Texto de Tiago Mesquita, publicado no seu blogue "100 reféns" no "Expresso"
sábado, 29 de dezembro de 2012
As tretas do primeiro-ministro
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Equidade
Texto de Francisco Proença de Carvalho, Advogado, hoje publicado no "Diário Económico"
"É assustador a facilidade com que o Estado se permite quebrar o seu contrato social e nacionalizar o rendimento das pessoas.
Eis uma palavra pouco utilizada em Portugal até que a governação
passou a ver na mesma uma oportunidade para tentar obter mais receita
fiscal. Os bonitos princípios da equidade e da solidariedade passaram a
significar mais impostos. E, no final, mais impostos significam
recessão, desemprego e mais pobreza transversal à sociedade.
As vítimas recentes da equidade são os pensionistas. 2013 será o ano
em que a equidade apregoada quanto à distribuição dos sacrifícios
chegará, sem meias medidas, aos que já não têm força para emigrar,
através da chamada Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES),
aplicável a alguns pensionistas "dourados", ou seja, aqueles que recebem
mais de 1350 euros. Em alguns casos, a aplicação deste imposto dito
solidário, conjugado com as taxas de IRS, significará que o Estado se
permite retirar 70, 80 ou mesmo 90% do rendimento de cidadãos.
Só se aplica aos ricos, dizem alguns protagonistas, curiosamente da
direita Portuguesa. Isso é irrelevante! Isto porque a democracia tem
limites e estes aplicam-se a ricos e pobres. Julgava impossível que, em
democracia, algum cidadão pudesse ver o Estado retirar-lhe tamanha fatia
do seu rendimento mas, pelos vistos, estava enganado. Se isto não é
confisco, o que é? Se isto não é inconstitucional, o que é? Vivemos
tempos de grande exigência, mas a acção do Estado não pode ser
ilimitada, sob pena de palavras como "democracia" e "liberdade", que não
existem sem o direito à propriedade privada, passarem à história.
Sou da geração que tem perfeita noção de que não vai ter reformas
compatíveis com os seus descontos e que, se tiver uma reforma mínima já
será uma conquista assinalável. Se tiver saúde, também sei que não me
vou reformar aos 65 ou muito menos aos 55 anos, como vi acontecer com
muitos dos que se aposentaram ao longo das já quase quatro décadas de
festejos que a revolução de Abril mereceu em Portugal. Nada disso me
assusta. O que é assustador é a facilidade com que o Estado se permite
quebrar o seu contrato social e nacionalizar o rendimento das pessoas. E
isso é ainda mais gravoso numa altura em que o último garante de
sobrevivência de muitas famílias arrastadas pela crise são precisamente
os pensionistas da classe média.
Não se deixem os portugueses enganar com a nobreza do princípio da
equidade na boca de um decisor político nos dias de hoje. Isso apenas
significa que os pobres continuarão pobres, os remediados ficarão
pobres, a classe média passa a baixa e a classe alta gastará muito
menos. Portanto, se no discurso teórico estas ideias soam bem e parecem
justas, na vida real significam desgraça colectiva."
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Com amigos assim
Texto de Helena Cristina Coelho hoje publicado no "Diário Económico"
"Pedro, o cidadão, escreveu ontem uma carta sentida aos
portugueses, a quem chama "amigos", lamentando as perdas e sacrifícios a
que Pedro, o primeiro-ministro, sujeitou os portugueses, os
"contribuintes".
Pedro, o cidadão, admite que, no país em que Pedro também é
primeiro-ministro, o Natal deste ano não foi um conto feliz. Houve
famílias sem a consoada que mereciam, houve muitas mesas com ausências,
houve pratos sem a fartura de outros tempos, houve filhos e netos sem os
presentes que desejavam.
E houve portugueses que acordaram no
dia seguinte sem trabalho, de barriga vazia, a casa na bancarrota ou as
malas feitas para emigrar. É por eles que Pedro reconhece que este não
foi o Natal que merecíamos - tem razão.
