Os jornais noticiam hoje que Portugal está em 33.º lugar entre 176 países, no relatório anual que mede a corrupção.
Os mesmos jornais dão conta de uma
auditoria realizada pelo Tribunal de Contas à Câmara de Oeiras ter voltado a detectar irregularidades em obras celebradas por três parcerias
público-privada.
Dito isto, quem não se lembra da Diretora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, Cândida Almeida, ter afirmado que "Portugal não é um país corrupto"?
Felizmente que ainda há gente que não aceita estes dogmas e luta para mostrar o que efectivamente se passa, como é o caso do excelente trabalho da TVI "Dinheiros públicos, vícios privado" emitido a 3 de Dezembro.
Repórter TVI - Dinheiros públicos, vícios privados
Nele se dá conta do escândalo de favorecimento a escolas privadas na zona centro, pertencentes a um grupo de económico onde pululam políticos e ex governantes do PSD e do PS. Milhões e milhões de euros de dinheiros públicos são entregues todos os anos a este grupo, ao mesmo tempo que se cortam apoios às escolas publicas não só dessa zona mas em todo o País.
O trabalho inicial de investigação está feito pela jornalista Ana Leal pelo que a pergunta que se põe agora é: Para quando uma investigação séria de quem tem por missão lutar contra a corrupção e fazer JUSTIÇA?
A ver vamos.
Daniel Oliveira no seu blogue "Antes pelo contrário" fez um resumo do caso que aqui se trancreve:
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Corrupção - Escândalo na educação
As eleições
Texto de João Cardoso Rosas, Professor Universitário, hoje publicado no "Diário Económico"
"As eleições antecipadas permitirão
suplantar a actual situação, insustentável no médio prazo, de um Governo
que perdeu a maioria sociológica e que concita a desconfiança geral.
Há uma pergunta que toda a gente faz: quando teremos eleições
legislativas em Portugal? A resposta correcta é que ninguém sabe. Há
duas evidências que sugerem que estamos longe dessa possibilidade. Por
um lado, existe uma maioria absoluta de apoio parlamentar ao Governo.
Por outro lado, o Presidente da República é muito favorável à
estabilidade política e só a poria em causa em última instância.
No entanto, estas evidências têm fragilidades. Em primeiro lugar, a
coligação entre PSD e CDS é instável, como já ficou amplamente
demonstrado. Ora, as divisões entre os dois partidos tenderão a
agravar-se com a competição eleitoral autárquica e a própria degradação
do ambiente económico e social. Em segundo lugar, o Presidente está já
sob forte pressão da opinião pública e não poderá alhear-se eternamente -
sob pena de perder ainda mais popularidade e capacidade de influência -
da desaprovação substantiva e politicamente transversal a que o actual
Governo tem sido submetido.
Mas há uma outra pergunta que muitos hoje se fazem: a antecipação das
eleições legislativas serviria para alguma coisa? Esta é a pergunta
essencial e a resposta, em democracia, deve ser positiva. Não é correcta
a visão daqueles que consideram que a possibilidade de eleições
legislativas no segundo semestre de 2013, ou em 2014, significaria algum
tipo de catástrofe para o país. Por exemplo, no caso grego foram as
eleições que permitiram desbloquear a situação, relegitimar o poder e
evitar a bancarrota imediata.
No caso português, se isso vier a acontecer dentro de um prazo
razoável - não é para amanhã, como alguns pensam -, as eleições
antecipadas permitirão suplantar a actual situação, insustentável no
médio prazo, de um Governo que perdeu a maioria sociológica e que
concita a desconfiança geral. Esta desconfiança liga-se, com certeza, às
dúvidas de carácter em relação a alguns dos seus membros - Passos
Coelho, Relvas -, mas também e sobretudo ao facto de que a política
prosseguida, para além de afectar fortemente os interesses dos cidadãos,
contraria o contrato eleitoral que PSD e CDS com eles fizeram.
Para além de refrescar a legitimidade, o que é fundamental num
processo de ajustamento, as eleições abrem novas possibilidades de
Governo, de acordo com o mandato dos eleitores.
O país pode ter outra coligação PSD/CDS, com novos protagonistas. Mas
pode também ter um Governo maioritário do PS. Ou ainda uma coligação ao
centro, entre PS e PSD, num Governo de salvação nacional. Uma coligação
entre PS e CDS também é possível e não seria necessariamente mais
instável do que a actual. Todas estas possibilidades existem e já foram
experimentadas. A democracia não bloqueia, desbloqueia."
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Somos ratinhos de laboratório de um governo cobarde
Texto de Tiago Mesquita, publicado no seu blogue "100 reféns" no "Expresso"
"Este governo é de uma
cobardia impressionante. É um exercício penoso assistir ao miserável
comportamento deste executivo. Não há uma única medida, ou melhor,
projeto de alguma coisa que se assemelhe ao que possa vir a ser uma
medida, que não seja à priori testada na opinião publica via comunicação
social.
O nível de impopularidade que esta espécie de
pré-anúncio consiga gerar no imediato, seja na oposição, comentadores,
redes sociais, nas ruas ou no tipo que vende os pastéis de nata no bar
do parlamento, leva a que a suposta medida avance ou não. Se não gerar
muita polémica, passa. Se for uma imbecilidade tal, como esta última dos
co-pagamentos no ensino secundário, fica na fase de projeto imbecil,
não tendo continuidade o raciocínio idiota e a finalização da estupidez.
Estupidez que seria, obviamente, a aplicação concreta da parvoíce.
Mesmo assim, muita parvoíce tem sido executada. É fácil, lança-se uma
idiotice para ser rejeitada de forma veemente pela opinião publica e
depois compensa-se com a aplicação de várias estupidezes avulsas.
