando diminuem os serviços públicos destrói-se, também, emprego privado.
Baixam-nos o patamar de desenvolvimento e utilizam recursos financeiros disponíveis não para investir, para garantir emprego e crescimento, mas sim para nos empobrecerem.
Segundo vários órgãos de Comunicação Social, Passos Coelho defendeu a ideia de as cimeiras Ibero-Americanas passarem a realizar-se apenas de dois em dois anos. Tratou-se de um sinal de secundarização de um espaço geográfico e político fundamental para uma estratégia de futuro para o nosso país.
Portugal é europeu, por condição natural e por compromissos assumidos, mas tem fronteiras e relações a sul para desenvolver.
Não podemos continuar debaixo da bota da sr.ª Merkel ou enjaulados no quintal dos agiotas que impõem o austeritarismo. Queremos ser plenamente europeus, mas ai de nós se não tomamos consciência de que a UE está num caos: já não é (se alguma vez foi) um projeto de todos e o funcionamento das suas instituições é um descalabro.
Temos mesmo de acordar do pesadelo e recentrar os conceitos de solidariedade, de multilateralidade, de multiculturalidade e de universalismo. No presente e no futuro que se perspetiva é preciso colocar de lado sobrancerias e complexos de superioridade. Há vários países do espaço da língua portuguesa e da América Latina que são mais "importantes" que Portugal e até que a Espanha. Os portugueses precisam de os respeitar, bem como às suas instituições e de com eles estabelecer relações sólidas nas diversas áreas.
O tempo que vivemos exige discussão política séria sobre a realidade do país, sobre as nossas capacidades, sobre como nos devemos mover no plano interno e internacional perante esta emergência de uma nova era mundial.
O presidente da República, que foi talvez o político português que mais facilitou a destruição dos setores do mar, da agricultura e da indústria, diz agora ser necessário "ultrapassar estigmas" nesses setores, quando já não tem credibilidade política, nem capacidade e vontade de agir.
Quando se analisa, no dia a dia, os conteúdos, os enfoques e as formas de abordagem dos temas que o Governo, as maiorias na Assembleia da República ou os grandes meios de Comunicação Social nos apresentam, só podemos concluir que com as atuais forças e as relações existentes entre elas não existirão soluções.
A demissão do Governo e o seu afastamento imediato da governação tornaram-se atos imperiosos.
A soberania do povo tem de ser assegurada e os portugueses terão de confrontar, mais do que nunca, cada partido com as suas propostas. Terão de exigir que todos apresentem programas de governação muito concretos e assegurar que os compromissos sejam respeitados."
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Amnésias
"O fenómeno é tipicamente português: abrimos jornais ou ligamos a televisão e antigos governantes, responsáveis pelo descalabro orçamental dos últimos 15 anos, continuam a dar lições de cátedra. Isto, que se percebe em gente menor, não se percebe no Presidente da República.
Esta semana, Cavaco Silva discursou no Congresso das Comunicações. E lá exortou os portugueses a ‘olhar para o que esquecemos nas últimas décadas’ e a ‘ultrapassar os estigmas que nos afastaram do mar, da agricultura e até da indústria’. Para que a paródia fosse completa, só faltava mesmo que Cavaco Silva (o Presidente) criticasse com dureza Cavaco Silva (o primeiro-ministro), que entre 1985 e 1995 foi alimentando esse ‘estigma’, abatendo o tecido produtivo do país com as patacas que choviam de Bruxelas. O facto de Cavaco Silva (o Presidente) não ter grande apreço por Cavaco Silva (o primeiro--ministro) não devia ser motivo para um tão clamoroso esquecimento. "
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
A versão do FMI do pesadelo nacional
Texto de Bruno Proença hoje publicado no "Diário Económico"
"A leitura do último relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre Portugal provoca as mesmas sensações de um pesadelo.
Não há
um único aspecto positivo. O "artigo IV" revela um país em crise e sem
luz ao fundo do túnel. As dificuldades que os portugueses estão a sentir
vão continuar nos próximos anos. A austeridade veio para ficar.
Na parte do Estado, a consolidação orçamental é "imperativa". Ou
seja, é necessário reduzir o défice e a dívida pública. Isto significa
que não há espaço para aliviar a carga fiscal. Quanto muito, o FMI
admite correcções em alguns impostos e incentivos para as empresas
exportadoras. Do lado dos gastos, a palavra de ordem é a
"racionalização" do emprego e dos salários na função pública e mais
"reformas" nas pensões e outras transferências sociais. Traduzindo,
menos funcionários públicos, a ganharem menos e mais cortes nas
prestações sociais.
Para o sector privado, o FMI também não é mais simpático. A
preocupação passa por diminuir o nível de endividamento junto da banca.