Mas depois é por eles
que termina a sua mensagem desejando aos amigos "festas felizes" - e é
assim que se perde a razão. Esta, sim, foi a mensagem que os portugueses
não mereciam. Em três curtos parágrafos deixados ontem no Facebook,
numa espécie de mensagem intimista e solidária de alguém que,
nitidamente, precisa de amigos, Pedro, o cidadão, reconhece o que já é
óbvio para todos há muito tempo. Que este foi mais um dia num ano de
sacrifício, que há portugueses que sofrem, que é preciso trocar o pesar
pelo orgulho quando se encara um novo dia.
O que Pedro deixou
fora desta carta é precisamente aquilo que os portugueses, os
contribuintes, querem saber de Pedro, o primeiro-ministro: quando é que
alivia a carga fiscal com que está a esmagar a classe média e os
pensionistas, quando é que permite que as empresas criem condições para
gerar emprego em vez de se asfixiarem em burocracias e impostos, quando é
que garante que os talentos regressam em vez de os incentivar a partir
para destinos onde fazem muito pela reputação de Portugal, mas pouco
pela sua competitividade.
No dia em que Pedro, o
primeiro-ministro, escrever uma carta a responder a todas as
interrogações e a dar sinais reais de quando o país pode ter, de facto,
um Natal melhor, os portugueses, cidadãos, assinam por baixo. Não é
certamente com mensagens assim que Pedro faz amigos. Até porque os
portugueses, nos últimos tempos, foram obrigados a ser menos piegas..."
domingo, 23 de dezembro de 2012
Um Presidente que não conta
Texto de Pedro Marques Lopes hoje publicado no "Diário de Noticias".
"É um tempo para
pararmos um pouco, olharmos à nossa volta e reflectirmos sobre aquilo
que fizemos, aquilo que deixámos de fazer, aquilo que não devíamos ter
feito, aquilo que podíamos ter feito melhor", afirmou Cavaco Silva
durante a sessão de apresentação de cumprimentos natalícios por parte do
Governo.
Não é de crer que o homem que nunca se engana e
raramente tem dúvidas tenha, por uma vez, resolvido anunciar uma
introspecção. De alguém que continua a tentar fazer-nos de parvos e diz
que as suas palavras sobre as suas pensões foram mal interpretadas
quando todos as ouvimos claramente, não podemos esperar grandes actos de
contrição.
Por estas e outras não faltou gente a interpretar
aquela frase como um recado ao Governo e não como uma espécie de mea
culpa. No fundo, uma troca de recados: o primeiro-ministro mandou um
recado a Cavaco Silva quando falou - de forma ignorante e imprudente
pondo em causa a solidariedade entre gerações, essencial ao equilíbrio
da comunidade - sobre "pessoas" que não descontaram o suficiente para
ter as reformas de que hoje desfrutam e o Presidente da República tratou
de mandar outro recado incentivando Passos Coelho a reflectir. Digamos
que estamos bem entregues quando, num momento como o que passamos,
Presidente e primeiro-ministro se divertem a mandar recados um ao outro.
É provável que a santíssima trindade composta por Passos, Gaspar
e Relvas, essa entidade una e indivisível, não tenha consciência do mal
que está a fazer ao País e da catástrofe que está a semear. O
Presidente da República também ainda não percebeu que está a ser
conivente por acções ou omissões da dita trindade, e que os cidadãos
entendem que ele é parte integrante da equipa que está a destruir a
classe média, a condenar gente, sobretudo de meia-idade (que não mais
vai conseguir arranjar emprego) à miséria e a fazer regredir social e
economicamente o País muitas dezenas de anos.