Somos ratinhos de laboratório de um grupo de
'cientistas' incompetentes, políticos sem qualquer espécie de orientação
(que vá para além do GPS ligado em permanência à chancelaria
berlinense) e que usa e abusa da boa fé, testa a paciência, e acossa e
maltrata sem qualquer impiedade e impunidade todo um país.
Esta cobardia, este toca e foge permanentemente feito por ministros, assessores, via noticias plantadas nos media
ou pela própria boca do primeiro-ministro demonstra a falta de
honestidade, orientação, competência e principalmente futuro desta
espécie de governo.
Depois de seis anos de autêntico lixo governativo
socialista, acho que merecíamos mais do que estarmos agora sujeitos, por
tempo indeterminado, aos desmandos e testes sádicos de um governo
cobarde de direita."
Ainda a estupidez de Passos Coelho
Passos Coelho não sabe nada de Constituição
Texto de Pedro Tadeu hoje publicado no "Diário de Noticias"
"Passos Coelho, na TVI, disse: "A Constituição trata o esforço na educação de forma diferente do da saúde. Isso dá-nos, do lado da educação, alguma margem de liberdade para um financiamento mais repartido entre os cidadãos e a parte fiscal, direta, assegurada pelo Estado".
Li a Constituição. Determina que o Estado assegura o direito à proteção da saúde "através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito" e que deve "garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde".
Na educação o Estado tem de "assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito" e para isso "criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população".
Conclusão 1: A Constituição dá alguma margem de manobra para o financiamento do sistema de saúde (com as frases "tendencialmente gratuito" e "garantir racional e eficiente cobertura") enquanto na educação fecha o critério (utilizando expressões como "universal, obrigatório e gratuito" ou para cobrir "toda a população").
Conclusão 2: O primeiro-ministro não conhece a Constituição.
Mas há mais. A Constituição, na sua letra, não está a ser cumprida . Em Portugal o ensino público não é realmente gratuito, é, apenas, largamente subsidiado.
Qualquer pai sabe que, no 1.º Ciclo, tem de gastar, em manuais escolares, por filho, 40 ou 50 euros por ano, e que nos ciclos seguintes esssa quantia sobe para 200 ou 300 euros. Em material didático essa quantia cresce bastante. Será pouco, pensarão alguns leitores Será muito, acharão outros. Não sei, sei que não é gratuito e que Passos não pode argumentar que os cidadãos em nada contribuem.
Aliás, à minha volta, vejo multiplicarem-se educadores e professores que pagam do seu bolso papel higiénico, giz ou detergente porque as escolas estão falidas, à espera de dinheiro, que não vem, de municípios ou do Ministério.
Leio no Diário da República de 27 de Abril do ano passado que na Bélgica, na Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Itália, Noruega, Polónia, Reino Unido e Suécia todos ou uma boa parte dos manuais escolares são distribuídos, gratuitamente, a toda ou a grande parte dos alunos do ensino obrigatório. A ideia de um verdadeiro ensino gratuito não é, portanto, uma caturrice de comunas.
Mas, para Passos Coelho, que não conhece ou não se interessa pela leitura da Constituição, isso não interessa nada. Interessa, apenas, destruir, destruir, destruir."
A amnésia intermitente de Passos Coelho
Texto de Daniel Oliveira, publicado no seu blogue "Antes pelo contrário" no "Expresso"
"O primeiro-ministro está a começar a ficar tão habituado às suas contradições e mentiras que já tropeça nelas e nem dá por isso.
Disse, na entrevista à TVI: "Temos uma Constituição que trata o esforço do lado da Educação de uma forma diferente do esforço do lado da Saúde. Na área da Educação, temos alguma margem de liberdade para poder ter um sistema de financiamento mais repartido entre os cidadãos e a parte fiscal direta que é assumida pelo Estado." Um financiamento mais repartido entre os cidadãos e a parte fiscal direta (dos contribuintes, que por acaso são os mesmíssimos cidadãos) não quer dizer co-pagamento?
O primeiro-ministro acha que não. Disse, logo depois da entrevista: "Eu nunca fiz qualquer referência a essa matéria e posso mesmo dizer que isso nem tem qualquer sentido. De resto, o senhor ministro da Educação esclareceu-o muitíssimo bem. Não é possível, em termos de ensino obrigatório, criar taxas dessa natureza." Fica o mistério: o que quer dizer "repartir os custos"?
Alguns têm defendido que o problema de Pedro Passos Coelho é de comunicação. Que, nas entrevistas, improvisa. E saem-lhe estas pérolas que logo depois tem de desmentir. Parece-me uma avaliação bondosa. Poderia ter alguma credibilidade se esta referência fosse inédita. Mas não é.
Num artigo publicado no jornal "I", em 2010, logo depois de chegar à liderança do PSD, Passos Coelho escreveu: "É indispensável organizar um ambicioso programa de combate aos desperdício nas políticas públicas mais pesadas, como são a Saúde e a Educação, fundadas na melhoria da nova gestão pública, no incentivo à livre escolha e na introdução de co-pagamentos pelos serviços prestados, com salvaguarda dos mais desfavorecidos." Os co-pagamentos que agora não fazem qualquer sentido e não são possíveis.
Com estes factos, e tentando repor alguma ordem nas contradições de Passos Coelho, era de co-pagamentos que o primeiro-ministro estava mesmo a falar. Porque já o tinha dito antes, com todas as letras, e porque é a única interpretação possível das suas palavras na entrevista da TVI. Que tenha sentido a necessidade de o desmentir logo depois, compreende-se pela reação generalizada à proposta. O País ainda não está preparado. É esperar pelo desastre a que os primeiros meses da aplicação do seu orçamento nos levarão para poder dizer: "nós nem queríamos, mas agora temos de cortar na despesa". O problema é que sabemos que queriam. Nunca quiseram outra coisa."