Para o Fundo, a prioridade deve ser a desalavancagem de empresas e
famílias. Portanto, não se fala em mais financiamento para as empresas
que permita relançar o investimento produtivo.
O crescimento económico fica todo às costas do sector exportador
que tem de enfrentar uma economia europeia em recessão. Perante isto,
percebe-se que Portugal vai continuar mergulhado numa crise profunda com
o desemprego elevado. O FMI tem consciência das implicações da sua
análise, por isso reconhece que tanta austeridade vai testar o consenso
político e social. A crise económica é também social. Para o Fundo, não é
certo que as medidas que estão em cima da mesa sejam aplicadas sem
rupturas no País. Por isso, os recados enviados para as instituições
europeias. É sabido que o FMI tem uma visão diferente da Comissão
Europeia e do BCE sobre a resolução da crise. No relatório sobre
Portugal, pede que os políticos europeus sejam capazes de resolver as
"fissuras" da zona euro. E, mais importante para nós, que suportem a
economia nacional caso falhe o regresso aos mercados por motivos alheios
ao País.
Com esta observação, o FMI está implicitamente a admitir que
Portugal não voltará aos mercados em Setembro de 2013, como está
previsto. A consequência será negociar novo plano com a ‘troika', que
agravará a austeridade. A economia anémica e o desemprego alto vão
manter-se. O FMI tira a conclusão: os jovens com mais educação vão
emigrar e provavelmente não voltam. É o ponto mais negro da análise do
Fundo. Com esta crise, o país vai perder a primeira geração minimamente
preparada. Como é que Portugal tem um futuro luminoso sem os melhores?"
Mais justo?
Texto de João Cardoso Rosas, Professor Universitário, hoje publicado no "Diário Económico"
"Na conferência de imprensa desta
semana, o ministro das finanças afirmou que a reforma do Estado social
que o Governo diz que vai fazer implica colocar o Estado apenas ao
serviço de quem mais precisa. Para Vítor Gaspar, isso significa a
construção de “um Estado social mais justo”.
Lamento profundamente este tipo de afirmação, uma vez que ela nos
faz entrar no campo da pura demagogia. Afirmações deste tipo são com
certeza expectáveis de pessoas como Miguel Relvas ou Passos Coelho, mas a
esses já nós "damos o desconto", como costuma dizer-se. De alguém com
os pergaminhos intelectuais de Vítor Gaspar espera-se muito melhor.
O modelo que o Governo quer seguir na "refundação" das funções
sociais do Estado equivale - nesse aspecto o ministro é intelectualmente
honesto - à canalização dos recursos apenas para aqueles que estão
pior, evitando que eles caiam abaixo de uma determinado nível (na fome,
no completo abandono). Por outras palavras, o Governo considera que a
sustentabilidade do Estado social passa pela sua transformação numa rede
de segurança social mínima, aquilo que Hayek e outros liberais
chamariam uma "safety net". Ora, o problema é que ninguém que tenha uma
noção robusta de justiça social pode considerar que esta transformação
leva a "um Estado social mais justo" (aliás, Hayek recusava, com
coerência, a própria ideia de justiça social).
Um Estado social justo é, necessariamente, aquele que assume a sua
função redistributiva e geradora de coesão social. Nesse Estado social
existe universalidade dos benefícios e universalidade das contribuições,
adaptadas aos rendimentos e riqueza de cada um. Este Estado social é
para todos e todos nele participam. Não é um Estado social apenas para
os muito pobres. Também neste Estado pode gerar-se a sustentabilidade,
racionalizando, diminuindo benefícios, mas mantendo a universalidade.
Ora, o Estado social que o Governo quer criar, voltado para um
assistencialismo de baixa intensidade, destinado apenas aos menos
beneficiados de todos pela lotaria familiar e natural, é o tipo de
enquadramento institucional que acantona os pobres na sua pobreza, que
não gera redistribuição e que compromete estruturalmente o "elevador
social" e a coesão entre as classes.
O Governo e o ministro das finanças têm todo o direito em pensar que
esse é o caminho adequado, ou até que não é o caminho ideal, mas apenas
aquele que está ao nosso alcance. Eu discordo disso, mas sempre é um
princípio de discussão. O que o ministro das finanças não pode dizer, se
quiser ater-se a um mínimo de rigor e honestidade intelectual, se não
quiser transformar-se num "Relvas" ou num "Passos", é que o modelo para o
qual quer caminhar corresponde a "um Estado social mais justo"."
Onde está o Presidente Cavaco Silva?
Um oportuno texto de Alexandre Abreu, Economista, hoje publicado no "Diário Económico"
"Se descontarmos as entregas de prémios
em torneios de golfe, as inaugurações de unidades hoteleiras e as
recepções no Palácio de Belém, onde está o Presidente Cavaco Silva?
