DERRUBAR O GOVERNO É OBRIGAÇÃO PATRIÓTICA

O inutil Cavaco Silva deu carta branca ao atrasado mental Passos Coelho para continuar a destruir Portugal e reduzir os portugueses a escravos da ganância dos donos do dinheiro.
Um governo cuja missão é roubar recursos e dinheiro às pessoas, às empresas, ao país em geral, para os entregar de mão beijada aos bancos e aos especuladores é um governo que não defende o interesse nacional e, por isso, tem de ser corrido o mais depressa possivel.
Se de Cavaco nada podemos esperar, resta a luta directa para o conseguirmos.
Na rua, nas empresas, nas redes sociais, há que fomentar a revolta, a rebelião, a desobediência, mostrar bem que o povo está contra Passos Coelho, Portas e os outros imbecis que o acompanham e tudo fazer para ajudar à sua queda.
REVOLTEM-SE!

sábado, 12 de janeiro de 2013

Esta democracia

Texto de João Marcelino hoje publicado no "Diário de Noticias"

"1. Há umas semanas Passos Coelho saiu-se com a refundação do Estado. Poucas horas depois, no meio da confusão instalada, percebeu-se que a questão nada tinha a ver com estratégia e visão. Era, apenas, mais um problema financeiro. Importante, sim; mas financeiro. Faltavam 4 mil milhões de euros para cortar até 2014 e a troika queria um plano até fevereiro deste ano (de 2013). Passos Coelho, até aí tão cioso da autoridade da maioria absoluta que coordena, convocou de repente o PS para assinar os sacrifícios. Entretanto chegou o Natal. E agora, passado este, chegou o estudo encomendado aos credores de que se conhecem já as linhas gerais. Temos demasiado bem-estar, professores e polícias a mais, lautas prestações sociais e durante tempo demasiado, etc., etc. Ou seja: mais uma via sacra para percorrer rumo a uma economia radiosa.

Veremos o que o Governo aproveita deste estudo e quais as linhas gerais pelas quais conduzirá os cortes. Mas é nestes momentos que devemos ponderar o significado da nacionalização do Banif (sim, foi nacionalizado, à sorrelfa, na véspera do réveillon) e refletir nas palavras de Nuno Morais Sarmento que, em recente entrevista, garantia ser possível cortar ainda quatro milhões nos gastos do Estado sem colocar em causa os apoios sociais. Nuno Morais Sarmento foi, recorde-se, ministro de um Governo social-democrata.

2. A vida é uma escolha permanente. Na política sobretudo. O Governo tem um problema em mãos e deve assumir as escolhas, como em determinada altura parece ter assumido que não precisava de continuar a estimular o consenso político. Continuar a queixar-se do PS e dos partidos da esquerda (que nem sequer convocou para esse acordo nacional que gosta de reclamar) não faz qualquer sentido. Quem tem legitimidade governa - e se Passos Coelho entende que tem legitimidade, com aquilo que disse na campanha e depois escreveu no programa de governo, para avançar... Pois faça o favor. Avance. Decida. Acabe com a ladainha do consenso nacional, que soa a falso. Eleja-se lá a comissão para o plano que tem de estar pronto em pouco mais de um mês e já que não se quer poupar o País a alguns sacrifícios brutais em tempo recorde ao menos que se poupe na hipocrisia, que já cansa.

3. Portugal está a viver a maior revolução social desde o 25 de Abril. Tudo isto se passa em democracia formal mas, infe- lizmente, muito do que está a acontecer ao nível das decisões do Governo não passou pelo escrutínio do voto. Mais uma vez a campanha eleitoral foi uma mentira e está a ir-se para além do que é aceitável. É mentira, ainda, que de um lado estejam os revolucionários liberais e do outro os conservadores socialistas. Se fosse assim tão simples poder-se-ia até perguntar onde para o PSD social-democrata, esse partido de esquerda sepultado algures. Não! Na sociedade nacional existe, felizmente, um largo consenso europeu e a visão de Portugal como um país honrado e necessitado de reformas. O que não é consensual é es- ta velocidade suicida, quer na conso- lidação orçamen- tal quer nas reformas estruturais, que não sendo acompanhada por crescimento gera pobreza, desemprego, infe- licidade e está a desarticular o País.