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Andar aos papéis
Texto de Ana Sá Lopes hoje publicado no "i"
"Passos Coelho garantiu ontem que nunca quis dizer o que disse na entrevista à TVI
O primeiro-ministro aludiu na entrevista que deu à TVI que teria “um
problema de comunicação”. É verdade, mas não é esse o seu principal
problema – o mais grave é andar literalmente aos papéis, em busca de um
corte irreal a que se comprometeu com a troika e que o prof. Marcelo
revelou ontem no seu programa dominical – vão ser 4,4 mil milhões a
retirar à despesa pública.
Primeiro, inventou a “refundação” do Memorando que, no entanto, não era
“renegociação”. Depois, chamou o PS para a “grande causa” de repensar
as funções do Estado e o PS fez o que costuma fazer nestas ocasiões –
uma abstenção violentíssima, uma autêntica abstenção veemente, irascível
e arrebatada. Depois, veio Gaspar convocar todos, sociedade civil e
universidades, para discutir tudo, as fundações e refundações, a equação
entre aquilo que “os portugueses estão dispostos a pagar de impostos” e
o Estado que querem. Por fim, percebeu-se que não iria haver nenhum
debate, como não existiu antes nem existirá relativamente ao Memorando
da troika – enquanto este governo continuar no sítio. A troika exige, o
governo manda fazer, o povo acata – até um dia.
É neste contexto de “andar aos papéis” que se tem de enquadrar o
acontecimento da entrevista à TVI em que o primeiro- -ministro afirmou
claramente que a Constituição lhe permitia – mais na Educação do que na
Saúde – obrigar os cidadãos a “repartirem” o esforço do Estado. Isso é
uma coisa que já acontece no ensino superior, com as propinas.
Passos Coelho demorou quatro dias a desmentir que tivesse o objectivo
de instituir os co-pagamentos da Educação – ideia que sempre defendeu
antes de se tornar primeiro-ministro, como o i recorda hoje. Na
quinta-feira da semana passada, no fim de um longo dia de polémica, com o
PSD em profundo silêncio, o Ministério da Educação veio anunciar não
estar em causa a “gratuidade” do ensino obrigatório. Ontem, os
excelentes ares do Mindelo inspiraram Passos Coelho para decidir
rejeitar ter dito o que efectivamente disse. A versão oficial, agora, é
que o primeiro-ministro se limitou a concluir que os estudantes do
ensino superior já pagam propinas. And so what? E afinal vai mudar
alguma coisa na Educação? Neste momento, e depois da polémica, o
primeiro-ministro não sabe. Ninguém sabe. Só sabe que são 4,4 mil
milhões (e a precisão do número também só o prof. Marcelo sabe, porque
mais ninguém a esclarece) e anda absolutamente aos papéis."
Da reforma ao facilitismo
Texto de Mariana Vieira da Silva,Socióloga, hoje publicado no "Diário Económico""A educação é um excelente exemplo de tudo o que está errado na quimérica refundação do Estado.
Não passa uma semana sem que a rotina se repita: o primeiro-ministro deixa cair uma "ideia", ela é explorada nos jornais e testada por comentadores, para depois ser desmentida ou corrigida em comunicado de um gabinete ministerial. Agora foi a vez dos co-pagamentos na educação.
A educação é, aliás, um excelente exemplo de tudo o que está errado na quimérica refundação do Estado. Não se identificam margens de ineficiência, nem prioridades nacionais, não se compara internacionalmente, nem se explicam escolhas. Quando todos os relatórios e peritos nos aconselham a superar um dos principais bloqueios ao desenvolvimento - as baixas qualificações - o governo quer "moderar" a educação.
Quando o parlamento decidiu tornar o ensino até aos 18 anos obrigatório para universalizar o secundário, vem o governo erguer muros, adiar objectivos, dificultar o acesso.
A melhor forma de compreender o logro desta receita refundacional é olhar para os últimos anos e ver onde estavam o PSD e o CDS quando se tentou reformar a escola pública. Quando se sugeriu encerrar escolas com poucos alunos, hierarquizar a carreira docente, implementar um modelo de avaliação com consequências e limitar as reduções da componente lectiva (não nos esqueçamos que a partir dos 40 anos o horário dos professores se reduzia progressivamente, prática rara na OCDE).
Quando se tentou melhorar a eficácia e a eficiência da educação - e estas eram reformas com significado orçamental, ao contrário das propinas cuja soma será sempre marginal -, o PSD e o CDS impediram, suspenderam, revogaram qualquer reforma. Talvez assim se compreenda a súbita apatia nas hostes sindicais.
É evidente que cobrar propinas no secundário é inconstitucional, contrário às prioridades do país e um aumento disfarçado da carga fiscal que penalizaria ainda mais as famílias.
E sabemos que os estudos recentes e práticas internacionais mostram que as soluções privadas na educação não reduzem despesa e que reduzem a equidade. Mas o que cada vez é mais claro é que estas são soluções facilitistas daqueles a quem falta a coragem para reformar."
domingo, 2 de dezembro de 2012
Perdido
Texto de Pedro Marques Lopes hoje publicado no "Diário de Noticias".
"O nosso primeiro-ministro parece ainda não ter percebido que de cada vez que presta declarações fala com os cidadãos. Como os portugueses não estão propriamente interessados em ter conversas de café com o homem que os governa, convinha que tivesse alguma coisa para dizer quando lhes fala. E já agora de substancial ou, pelo menos, alguma novidade.
Na semana passada, Passos Coelho começou com um discurso, de quase uma hora, na Madeira, em que diagnosticou amnésia, sem que se tenha percebido muito bem a quem. Disse que "podia bem" com os adversários das suas políticas, afirmou a sua convicção na inteligência dos portugueses e jurou que a austeridade ainda não é excessiva. Fora os desconhecidos conhecimentos sobre psiquiatria, a habilidade para testes de inteligência e a bravata - as bravatas começam a ser um hábito de Passos Coelho -, nada de novo.