Quais as actuais intenções e relevância daquele que não pode
deixar de ser considerado como um dos mais hábeis políticos portugueses
do pós-25 de Abril? A resposta é simples e trágica: o Presidente não
está, não sabe o que há-de fazer, é um homem perdido no seu labirinto.
Cavaco Silva é talvez o principal rosto de um modelo de transformação
socioeconómica que foi capaz de congregar, hegemonicamente, segmentos
bastante distintos da sociedade portuguesa - da população rural
conservadora do Centro e Norte à oligarquia económica e financeira,
passando pelos pequenos e médios empresários.
Sucede que esse modelo de transformação esbarrou nos seus limites e
deixou de ser viável. Essa hegemonia deixou de ser sustentável, pois os
interesses de uns e outros deixaram de ser conciliáveis - e, neste
contexto, o Presidente não sabe como agir. Não pode hostilizar
excessivamente o Governo, de que não gosta, sem provocar a ira do
aparelho do PSD, que já pouco influencia. Não pode promover um Governo
de iniciativa presidencial, pois nem a actual maioria nem o PS o
desejam.
Não pode tomar o partido dos pequenos e médios empresários (numa
altura em que, sintomaticamente, assistimos às primeiras "greves"
patronais) sem enfrentar as elites nacionais e internacionais com quem
se habituou a conviver. A sua formação económica permite-lhe vislumbrar o
abismo para que caminhamos, mas a rede de alianças em que fez assentar o
seu percurso é agora uma teia que lhe tolhe os movimentos. Resta-lhe
uma única forma de não sair de cena pela porta pequena.
Curiosamente, é precisamente aquilo de que está incumbido: cumprir e
fazer cumprir uma Constituição de que nunca foi entusiasta, mas que
constitui agora uma das últimas barreiras contra a barbárie. Resta saber
se o Presidente terá a visão, a vontade e a autonomia para o fazer."
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Vítor Gaspar está satisfeito porquê?
Texto de Pedro Tadeu hoje publicado no "Diário de Noticias"
"Anunciou ontem o
primeiro-ministro, perdão, o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, que o
memorando da troika, assinado em maio de 2011, já tem cerca de 95% das
suas medidas aplicadas ou em fase de execução. É muito.
Em
resultado dessa política ressaltam uma taxa de desemprego a passar os
16%, um aumento de dívida pública para 122% do PIB, uma redução
neurótica da atividade económica e uma ainda duvidosa diminuição do
défice.
Que conclusão se deve tirar, à luz desta aplicação de 95%
das medidas daquele programa? Que o plano que nos deveria salvar as
finanças e a economia, afinal, é uma porcaria? Não. Segundo o
primeiro-ministro, perdão, o ministro das Finanças, o que se fez é ótimo
e o resultado que se queria era mesmo este. Continuemos, pois, apela,
em frente, decididos, a aplicar os 5% que faltam.
Quando vejo o
primeiro-ministro, perdão, o ministro das Finanças, Vítor Gaspar,
responder pacientemente às pergunta dos jornalistas, a explicar
detalhadamente os pormenores das suas opções, a dizer, com placidez, que
vai poupar 250 milhões nas parcerias público-privadas, a deixar assim
cair na imaginação dos funcionários públicos, professores, enfermeiros,
médicos ou militares o cutelo do resto que falta para um corte de quatro
mil milhões de euros, vejo um homem, talvez inocência minha, que
acredita na obra que constrói.
95% desse trabalho, revela-nos o
primeiro-ministro, perdão, o ministro das Finanças, está aplicado. Nas
ruas, a obra de que ele tanto se orgulha é repudiada, vilipendiada,
insultada e, até, apedrejada. Ninguém gosta dela, só Vítor Gaspar. Será
sadismo? Será masoquismo? Como se explica esta cegueira?
Deixo,
por momentos, as argumentações económicas, frias. Vou às minudências do
dia a dia. Uma jornalista que me acompanhou na mesma redação durante
cinco anos, uma jovem de reputação profissional impecável e que, nos
bons tempos, era disputada entre duas ou três publicações, atravessou o
período do subsídio de desemprego e trabalha agora a servir cafés num
centro comercial. Ganha menos do que o salário mínimo e gere, com um
filho, um horário louco. Imagino os palavrões que lhe devem sair da
boca, como a milhares e milhares de outros profissionais que vivem
situações semelhantes, quando o primeiro-ministro, perdão, o ministro
das Finanças, proclama a sua satisfação com a aplicação destes 95% de
medidas do memorando da troika.