Não, não foram
apenas as suas infelicíssimas declarações sobre as suas pensões, não foi
aquele inominável discurso em que ofendeu tudo e todos aquando da sua
vitória eleitoral, não foi o episódio das escutas (que em qualquer país
civilizado teria levado à demissão do Governo ou do Presidente da
República) que faz com que Cavaco Silva seja o Presidente da República
mais impopular da história da democracia. Não é em vão que sondagem após
sondagem Cavaco Silva reúna mais opiniões desfavoráveis que Seguro,
Paulo Portas ou até do duo dinâmico Martins/Semedo - só mesmo Passos
Coelho é mais impopular que ele. Nada disto surpreende: além de o
sentirem colaborar com o Governo, os portugueses não conseguem perceber a
sua importância. Cavaco Silva conseguiu tornar o cargo de Presidente da
República irrelevante.
O Presidente renunciou ao seu papel de
provedor do povo quando não fala dos problemas, das angústias, dos
verdadeiros dramas dos seus representados e gasta o tempo com recados
que apenas servem para que mais tarde venha com o seu habitual e fútil
"eu tinha avisado" que nada acrescenta e apenas lembra a sua inutilidade
. Não cumpriu o seu juramento de "defender, cumprir e fazer cumprir a
Constituição da República Portuguesa" quando deixou que um grupo de
deputados fizesse o que ele devia ter feito mandando o orçamento de 2012
para o Tribunal Constitucional. Não pediu a fiscalização preventiva do
Orçamento para 2013 quando, segundo todos os constitucionalistas, todos
os observadores independentes e até do próprio partido do Governo, este
tem várias normas inconstitucionais e apenas 7,6% dos portugueses acham
que ele o deve promulgar.
Ouviu-se, aliás, muito o argumento de
que o Presidente não iria enviar a lei para o Tribunal Constitucional
para fiscalização preventiva por existir o risco de não haver orçamento
nas primeiras semanas de 2013. Cavaco Silva pode invocar todas as razões
para não o ter feito menos essa. O Presidente não jurou cumprir e fazer
cumprir um qualquer orçamento, jurou sim fazer cumprir a Constituição.
Mais, se as dúvidas são muito fortes não faz sentido que não requeira a
fiscalização deixando assim que muito provavelmente entrem em vigor leis
inconstitucionais.
Quando, lá para Março, toda a gente perceber a
catástrofe orçamental, o Governo entrar em colapso, os tribunais,
departamentos do Estado e sociedade civil mergulharem numa crise sem
precedentes vamos ter um Presidente descredibilizado, impopular,
barricado em Belém e em que ninguém confia. Nem os partidos, nem a
comunidade em geral. E logo quando mais precisávamos dum Presidente da
República. "
sábado, 22 de dezembro de 2012
Não tenham paciência
Texto de Carvalho da Silva hoje publicado no "Jornal de Noticias"
"Tenha paciência" era o que diziam as almas caridosas aos "mendigos" quando lhes faltavam trocos na carteira, ou vontade para dar qualquer coisa. "Tenham paciência" é o que o governo PSD/CDS nos vai dizendo quando fala da "dívida" e das suas receitas para a pagar, que além de nos colocarem coletivamente pobres, nos exigem a desistência da dignidade durante décadas.
Não tenhamos paciência! Sejamos calmos e ponderados, mas determinados contra estes apelos à resignação e ao retrocesso.
Não condescendamos com os "perigos" de os protestos contra as políticas deste governo poderem gerar instabilidade política. A pior das instabilidades é a que está instalada em S. Bento e em Belém. O que está em causa é a venda ao desbarato do país, ou a entrega a interesses particulares, das suas melhores empresas, dos seus sistemas públicos de saúde, de educação, de pensões. Se deixarmos este governo à solta, nem as estradas ficarão como legado.
O que este governo está a fazer equivale a transformar o próprio Estado, a Administração Central e Local, o país, numa gigantesca parceria público-privada, onde para dar um passo é preciso pagar uma portagem. Portagem na autoestrada, portagem no hospital, portagem na escola, barreiras inultrapassáveis no acesso ao subsídio de desemprego, a reformas dignas, ao rendimento mínimo, a condições de vida dignas. Sabe-se lá se até portagem para descansar umas horas na praia ou no jardim. E, em cima de tudo isto, impostos para subsidiar "o serviço público" prestado pela finança.