Depois, quarta-feira, o primeiro--ministro deu uma entrevista à TVI.
Após a votação da coisa a que alguns chamam orçamento, com a convicção na opinião pública a crescer de que a refundação ou a reforma do Estado não passa dum corte cego de quatro mil milhões de euros na despesa, afectando seriamente os alicerces do nosso edifício social sem que se conheça a alternativa, e sem ainda sabermos o que se passou com o Orçamento de 2012, fazia sentido Passos Coelho vir esclarecer-nos. Se não fosse pedir muito, talvez acender uma velazinha de esperança.
Mas eis o que tinha para nos dizer: o desvio colossal no défice de 2012 foi uma surpresa; renegociação, nem pensar (vai ser penoso ver o primeiro-ministro a anunciar brevemente a renegociação); a austeridade será redentora; o orçamento para 2013 é bom porque os deputados votaram (Passos Coelho ainda não percebeu o que se está a passar no PSD e no grupo parlamentar) e ele "espera que o Governo acredite nele"... A palavra de esperança foi esta: "Vai custar muito. Mas vamos lá chegar vivos." A cereja no topo do bolo. Ufa, ficamos todos muito mais aliviados...
Confirmamos que Passos Coelho quer mesmo criar um problema com Paulo Portas: a distracção do primeiro-ministro tem limites e ele com certeza sabe que um governo de coligação tem uma hierarquia formal e outra material. O Governo sem Gaspar pode continuar, mas não sem Portas. A guerra dentro do Governo e na coligação prossegue.
E a refundação, ou reforma do Estado ou reforma das funções do Estado? Em Fevereiro logo se vê. Pergunta-se: então onde é que param os planos feitos por aquelas equipas de sábios que rodeavam Passos Coelho? Por onde anda o conhecimento absoluto sobre todos os aspectos da governação que permitia mudar tudo três meses após a tomada de posse? Perdeu-se tudo na mudança de São Caetano para São Bento ou era uma colossal aldrabice?
Apareceu, porém, uma espécie de ideia: uma das partes da refundação ia ser feita através de pagamentos na educação pública. Ninguém percebeu em que tipo de ensino, de que forma, de que maneira ia ser feito, nada. Claro está, e para não variar, lá veio um ministro, neste caso o da Educação, no dia seguinte, desmentir o seu primeiro--ministro. Nada de novo, portanto.
Já percebemos que o primeiro-ministro não prepara as entrevistas, não estuda os temas e vai pensando enquanto fala. Mas, convenhamos, de quem anuncia uma refundação do Estado sem saber minimamente o que vai fazer, de quem desenha um orçamento criminoso e inconsciente, de quem propôs a alteração na TSU sem perceber o impacto da medida, não se pode esperar que prepare uma entrevista.
Passos Coelho vulgarizando as suas intervenções, não acrescentando nada, repetindo apenas meia dúzia de frases feitas em que já ninguém acredita, perde a atenção dos cidadãos quebrando um elo fundamental entre liderança e população. Como nunca, essa ligação era vital. Mas está, infelizmente, perdida.
O pior, porém, é já ser evidente que fora a sua fé cega no plano revolucionário pós-troikiano de Gaspar, Passos Coelho não tem uma ideia consolidada e estruturada sobre praticamente nada. E sempre que fala, isso torna-se claro para cada vez mais pessoas. Agora tem fé em Gaspar, outro guru se seguirá.
Nada pior do que sentir que quem nos lidera está ainda mais perdido do que nós. "
sábado, 1 de dezembro de 2012
Fome infantil - não e não!
É isto o sucesso de Passos Coelho e de Gaspar?
"Nosso querido Rui, quantas crianças portuguesas haverá como tu, por estes dias, torturadas pela fome?"
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| Foto: do Correio da Manhã |
Ilegitimidade do governo
Três textos que mostram Passos Coelho ter perdido a legitimidade para governar.
Da legitimidade democrática e eleitoral
Texto de Nuno Saraiva hoje publicado no "Diário de Notícias"
"Pedro Passos
Coelho confessou, esta semana, em entrevista televisiva, que o fracasso
das previsões macroeconómicas do Governo ficou a dever-se, entre outras
coisas, a uma "surpresa orçamental". Assim uma espécie de "ovo Kinder"
das contas públicas.
Longe vão os tempos em que o então candidato a
primeiro-ministro afirmava: "Espero nunca dizer ao País, ingenuamente,
que não conhecíamos a situação. Nós temos uma noção de como as coisas
estão."
Trata-se, apenas, de mais uma demonstração de como o
contrato de confiança estabelecido com os eleitores nas últimas
legislativas foi quebrado. Em junho de 2011, Passos Coelho conquistou,
através do voto, a legitimidade para governar.
Porém, e embora a
realidade mude e possa obrigar a correções e inflexões, aquilo a que
assistimos nos últimos 17 meses foi ao sucessivo dito por não dito e a
um rol impressionante de compromissos quebrados e promessas falhadas.
Senão
vejamos. A 1 de abril de 2011, garantia-se que "cortar o décimo
terceiro mês é um disparate". Antes, a 24 de março, prometia-se que "se
vier a ser necessário ainda algum ajustamento fiscal, a minha garantia é
a de que ele será canalizado para os impostos sobre o consumo e não
para os impostos sobre os rendimentos das pessoas". Já em pré-campanha
eleitoral, a 30 de abril do mesmo ano, a proclamação era de que "posso
garantir-vos que não será necessário em Portugal cortar mais salários
nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento
financeiro no Estado". A 10 de maio, e respondendo a uma acusação direta
do então primeiro-ministro, Passos Coelho assegurava que era
"absolutamente falso" que quisesse acabar com o IVA intermédio para a
restauração. Do mesmo mês sobra ainda o compromisso de que "a carga
fiscal que está definida é mais do que necessária e não precisamos de ir
mais longe". E, já em campanha, afirmava-se de forma solene: "Não
olhamos para as classes com rendimentos de mil e poucos euros dizendo
'aqui estão os ricos de Portugal e eles que paguem a crise'". E por aí
adiante.