A reforma do chamado Estado social, assim como a privatização de algumas empresas, deveria merecer uma grande discussão, ou melhor: um referendo. Mas, tal como perguntar o que pensam os cidadãos da construção da União Europeia, nem pensar nisso! Os políticos desconfiam do Povo, têm medo da democracia. É por isso que este processo português tem tudo para, de repente, ser interrompido. Acabar mal. Gostava de estar enganado."

Saída de emergência

Texto de Joana Amaral Dias hoje publicado no "Correio da Manhã".

"O dito relatório do FMI é pura perfídia. Está eivado de dados incorretos e falhas técnicas. Depois, passa ao lado do nosso ponto de partida, do contexto europeu e da crise internacional. Afinal, o mundo acabou? Terceiro, ignora o impacto das medidas.

O Estado Social é redistributivo e produtivo. Matá-lo é matar a coesão e o crescimento do país. Mais. O Estado tem outras despesas que não as sociais. A sofreguidão de só aí cortar, enquanto continua a jorrar dinheiro para os bancos ou para as maiores fortunas que multiplicaram os seus lucros em 2012, e uns dias depois de vigorar o novo orçamento, prova que não há limites para os sacrifícios. A austeridade é um poço sem fundo. 

Por fim, este relatório é o programa do governo. A vontade de exterminar o Estado Social há muito que é afagada por Passos. Dizer que se trata de um documento dos estagiários do FMI, género crónica juvenil de uns dias em Lisboa, é governar à socapa para impor programas para os quais não se foi mandatado. O executivo quer passar a sua ideologia fanática pela porta do cavalo e, assim, a única porta que lhe resta é a da rua. E depressa."

Relatório por encomenda

Texto de Carvalho da Silva hoje publicado no "Jornal de Noticias".

"Como é do domínio público, o relatório do FMI - que propõe inqualificável degradação da segurança social, da saúde e da proteção social, regressão no sistema de educação, mais desemprego, redução de salários, aumento dos horários de trabalho e fragilização da defesa e da segurança - foi encomendado pelo Governo.

A encomenda foi feita com o objetivo de ser instrumento do Governo no desencadear daquilo que designa de "redefinição das funções do Estado" e no "corte adicional" de 4000 milhões de euros na despesa.
Pelo processo da sua produção e, acima de tudo, pelo seu conteúdo, tal relatório deve ser classificado de ignóbil. Ele só tem interesse num aspeto: tornou mais claro, perante os portugueses, a malvadez, o retrocesso social e civilizacional das políticas deste Governo e, logo, a certeza de que elas negam o futuro do país.

Como muito bem expressou neste jornal Silva Peneda, este relatório "não vale nada. É um disparate".
Jamais se pode permitir o entretenimento da sociedade em torno da validade ou não validade do que esses parasitas funcionários do FMI - municiados por Gaspar, Moedas e outros governantes e assessores mercenários - desavergonhadamente nos propõem. O "trabalho" desenvolvido nas últimas décadas, pela maior parte dos diretores e "especialistas" do FMI, é hoje confirmadamente a causa da imensa miséria em vários países africanos, da América Latina e outros.

Que sociedade nos propõe estes indivíduos? Por exemplo, a nova dose de desemprego direto que recomendam significa tão-somente despedir os nossos professores, médicos e enfermeiros, os nossos especialistas e trabalhadores de várias áreas que nos garantem acesso à saúde, à educação, à segurança, à justiça, a uma vida com direitos fundamentais.

Existem portugueses sérios e competentes, de várias formações ideológicas e técnicas, capazes de analisar a situação do país nos diversos setores e de produzirem propostas sustentadas para debate da sociedade. Não é nisso que o Governo aposta, porque este não é, comprovadamente, um Governo para resolver os problemas do país. Por isso deve ser demitido e substituído.

Passos Coelho e C.ª, com todo o cinismo e desonestidade política, consideram agora que já têm, sob capa tecnocrática, quem represente o papel de mau da fita. O passo seguinte é encenarem uma discussão sobre a matéria, de preferência com a participação de figurões do centrão político, aliás já anunciada para o Palácio Foz. E engajar o mais possível o Partido Socialista. E nesta etapa os perigos continuam a ser muitos, pois há gente que há muito vendeu a alma ao diabo e está sempre disponível para "minorar" a dimensão da dose. Mesmo quando é inquestionável que o neoliberalismo e o neoconservadorismo dominantes querem destruir o que se vai designando por Estado social.