Não tenhamos paciência perante os discursos que invocam a justiça e a igualdade, exatamente para as liquidar. Não toleremos que digam que "os ricos" devem pagar a saúde e o ensino, quando o verdadeiro objetivo das "reformas" em curso é tornar competitivos os negócios privados de saúde e de educação para ricos, deixando para "os pobres" hospitais e escolas de serviços minimalistas. Não toleremos a propaganda de que é preciso cortar nas pensões "milionárias", quando toda essa treta não passa de uma cortina de fumo que visa manter os verdadeiros privilegiados à margem de qualquer sacrifício, empurrar "os ricos" para planos de poupança reforma, deixando aos "pobres" um sistema de pensões subfinanciado.
O Primeiro-ministro foi a uma assembleia da JSD mobilizar os jovens contra os grisalhos, porque o seu objetivo é retirar aos jovens toda a segurança no futuro, colocá-los a morder as suas próprias pernas e destroçar laços de solidariedade entre gerações.
Não aceitemos a demagogia dos "pobres" contra os "ricos" quando o que o governo está a fazer é empobrecer todos, menos a minoria que detém o controlo acionista da gigantesca PPP em que querem transformar o Estado e o país.
Instabilidade é deixar que isto vá andando. Prudência é pôr fim a esta agonia antes que seja tarde.
A democracia é a alternativa. Democracia em que todos contribuem na proporção das suas possibilidades e todos beneficiam dos serviços públicos. Onde não tenha que pagar "o rico", porque já pagou impostos, nem tenha que pagar "o pobre". Aquilo a que cada um está a ter acesso é um direito que a sociedade pode e deve garantir a todos, por serem seres humanos, na base de políticas de distribuição e redistribuição justas da riqueza. Democracia em que ninguém tenha de despir-se da dignidade para ter trabalho e salário. Democracia em que todos tenham condições para ter voz, e ninguém seja perseguido por exprimir pontos de vista discordantes ou por protestar.
Instabilidade é a ameaça que impende sobre a democracia quando nos dizem, devagarinho, "não-há-dinheiro" para cumprir os direitos laborais, sociais, culturais e políticos. Há dinheiro sim. Dinheiro que foge para paraísos fiscais. Dinheiro que se suja em transações de coisas que deviam estar fora do mercado, como é o caso das decisões políticas. Dinheiro pago em dividendos a acionistas de empresas que estão a despedir. Dinheiro não investido produtivamente, mas que circula na especulação financeira.
Chega de silêncios e condescendências."
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Incrivelmente é pouco
Texto de Fernanda Câncio hoje publicado no Diário de Noticias
Vejamos as suas últimas declarações sobre as pensões: um chorrilho de inexatidões, mentiras e acinte. Diz Passos que a denominada "contribuição especial de solidariedade" (CES) é pedida aos que recebem "pensões muito altas". Exime-se, desde logo, de explicitar que para ele as "pensões muito altas" começam nos 1350 euros - primeira aldrabice. E prossegue: esse "contributo especial" é devido por quem recebe essas pensões "por não ter descontado na proporção", quando "hoje os que estão a fazer os seus descontos terão a sua reforma como se esta fosse capitalizada - tendo em conta todos os descontos". Refere-se ao facto de as regras de cálculo terem mudado em 2007, com o primeiro Governo Sócrates (e uma lei aprovada apenas com votos do PS), quando antes se referiam aos melhores dez dos últimos 15 anos ou mesmo ao derradeiro ordenado.