Sabemos todos o que afinal foi feito. Entre um "enorme
aumento de impostos" e uma sobretaxa de 50% sobre o 13.º mês, houve de
tudo: o IVA da restauração passou para a taxa máxima, confiscaram-se os
subsídios de férias e de Natal à administração pública e aos
pensionistas, subiu-se brutalmente o IRS, cortou-se nos ordenados e
despediram-se trabalhadores do Estado.
A legitimidade de um
governo mede-se pela sua capacidade de honrar os compromissos
estabelecidos e cumprir as promessas feitas. Não é eterna e, tal como as
flores, precisa de ser regada com regularidade para que não morra.
Mas
a legitimidade também se mede pela avaliação que se faz sobre a ação
governativa e se esta corresponde ao mandato popular conferido pelo
voto. Na última campanha eleitoral, sempre que confrontado com o projeto
de revisão da Constituição do PSD, Passos Coelho fugia do debate
argumentando que nenhum dos propósitos que lhe eram apontados constava
no programa apresentado aos eleitores. Não estava em causa o Estado
social e, muito menos, a escola pública ou os sistemas de proteção
social.
Sabemos agora que, afinal, havia uma agenda escondida. E
que quando se fala de "refundação" é do redesenho da arquitetura social
do Estado que se trata. E que "cortar nas gorduras" não era apenas
reduzir os consumos excessivos ou acabar com organismos inúteis que
servem apenas às clientelas partidárias. As ditas "gorduras" eram, isso
sim, a Saúde, a Educação e as pensões da Segurança Social. E este é um
mandato que o Governo não tem porque nunca o quis discutir em campanha
eleitoral.
O que está em causa é determinar que Estado queremos e
podemos ter. Com todas as hipóteses em cima da mesa. Desde o Estado
mínimo e indiferente para com os cidadãos ao agravamento fiscal - como
se ele fosse necessário - para pagar todo o tipo de serviços públicos. O
que não pode ser tolerado é que reformas como estas, que,
objetivamente, implicam uma drástica rutura social, sejam feitas à
socapa numa espécie de revisão clandestina da Constituição.
Se é
isto que querem, tirem da gaveta os projetos de alteração impopulares e,
com verdade, levem-nos a votos - seja em referendo ou em próximas
eleições - e comprometam-nos a todos com as escolhas que temos de fazer.
Isso é a democracia, isso é a legitimidade. Porque, como afirmou um dia
Pedro Passos Coelho, "acho intolerável que as pessoas que estão no
Governo percam a noção daquilo que dizem".
Tão iguais
Texto de João Marcelino hoje publicado no "Diário de Noticias"
"1
Os números conhecidos sobre o desempenho da economia portuguesa não
param de trazer más notícias. O Governo de Pedro Passos Coelho, neste
momento, um ano e meio depois, está como o de José Sócrates no final da
corrida: já só pode contar com os crentes, os que acreditam que no final
deste caminho de sofrimento social estará a redenção de uma economia
por fim a crescer e a gerar os empregos que hoje se extinguem a uma
cadência alucinante.
Há muitas coisas em comum nos dois governos.
A
primeira é que os dois têm, tiveram, bons ministros, pessoas empenhadas
em mudar as suas áreas, em reformar, como é agora o caso de Paula
Teixeira da Silva, na Justiça, por exemplo. Mas a característica
principal é que ambos os primeiros-ministros estabeleceram com os
eleitores um contrato social que depois rasgaram. Pode dizer-se que
Sócrates o fez com premeditação eleitoral, admitir-se em defesa de
Passos Coelho que "apenas" foi assaltado pela falta de preparação, ou
para o cargo ou para as condições que iria defrontar. Pode dizer-se
muita coisa, mas o resultado é só um: fizeram promessas que não
cumpriram. O cidadão dirá que mentiram - e é verdade.
2
Quando se mente ou se ganha as eleições com contratos que se revelam
falsos, o Governo pode continuar em funções, o que formalmente é
legítimo, mas perde a capacidade para levar a cabo grandes mudanças
sociais.
O que está em causa no folhetim da "refundação do
Estado", já se percebeu, nada mais é do que uma necessidade premente de
cortar quatro mil milhões de euros a curto prazo. Podia ser uma reforma
ideológica, no que o Governo até seria coerente, assim a Constituição o
permitisse. Mas, infelizmente, é apenas mais um corte, com mais ou menos
critério, a que só uma oposição ingénua se poderia associar.
3
Mexer no Estado social com profundidade, adequando-o às novas
possibilidades do País, teria necessariamente de merecer um grande
compromisso nacional que um governo tranquilo, mesmo de direita, poderia
liderar se o convocasse com tempo e sem estar pressionado, como está,
no imediato. O PCP e o Bloco diriam que não, mas o PS teria de se
disponibilizar para essa discussão, em que entraria já de livre vontade
ou um dia terá necessariamente de a liderar - e aí já sem álibis. O
dinheiro não dá. Ponto.
O problema está em que Pedro Passos
Coelho não deu qualquer espaço à oposição. Antes pelo contrário,
forneceu-lhe toda a argumentação para se colar na posição que foi dele
um dia perante Sócrates: "O governo que faça."
Parece que é neste
círculo desgraçado que estamos condenados a sobreviver nos próximos
anos enquanto se cava mais e mais o descrédito do regime. Quando a
cegueira se junta ao logro eleitoral, só resta mesmo acreditar em algum
milagre.