Os desafios são grandes para quem, nos diversos espaços políticos, quer defender o Estado Social e encontrar caminhos alternativos para o país. Quem se coloca deste lado sabe que parte em desvantagem: estão impregnadas na sociedade cargas ideológicas muito fortes que condicionam todo o debate.
O Memorando e as políticas feitas em seu nome inculcaram a ideia de um conjunto de inevitabilidades, de opções mentirosas, designadas de inevitáveis, que limitam os recursos para o Estado social, quer porque determinam a economia e impedem o crescimento, quer porque canalizam toda a riqueza que se consegue produzir e juntar para servir os credores, os agiotas e os grandes acionistas de grupos económicos protegidos.

Quando Vítor Gaspar afirma que "está em causa o Estado social que os portugueses querem ter e o que querem pagar", afirmação profundamente ideológica, ele parte do pressuposto que todas as opções políticas já assumidas pelo Governo serão inamovíveis.

À Esquerda impõe-se então um amplo debate, aberto e participado pelos democratas dos diversos quadrantes, que discuta a despesa pública e o Estado social a sério, não debaixo daquelas falsas premissas.
Este episódio do relatório do FMI veio colocar em evidência que só será possível e viável discutir seriamente o Estado social no contexto da formulação de políticas e de governação alternativas."

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O liberalismo de Passos

Texto de João Cardoso Rosas, Professor Universitário, hoje publicado no "Diário Económico"

"A palavra “ideologia” alberga um campo semântico quase inesgotável. No entanto, há duas acepções da palavra que convém relevar. A primeira é, por assim dizer, aberta e refere-se a uma visão do mundo e da sociedade que tem como objectivo congregar um colectivo para a acção política. A segunda, fechada ou menos evidente, é a de falsa consciência, isto é, a ideologia enquanto forma de encobrir os interesses que verdadeiramente defende.

A acepção aberta da ideologia liberal está claramente presente no discurso e na acção de Passos e do seu Governo: precarização das relações laborais, programa de privatizações mais ambicioso de sempre, cortes nos apoios sociais, desconfiança dos mecanismos democráticos e constitucionais (na sua vertente mais radical o liberalismo não gosta da democracia e ainda menos de Constituições programáticas), tudo isto embrulhado pelo famoso argumento TINA de Margaret Tatcher ("There Is No Alternative").

Mas Passos e o seu Governo têm também defendido medidas que estão aparentemente nos antípodas do liberalismo: aumentos de impostos, condescendência com as PPP, apoios aos bancos, a culminar na nacionalização encapotada do BANIF, etc. Muitos interpretam isto como uma incoerência com o liberalismo. No entanto, existe uma interpretação alternativa e que requer o uso da ideia de ideologia não apenas no seu sentido aberto, mas também como falsa consciência. Vejamos como.

Na prática, o liberalismo de Passos serve não apenas para atacar os direitos dos trabalhadores em nome da liberdade económica, enquanto ideologia aberta, mas também para defender os interesses do capital, em especial do capital financeiro, enquanto falsa consciência. Por isso Desta forma, o liberalismo de Passos faz aquilo que, enquanto ideologia, o liberalismo sempre fez, pelo menos do ponto de vista dos socialistas. Ou seja, a apresentação do liberalismo como ideologia aberta e amiga da liberdade individual funciona como máscara daquilo que ele, em última instância, significa: a defesa dos interesses do capital e o ataque aos interesses dos trabalhadores.

Esta combinação das noções de liberalismo como ideologia aberta e de liberalismo como falsa consciência, que mascara os interesses que defende, chama a atenção para o facto de que o liberalismo de Passos é, no fundo, consistente. As aparentes inconsistências que alguns detectam advêm do facto de não compreenderem, por desconhecimento ou ingenuidade, que as ideologias em geral - e o liberalismo em particular - têm uma dimensão aberta, mas também uma dimensão de falsa consciência."



domingo, 6 de janeiro de 2013

Culpar a parede

Texto de João Pereira Coutinho hoje hoje publicado no Correio da Manhã.

"Existe um país onde o governo pressiona e ameaça publicamente o Tribunal Constitucional. Não, não é a Venezuela. É Portugal. E pela boca do secretário de Estado do Orçamento.