Sucede que, ao contrário do que esta conversa dá a entender, a dita "solidariedade" imposta às pensões a partir de 1350 euros vai direitinha, como aliás esta semana o insuspeito Bagão Félix frisou no Público, para o buraco do défice. Não vai para a Segurança Social e portanto não serve para "ajudar" nas pensões futuras - segunda aldrabice. E se as pensões "mais altas" não foram calculadas com base na totalidade dos descontos, as mais baixas também não - aliás, as pensões ditas "mínimas" referem-se a carreiras contributivas diminutas. Pela ordem de ideias de Passos os seus beneficiários têm o que merecem: pensões baixas por terem descontado pouco. Mas faz questão de repetir que lhas aumentou em 1,1%, dando a entender que a CES serve para tal (terceira aldrabice), enquanto a verdade é que o faz com o corte do Complemento Solidário para Idosos. Ora se nem todos os que recebem pensões mínimas são pobres, o CSI, fulcral na diminuição da pobreza dos idosos nos últimos anos, foi criado para somar às pensões muito baixas de quem não tem outros meios de subsistência. E é aí que Passos tira, com o desplante de afirmar que é tudo "em nome da justiça social" (esta aldrabice vale por cem).
Mas a maior aldrabice, implícita em todo este discurso, é de que a Segurança Social é já deficitária e urgem medidas hoje. Citando de novo Bagão, "o Regime Previdencial da SS, além de constitucionalmente autónomo, até é superavitário (mais receita da TSU do que as pensões e outras prestações de base contributiva)! E tem sido este regime a esbater o défice do Estado e não o inverso, como, incrivelmente, se tem querido passar para a opinião pública".
Sim, Bagão está a falar do seu camarada de partido, Mota Soares, e a chamar-lhe mentiroso. Incrivelmente? Não: devíamos estar todos a repetir o mesmo, todos os dias, em todo o lado, até que este pesadelo acabe. E possamos, finalmente, discutir estas coisas tão sérias com seriedade. "
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Sentido de Estado
Texto de António Rebelo de Sousa, Economista, hoje publicado no "Diário Económico"
"Se é verdade que para os liberais não
existem interesses estratégicos de um País- o mercado é que tudo
determina-, também não é menos verdade que, para muitos, Portugal tem
interesses estratégicos a defender.
Importa assegurar a implementação de um modelo de desenvolvimento
consistente que maximize as nossas vantagens competitivas dinâmicas.
Importa
estarmos na rota dos principais voos intercontinentais entre a Europa e
as américas ou entre a europa e o continente africano.
Importa
manter uma comunicação social que comporte órgãos independentes,
evitando-se a contaminação por parte de grupos coniventes com o
exercício de um poder autocrático e corrupto.
Importa dispor-se de uma estratégia coerente de concretização de parcerias no sector energético.
Importa
assegurar uma boa legislação de defesa da concorrência, com
transparência na informação e com mecanismos adequados de supervisão.
Importa enveredar por processos de privatização que, na medida do possível, possam ir ao encontro do interesse nacional.
Importa definir uma estratégia consistente de internacionalização da
economia nacional, procurando-se explicar melhor o papel de uma AICEP,
de uma CGD ou de uma SOFID.
Importa executar uma política de cooperação que se constitua em
instrumento eficaz da dita estratégia de internacionalização da economia
Portuguesa.
Importa, ainda, potenciar, de uma forma eficiente e inovadora, uma das maiores zonas económicas exclusivas do Mundo.
É,
ao fim e ao cabo, essencial que se parta de um "conjunto de valores" e
que se estabeleçam objectivos e metas inteligíveis para o cidadão comum.
Por
muito que se esteja confrontado com uma situação de dependência externa
extrema, deverá haver valores e interesses estratégicos de que não
deverá abdicar-se.
Haverá sempre quem argumente com o pragmatismo para tudo justificar,
aceitando a ideia de que não se dispõe de qualquer poder negocial.
Um
País não precisa de governantes que se limitem a estudar a melhor forma
de aplicar internamente receitas impostas do exterior.
Para isso, um qualquer Alto Comissariado imposto do exterior serviria.
Um País precisa de alguém com vontade própria.
Um País, o nosso País, precisa de ser governado por Homens Livres.
Realistas, pragmáticos e, por isso mesmo, moderados.
Mas, livres. Nem mais, nem menos..."