O Orçamento do Estado, toda a gente o sabe, não dará
certo em 2013. O quadro macroeconómico é uma ilusão. A recessão vai
situar-se, obviamente, acima do 1% do PIB. Virão mais cortes no
rendimento do trabalho, mais desemprego, o caldo social vai agravar-se e
os objetivos de redução do défice não serão alcançados. Até quando
Passos Coelho resistirá na imitação do mais estafado dos defeitos
políticos do se antecessor, a teimosia?"
Governo perverso
Texto de Carvalho da Silva hoje publicado no "Jornal de Noticias".
Passos Coelho e a sua equipa governam abertamente contra a Constituição da República (CR), adotam medidas para as quais não estão mandatados, fazem e vão executando políticas absolutamente contrárias aos compromissos que assumiram.
A coberto de mentirosas inevitabilidades e de uma emergência financeira cuja gravidade vai aprofundando, o Governo destrói a economia, entrega a grandes interesses capitalistas estrangeiros e nacionais os nossos recursos e setores estratégicos, e impõe escolhas de regime político que subvertem o Estado de Direito e a sua lei fundamental.
O ataque violentíssimo em curso contra o Estado social é uma dessas escolhas. Até aqui foram-no despindo em dimensões sensíveis de apoio aos mais desprotegidos, aos desempregados, aos trabalhadores no ativo, aos reformados e pensionistas, sempre em nome do corte nas "gorduras do Estado" e do combate aos "privilégios". Agora não se trata de qualquer proposta de reforma do Estado social, mas sim da sua objetiva destruição.
A história recente da Europa, e em particular do nosso país, mostra-nos à evidência que existe uma relação muito profunda entre o Estado social, o lugar e o valor do trabalho na economia e na sociedade, o progresso social e o desenvolvimento humano, o Estado democrático e a paz.
Os valores do universalismo, da solidariedade, da igualdade progrediram em resultado da relação/articulação desses objetivos. A ausência de garantias ou a fragilização extensa dos direitos sociais fundamentais conduzirá à pobreza, à exclusão social, à regressão do nível de vida e do desenvolvimento da sociedade.
A obscena proposta do Governo de cortar 4 mil milhões de euros no nosso Estado social, apresentada debaixo do slogan da inevitabilidade, tem de ser rechaçada sem hesitações. O Governo quer apenas envolver as forças políticas e sociais e os portugueses na credibilização do corte que pré-definiu. Esse corte faz parte da estratégia de empobrecimento material, cultural e político do país.
O brutal aumento de impostos, consumado no OE para 2013, significa redução do valor dos salários, das pensões e dos rendimentos das pessoas. E o que significam os cortes na prestação dos direitos ao ensino, à saúde, à segurança social, à proteção na família, senão um corte indireto nesses mesmos rendimentos?
Existe na sociedade uma ideia racional e justa de que não pode haver mais aumentos de impostos, pois os salários e os rendimentos das pessoas não aguentam. Mas os cortes no Estado social, colocando os cidadãos sem acesso a direitos sociais fundamentais, têm o mesmo efeito, com a agravante de serem ainda mais injustos.
O Governo podia aumentar os impostos sobre a grande riqueza, em particular a especulativa, podia mobilizar forças no plano nacional e adotar uma estratégia articulada com outros países para reduzir as taxas de juros da dívida e exigir a sua renegociação, podia apelar às capacidades da sociedade portuguesa para defender o emprego, dinamizar a economia e criar novos empregos, podia agir contra a corrupção e o compadrio que fazem evaporar centenas de milhões de euros em cada ano.
Mas o Governo e as forças que o apoiam não vão por aí e optam por cortar no Estado social porque querem alterar o regime político.
Há umas "boas almas" que ainda dizem que quem se opõe à proposta do Governo é porque não é capaz de "ultrapassar os absolutos ideológicos". Desgraçada condescendência! Será que transformar o Ensino, a Saúde e as reformas em produtos de mercado não é uma opção ideológica?
Vamos, de forma séria, defender e procurar garantir o futuro do Estado Social."
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
A estupidez de Passos Coelho
O estúpido primeiro ministro que nos calhou em sorte, Passos Coelho, deu uma entrevista à TVI em que, mais uma vez, mostrou a sua enorme estupidez.
Para Portugal e os portugueses terem futuro é forçoso correr com ele e com os bandidos que o rodeiam para os rodapés da história, se não mesmo para os calabouços das prisões por roubarem e destruirem um País!
Ao contrário do que muitos comentadores de regime afirmam não há que ter medo de ir a eleições e da crise politica que dai podia advir.
Crise é ver as politicas de roubo e esbulho a destruir a esperança e a matar toda uma nação.
Há que devolver a voz ao povo mas compete aos eleitores não se deixarem seduzir novamente pelas mentiras dos maiores partidos, PSD, PS, CDS e tudo fazer para impedir que voltem a ter maiorias absolutas para formarem governos, governos esses que, dizendo-se legitimados pelo voto, rapidamente voltariam às mesmas práticas de sempre.
Abstenção e voto em branco não são solução por deixarem o poder de decisão na mão de outros.
Idealmente não deveria haver partidos mas, enquanto isso não acontece, há que ir votar e, de preferência, em partidos que até agora não têm tido expressão eleitoral.
Partido da terra, partido dos animais, até mesmo o MRPP, são boas alternativas para o voto popular dar uma pedrada no charco da politica nacional.
Não é difícil de imaginar o descalabro que seria para os "partidos de governo" se, de repente, 20 ou 30% dos deputados no parlamento fossem desses partidos não alinhados.
Há que ir a eleições, sim, mas antes há que provocar a queda de Passos Coelho e tem de ser JÁ, porque amanhã pode ser tarde demais!
Eis aqui algumas reacções à estupidez de Passos Coelho.
Obviamente
Texto de Fernanda Câncio hoje publicado no Diário de Noticias.
"O que é que deve levar à demissão de um primeiro-ministro que dispõe de uma maioria, se não estável, pelo menos que, com maior ou menor algazarra, protesto e ranger de dentes lhe viabiliza o Governo?