Mas olho a cara de Vítor Gaspar e vejo, juro, honestidade. Só restam, portanto, infelizmente, duas hipóteses: autismo ou tolice."
domingo, 18 de novembro de 2012
O teste do algodão
Texto de Paulo Baldaia hoje publicado no "Diário de Noticias"
"O optimismo da
senhora Angela Merkel e do senhor Pedro Passos Coelho é muito animador
mas não passa no teste do algodão. A senhora e o senhor podem estar
muito convencidos das virtudes do actual plano e muito certos da
excelência da sua execução. A senhora pode determinar que na economia
50% é psicologia e o senhor repetir à exaustão que tudo é para manter
como está, mas alguma coisa vai ter de ser feita.
E é claro que
alguma coisa já está a ser feita. Antes da quinta avaliação, o Governo
também garantiu que não queria mais tempo, mas já andava a negociá-lo
com a troika. Agora, pode jurar que não precisa de mudar o rumo, mas já
anda a negociar alterações ao memorando. Mau era que não fosse assim.
Senão
vejamos. Porque as contas do País precisavam de uma limpeza geral,
gerou-se em Portugal um largo consenso social e político sobre a
necessidade de aplicar um plano de austeridade que permitisse um rápido
ajustamento do défice orçamental para poder diminuir a divida pública. O
resgate a Portugal foi feito porque os juros que os mercados nos
estavam a cobrar eram incomportáveis. Os juros reflectiam a escalada
negativa dos ratings que nos estavam a ser atribuídos pelas agências de
notação.
Um ano e meio depois de assinado o memorando, façamos
então o teste do algodão para perceber se a limpeza (execução do
memorando) está a dar resultado.
O largo consenso social foi
diminuindo, como era de esperar, mas deteriorou-se de tal modo que é
hoje possível dizer que a maioria das pessoas está contra a austeridade
por não entender para que serve, nem para onde nos está a levar. O largo
consenso político está hoje reduzido à coligação com evidentes
divergências entre PSD e CDS. A dívida pública continua a aumentar. Os
juros que tinham descido estão hoje novamente com uma tendência altista.
A Fitch, que, já com o memorando a ser executado, tinha descido em
Novembro de 2011 o rating de Portugal para a categoria de lixo (BB+),
não encontrou em Novembro de 2012 uma única razão para melhorar a nossa
classificação.
Como se vê, o optimismo dos defensores desta
austeridade não só não passa no teste do algodão, como basta uma única
passagem para o algodão ficar todo sujo. O lixo continua a ser tanto que
ainda nem debaixo do tapete se consegue esconder."
| Artigo Parcial |
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Portugal já arde?
Texto de Fernanda Câncio hoje publicado no Diário de Noticias.
"Foi uma semana em cheio. Aquela em que o Governo assumiu o Estado de
sítio ao receber Merkel num forte e não na sede do Governo, para em sua
augusta presença jurar que queremos muito fazer do trabalhador português
um alemão, e que, portanto, os insultos mentirosos que a chanceler
disse na terra dela sobre os povos do Sul, e que a própria imprensa
alemã desmentiu, para o Executivo português são verdade e inspiração.
Aquela de uma greve geral em que o PM chamou cobardes aos grevistas, ao
elogiar a coragem dos que trabalham, enquanto reconhecia ter ficado
surpreendido com a brutalidade dos números do desemprego para logo nos
sossegar com o facto de ter "corrigido" as previsões: espera que ele
suba mais, porque é algo "por que temos de passar". Aquela em que
Passos, ao discursar na inauguração de uma fábrica que ardeu, a comparou
ao país para nos certificar de que não estamos enganados: temos um PM
que sonha com uma reconstrução radical a partir de escombros fumegantes,
um glorioso amanhã que cantará depois de todo o desemprego e pobreza
todos por que temos de passar até que, milagre, dos portugueses nasçam
alemães - ou lá o que é.
É, tudo isto numa semana. Faz então sentido que tenhamos também nela ficado a saber que, enquanto se corta na saúde e na educação e nos apoios sociais e se propõe cortar ainda mais, para as polícias há um incremento de 10,8 por cento em 2013. E não, não venham dizer que é para fazer face a "um previsível aumento da criminalidade"; esta tem vindo a decrescer, notavelmente, nos últimos dois anos. Nem há de ser para enfrentar "a meia dúzia de profissionais da desordem" identificados pelo ministro Macedo na "manif" de quarta (e à conta dos quais centenas de cidadãos foram perseguidos e espancados pelo crime de estarem ali). É mesmo contra nós todos, contra o País que, como a fábrica da Sicasal, deve renascer das cinzas, que o Governo se aprovisiona. Quem nos condena a "passar pelo desemprego" como quem diz "o que arde cura" e "se morreres, morreste" não arrisca passar por nós sem boa proteção.
"Há tolerância mas também há uma linha vermelha", disse ontem Passos. Tão verdade."