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Terrorismo intelectual
Texto de João Cardoso Rosas, Professor Universitário, hoje publicado no "Diário Económico"
"Quando o primeiro-ministro lançou o
debate sobre a refundação do Memorando de Entendimento, mas que era,
afinal de contas, sobre a refundação do Estado social, alguns tiveram a
ilusão que ele teria seriedade de intenções.
No entanto, poucos dias depois, já se sabia que não haveria
debate mas apenas a intenção de fazer cortes de despesa para encobrir as
dificuldades do nosso ajustamento. Mais do que isso: esses cortes
estavam já decididos, tanto nos montantes como nos sub-sectores das
funções sociais do Estado sobre os quais incidiriam.
Esta atitude do Governo apenas prolonga o seu padrão habitual de
conduta. O Governo nunca esteve nem está interessado em encontrar pontos
de entendimento com a oposição, nem com os parceiros sociais, nem mesmo
com o Presidente da República. Sempre que abre retoricamente a
possibilidade de algum entendimento, o Governo usa essa intenção de
forma manipulativa. Foi assim que obrigou o PS a afastar-se
progressivamente, que enganou os parceiros sociais (especialmente a UGT)
e que enxovalhou o PR, mais do que uma vez.
As declarações sucessivas do primeiro-ministro nestes últimos dias,
de novo sobre o Estado social, apenas confirmam a mesma tendência,
embora "elevando-a" para um patamar antes inatingido. Pense-se apenas em
dois exemplos, por falta de espaço.
O primeiro é o das declarações sobre as pensões milionárias e a
justificação da sua diminuição em função da "justiça", omitindo
deliberadamente que os cortes já decididos incidem sobre pensões a
partir de 1350 euros. Neste aspecto, o primeiro-ministro quis, antes de
mais, condicionar a decisão do PR sobre o OE de 2013 insinuando factores
da sua vida privada, o que é inaceitável. Mas o primeiro-ministro quis
também cindir a sociedade entre velhos e novos, gerar ódios
intergeracionais, enfim, dividir para poder reinar.
O segundo exemplo é o das declarações sobre o "facto" de o Estado
social beneficiar os ricos. Os portugueses que conhecem as filas da
segurança social, dos centros de saúde, aqueles que sabem até que ponto
as transferências sociais amenizam a pobreza em Portugal, compreendem
bem a alarvidade destas afirmações. Na segurança social e na saúde, mas
também na educação, o Estado social tem sido o grande apoio dos pobres e
da classe média-baixa. Ao fazer tais declarações, o primeiro-ministro
quis apenas dividir a sociedade entre pobres e ricos, gerar ódios
sociais, criando mais uma vez as condições para poder reinar.
A
governação em Portugal vive tempos sombrios. Nunca houve na democracia
portuguesa um primeiro-ministro que tenha atingido este nível de
irresponsabilidade social, desonestidade argumentativa e terrorismo
intelectual."
Os coveiros
Texto de Alexandre Abreu, Economista, hoje publicado no "Diário Económico"
"Sabemos já que a encarnação do
neoliberalismo tardio que dá pelo nome de XIX Governo Constitucional – e
que, aliás, seria mais apropriadamente apodado de Desgoverno
Inconstitucional – é especialmente medíocre e predatória.
Predatória na forma como ataca sem escrúpulos as conquistas do
desenvolvimento português, bem como os direitos dos mais vulneráveis,
para garantir benesses diversas a compadres e a complacência dos
suseranos internacionais. Medíocre nos seus actores, nas suas pretensas
"estratégias", nos argumentos falaciosos utilizados.
Tomemos o exemplo da Segurança Social, que segundo Passos Coelho terá
inevitavelmente de sofrer alterações dada a sua pretensa
insustentabilidade. Acaba de informar o País que "há pessoas que que têm
reformas pagas por aqueles que estão a trabalhar" (oh, surpresa: temos
um sistema que ainda é principalmente de repartição e não de
capitalização) para em seguida afirmar que os que agora trabalham "nunca
terão" reformas a esse nível (anunciando assim apenas a intenção de
desmantelar o sistema).