Não há de ser por, como já vi Soares dizer e escrever, porque lhe chamam gatuno na rua. Nem por, discurso sim discurso sim, evidenciar que quando distribuíram a sensibilidade andava de fisga às andorinhas (e ainda pergunta, o pobre, se tem um problema de comunicação); ou por sonhar com um país do homem-novo, onde toda a gente cria empresas em loop, sem salário mínimo nem "direitos adquiridos", e o Estado é um guichet para sem-abrigo.
Não será por assinar textos lacrimosos no Facebook - logo ele, que chama piegas aos portugueses -, por dizer que não se preocupa com a contestação porque as manifs portuguesas são pacíficas, nem sequer por (ainda que nos ferva o sangue) defender que "o desemprego é uma coisa por que infelizmente temos de passar". Tão-pouco por humilhar com gosto parceiro de coligação e presidente - não se pusessem a jeito.
Nem há-de ser por ignorar as censuras e avisos dos barões do partido, por passar a vida a mandar as culpas de tudo e um par de botas para o antecessor, ou por dizer que não é de fazer promessas - quando faz tantas e tão contraditórias que ninguém, muito menos ele, se pode lembrar de todas.
Nada disso. A demissão de um primeiro-ministro é algo de muito sério. Não se exige por desfastio, ao não lhe irmos com a cara ou as ideias, mas só e apenas quando se torna claro que é incapaz e indigno. Quando fica evidente que chegou ao poder através de um colossal e calculado embuste, negando o que tencionava fazer (Catroga, um dos autores do programa do PSD, revelou agora que o aumento de impostos foi rasurado do documento). Quando anuncia medidas incendiárias num dia para as retirar semana e meia depois; quando todas as suas previsões - todas, sem exceção - falham sem que sequer o admita ("tenho noção da realidade", escandaliza-se ele). Quando aumenta brutalmente os impostos e, perante o que todos menos ele e o seu Gaspar previam, a queda da receita fiscal, fala de "surpresa orçamental" - para a seguir voltar a fazer o mesmo, em pior. Quando toma medidas inconstitucionais e a seguir se queixa do tribunal que lho diz e o culpa por ter de tomar mais - e mais inconstitucionais. Quando se recusa a aproveitar a aberta da Grécia e a renegociar o acordo com a troika, mas não se incomoda em rasgar todos os compromissos assumidos com os eleitores e se prepara para, após anunciar a venda ao desbarato de todos os ativos nacionais, trucidar até o pacto social que funda o regime.
Demite-se um PM quando é mais danoso para o País mantê-lo no lugar que arriscar outra solução, por fraca e incerta que pareça. Quando cada dia que permanece no lugar para o qual foi eleito cria perigo para a comunidade. Demite-se um primeiro-ministro quando é preciso. É preciso. "
Um tiro ao lado
Texto de António Costa , Director, hoje publicado no "Diário Económico"
"Pedro Passos Coelho decidiu dar uma entrevista à TVI para encerrar a discussão sobre o Orçamento do Estado para 2013, para repetir a profissão de fé num caminho em que nem a maioria parlamentar do PSD e do CDS acreditam, mas acabou por abrir uma caixa de Pandora impossível de controlar e que pode minar um debate absolutamente necessário, o da reforma do Estado.
O primeiro-ministro não acrescentou nada de relevante em relação ao que se ouviu nos últimos dois meses sobre a proposta de Orçamento para o próximo ano, aprovada 24 horas antes. Sublinhou os progressos do ajustamento que, necessariamente, seria doloroso em qualquer circunstância, porque empobrecer custa, empobrecer é caro. Seria injusto reduzir os progressos a nada, até porque se vivemos pior, é certo, vivíamos a crédito. Mas essa virtude já os portugueses conhecem, e aceitam. Mas querem mais, querem futuro que o Orçamento do Estado para 2013 não dá. Compra tempo à ‘troika', à espera de uma solução europeia, e isso percebeu-se da entrevista de Passos Coelho. Que, garante, nos levará vivos ao paraíso.
A reforma do Estado, que começou por ser a refundação do memorando de entendimento com a ‘troika', acabou por esmagar tudo o resto. Os portugueses já não querem ouvir falar de 2013, que ainda nem começou, mas dispensavam bem a forma como o primeiro--ministro decidiu abrir a discussão sobre a reforma do Estado. Este tema exige discussão, e não é razoável exigir mais tempo para o fazer e criticar o Governo e Passos Coelho por fazê-lo. Mas exigiam-se balizas, contexto, objectivos. E nada disto se viu e ouviu.
Pedro Passos Coelho tem razão - e António José Seguro não - quando afirma que a correcção dos desequilíbrios orçamental e externo tem de passar por escolhas. E as escolhas têm de passar, necessariamente, pelas áreas sociais e pelas despesas com pessoal que valem cerca de 70% da despesa corrente primária. Outro caminho - a existência de territórios sagrados, como dizia ontem João Soares - é apenas demagogia e notícias nas televisões quem permitem ganhar apoios partidários mas não resolvem problemas estruturais. Não há terrenos sagrados, há sustentabilidade, ou não.
Dito isto, Passos Coelho teria de ter um modelo a apresentar e não apenas ideias soltas, que têm caminho além da Constituição. O caso da educação é paradigmático. Este processo ainda nem começou - ficou a saber-se que o Governo ‘disponibiliza' seis meses e não três para a discussão pública e política - e já o ministro da Educação, Nuno Crato, foi obrigado a clarificar o que o primeiro-ministro quis dizer. Não augura nada de bom.
O primeiro-ministro conseguiu pôr o País a discutir sobre nada e a especular sobre tudo. E, como dizia um anterior chefe de Governo, não terá uma segunda oportunidade para apresentar uma primeira boa proposta de reforma do Estado.
A forma e o conteúdo andam de mãos dadas. Passos Coelho errou nas duas e permitiu que o PS, pela voz de Carlos Zorrinho, fizesse uma ameaça velada, que não disfarça a tentação do PS de provocar eleições antecipadas: o Governo não tem legitimidade para fazer mudanças no financiamento da educação."
Sem saída
Texto de Pedro Bacelar de Vasconcelos hoje publicado no "Jornal de Noticias"
"Oh vós que entrais, perdei toda a esperança", esta frase inscrita à porta do Inferno - segundo a "Divina Comédia", de Dante Alighieri - resume a mensagem que o primeiro-ministro transmitiu aos seus concidadãos, na entrevista concedida à TVI, na noite da passada quarta-feira.
Nem as previsões erradas, os fracassos consumados das medidas adotadas, as consequências desastrosas já evidentes no quotidiano das pessoas e na vida das empresas, nem o clamor de protesto que cresce das ruas, nada irá alterar o rumo suicida da sua governação. Ficamos a saber que, se o orçamento para 2013 já parecia muito mau, o orçamento de 2014 não irá ser melhor. Que até fevereiro, o Governo vai ouvir o FMI, o Banco Mundial e a OCDE sobre as medidas que pretende aprovar para cortar 4 mil milhões de euros na despesa pública, a título permanente, mas que entre fevereiro e junho irá ouvir a sociedade civil sobre a reforma do Estado... presume-se, para eventuais acertos contabilísticos! A desorientação do Governo, manifestamente, parece não ter limites.
A crise da moeda única vem sendo agravada pela insuficiência das medidas adotadas pela União Europeia, o que, como sabemos, condiciona a nossa capacidade de resposta à ameaça comum. Todavia, em vez da exigência óbvia de maior solidariedade europeia, ficamos a saber que a principal iniciativa tomada pelo Governo no âmbito da União foi reclamar que também Portugal e a Irlanda pudessem beneficiar de qualquer melhoria eventual das condições do resgate aprovado para a Grécia. A mesquinhez e o cinismo parecem não ter limites!
A coesão do Governo, a consistência da coligação partidária que lhe garante o apoio maioritário no Parlamento e a "excelência" das relações institucionais com o Presidente da República foram teimosamente reiteradas, mas apenas enquanto "convicção", pelo primeiro-ministro - quando, na verdade, se multiplicam os sinais de incomodidade e profunda divergência no interior do Governo, na coligação e no Estado. Não era difícil de prever que o Governo não chegaria ao fim da legislatura mas ninguém esperava tamanha obstinação e indiferença perante os sacrifícios insuportáveis e os danos irreversíveis desta "austeridade a todo custo" que está a destruir o país. O grau de deterioração da credibilidade do Governo atingiu um ponto irreversível e já não se cura com panaceias de remodelação governamental. Não há, por isso, outro caminho para travar essas políticas senão a demissão do Governo e a negociação urgente de outra fórmula e de um novo programa governativo, no quadro da atual Assembleia da República, que seja capaz de lhe assegurar o apoio maioritário de que carece.
Embora lhe caiba nomear e demitir o Governo, dissolver o Parlamento e convocar eleições legislativas antecipadas - em certas e contadas circunstâncias! - a "governação" não faz parte das atribuições do Presidente da República. É, antes do mais, aos dois partidos da coligação que cabe reconhecer o falhanço desta experiência de governação e, por conseguinte, a responsabilidade política de procurar uma solução alternativa capaz de gerar solidariedades mais vastas na sociedade portuguesa e uma intervenção enérgica e autónoma na União Europeia.
O arrastamento da crise política ou a dissolução do Parlamento não podem ser considerados, nas presentes circunstâncias, como uma alternativa desejável. Para além do estafado argumento da previsível "reação dos mercados" - todavia bem real - convém não esquecer que nos encontramos ainda no âmbito temporal da legislatura iniciada pelas eleições de 2009! Se o país entrasse num ciclo vertiginoso de eleições - ano sim, ano não - estaríamos a queimar etapas para alcançar a Grécia numa maratona de adversidades e tormentos que nem mesmo os gregos nos desejam, apesar de todas as provas de falta de solidariedade que lhes temos dado. Estaríamos a desqualificar a democracia, a degradar o valor da legitimação democrática e a comprometer seriamente as conquistas constitucionais da revolução de abril. É tempo de cada um assumir as responsabilidades que lhes foram confiadas pelos eleitores e de o primeiro-ministro dar o exemplo e abrir o caminho da sucessão."
Coelhinho suicida
Texto de Leonardo Ralha, Editor de Cultura & Online, hoje publicado no Correio da Manhã
"Os portugueses mais sádicos ou com um sentido de humor retorcido sabem do que trata ‘O Livro dos Coelhinhos Suicidas’. Para os outros, eis a sucinta descrição: é uma colectânea de cartoons nos quais coelhos adoráveis põem em marcha os planos mais requintados para atentarem contra a própria vida.
Alguns desenhos do britânico Andy Riley, capazes de traumatizar qualquer criança que receba este presente de um familiar distraído, envolvem mortes por esmagamento, electrocussão ou empalamento. Mas nenhum chega aos pés daquele em que o coelho se prepara para lançar um bumerangue ao qual atou uma granada.
Dir-se-ia que o cartoonista adivinhou, muitos anos antes, que existiria um primeiro-ministro, cujo último nome faz lembrar as suas personagens, imbuído de uma pulsão para o suicídio colectivo da economia portuguesa, arrastada para uma espiral de desemprego e falências à medida que os consumidores vêem desaparecer o seu rendimento, numa teia fiscal que o próprio Passos Coelho admitiu ser insuportável na entrevista que deu à TVI.
O coelhinho suicida está a lançar o bumerangue com a granada atada. Pena é que estejamos todos atrás dele."