Os contornos precisos não são claros, mas o modelo é conhecido: menor
componente de solidariedade redistributiva; adiamentos consecutivos da
idade da reforma; abertura de todo o espaço à capitalização privada via
sistema financeiro, com apenas uma rede mínima de apoio aos indigentes.
Esquecendo, respectivamente, que este é já um dos países mais
desiguais da Europa e OCDE e que a solidariedade redistributiva via
Segurança Social é essencial para limitar o crescimento dessa
desigualdade; que é absurdo alegar a necessidade do adiamento da idade
da reforma quando mais de 1/5 da população activa está efectivamente
desempregada e impedida de contribuir; e que os sistemas privados têm
mostrado historicamente ser menos eficientes (devido às comissões) e
muito mais propensos ao risco de colapso. Falam da esperança média de
vida, mas o problema real é a morte provocada do desenvolvimento
português.
Não surpreende: estamos perante os coveiros de Portugal."
O caso Paulo Portas
Texto de Baptista Bastos hoje publicado no "Diário de Notícias"
"Paulo Portas
está em desacordo com o Orçamento, mas aprovou-o em nome do "interesse
nacional." A invocação deste "interesse" tem-se prestado às maiores
vilanias. A abstracção contida no conceito constitui a característica
essencial dos políticos que atrás dele se resguardam, a fim de impor o
próprio vazio de sentido das suas decisões. Afinal, que é o "interesse
nacional"? São os bancos, as companhias de seguros, os interesses dos
mais afortunados, o enriquecimento ilícito e, agora, a troika? Na lista
das prioridades estamos em último lugar, a verificar pela miséria, pelo
desemprego, pela queda abismal do nosso poder de compra, pela emigração
em massa dos mais jovens e pela angústia devastadora dos mais velhos. O
"interesse nacional" é a máscara da nossa decepção permanente.
Ao
refugiar-se nesta efabulação atroz, Paulo Portas desacreditou-se ainda
mais. Ele não perdeu a capacidade de tomar posição relativamente à
realidade que o rodeia; é demasiadamente arguto e experiente para
admitir como verdade o embuste, criado por quem tem do poder uma ideia
absoluta, da democracia uma concepção de eguariço e de nós uma percepção
de subalternidade.
Ao reconhecer que, no próximo Orçamento, as
coisas não serão admitidas tão benevolentemente, Portas confirma que o
documento por si aprovado é um estropício, para não dizer uma
monstruosidade. A obediência às imposições do PSD, as quais agridem a
moral social que proclama defender, amolgam-lhe o carácter e atingem-lhe
a honra. Não há como escapar das acusações.
A coligação está por
um fio. E não é apenas a exposição de decisões tomadas unilateralmente,
como o desprezo demonstrado em assuntos cruciais. Passos considera mais o
que lhe sussurra Gaspar do que acolhe o que lhe sugere Portas. Entre
estes dois homens há um conflito de culturas e um atrito ideológico. O
mal-estar no CDS é difícil de dissimular, e bem pode o patético Relvas
asseverar que tudo está muito coeso quando ouvimos os trambolhões que já
chegam ao céu.
O "interesse nacional", sobre ter dado cobertura
às maiores patifarias, faz-nos engolir, com repugnância, o amargo veneno
da servidão. Quem da expressão se tem servido não admite, aos outros, a
possibilidade de escolha. "Não há alternativa" é, igualmente, uma frase
maldita que nos têm inculcado como impossibilidade de conduta, a não
ser aquela que o poder impõe. É no mínimo estranho que um homem lido e
havido como Paulo Portas tenha admitido a possibilidade de que todos
somos jumentos, e que a preguiça mental e a indiferença cobarde nos
hajam definitivamente afectado.
Teve a oportunidade de bater com a
porta, e libertar-se das teias de uma política que o embaraça. Não o
fez, em nome do tal "interesse nacional", e excedeu os limites éticos
tradicionalmente atribuídos aos homens de bem. A escolha foi dele."