Disse Morais Sarmento que, em caso de chumbo, a ‘troika’ fecha-nos a torneira porque o ‘incumprimento’ do programa será inevitável. Não vale a pena lembrar ao secretário de Estado que o ‘incumprimento’ já começou a partir do momento em que a ‘troika’, sem surpresas, teve que amaciar as metas do défice para 2012, e 2013, e 2014. Mas, ainda que isso fosse verdade, nada legitimaria esta grotesca interferência no princípio da separação de poderes, base de qualquer Estado de Direito. Se houver chumbo do TC, ele resultará da incapacidade do governo em aprender e em não repetir os vícios passados de injustiça na hora de distribuir os sacrifícios. Continuar a marrar contra a mesma parede não é culpa da parede.  "

sábado, 5 de janeiro de 2013

Bancarrota

Texto de Joana Amaral Dias hoje publicado no "Correio da Manhã".

"O Estado atirou 1100 milhões de euros no Banif, avaliado em metade e afundado em dívidas. Eis a nacionalização às direitas: o Estado paga e assume futuros riscos, sem quaisquer garantias. Você já viu este filme no BPN, no qual há mais três mil milhões de dívidas em incumprimento. Ou seja, o buraco pode chegar aos sete mil milhões.

Mais do dobro do que o governo quer cortar no Estado Social. Entre 2001-2011, os três maiores bancos privados distribuíram aos acionistas 4300 milhões de euros. Agora pedem ao Estado esse dinheiro para a sua recapitalização. Também passaram a dívida pública de besta a bestial. Não a comprando, forçaram a entrada da troika. Agora não querem outra coisa até porque mais nada lhes garante empréstimos do BCE a 1%. Entretanto, não injetam dinheiro na economia e cobram taxas de 8%. Já para não falar do jackpot para a banca que foi a transferência dos fundos de pensões para o Estado ou da diminuição do IRC de 328 milhões em 2009 para 42 milhões de euros em 2011. 

A coisa é simples: chama-se expropriação do dinheiro dos contribuintes. Os sacrifícios que lhe estão a pedir servem para salvar bancos. O resto são trocos."

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Aumenta tudo menos a vergonha na cara do governo

Texto de Tiago Mesquita, publicado no seu blogue "100 reféns" no "Expresso"

"O ano que agora está a terminar foi, talvez, o mais difícil de que tenho memória, desde 1974." A frase é do primeiro-ministro, foi proferida no dia 21 de Dezembro de 2012 em plena AR. "Este não foi o Natal que merecíamos", escreveu na sua página do Facebook dias depois, antes de rematar com um "Festas Felizes" - desejo seu e "da Laura".  Já na habitual mensagem de Natal, Passos Coelho saiu-se com enigmas: "todos beneficiarão das novas oportunidades" que serão criadas "nos próximos anos".

Explique-me, senhor primeiro-ministro, porque ou não entendi o discurso de Vexa, ou não estou realmente a vislumbrar as oportunidades de que fala. Admito que o erro seja meu, devo estar com certeza a leste do paraíso e daí não estar a conseguir acompanhar o alcance das fantásticas medidas lançadas pelo seu governo, que aparentemente vão gerar um sem numero de oportunidades, e que irão beneficiar todos, segundo afirma. Explique-me, por favor, para que não seja injusto, já que neste momento apenas pergunto em que mundo o senhor habita, de que país ou realidades fala. Afinal de contas, em que planeta está alojado o seu governo?

Ora bem, se o ano de 2012 foi, segundo diz, "o mais difícil desde 1974" e sabendo nós que em 2013  vamos ter aumentos da luz, do gás, dos transportes, das portagens, dos telefones, do tabaco, dos impostos, da Segurança Social, sabendo ainda que o custo de vida vai disparar em flecha, que os salários e as pensões vão diminuir, que a recessão vai continuar,  que o desemprego vai galopar e que milhares de falências estão previstas, gerando problemas sociais que nos farão regredir décadas, ora se tudo isto é REAL, está e vai acontecer, de que raio de oportunidades fala afinal Vexa? O ANO DE 2013 VAI SER MELHOR? Sim ou não? Se sim, como? De que forma? Vamos assaltar um banco? Não foi já assaltado o BPN?

Se aumenta tudo, e quando digo tudo estou a falar de ABSOLUTAMENTE TUDO, não seria altura destes aumentos transversais serem acompanhados por um aumento generalizado de vergonha na cara de quem nos ilude desde o primeiro dia em que pensou formar governo? Chega de MENTIRAS.

A abstenção violenta de Cavaco Silva

Texto de Manuel José Manuel Pureza hoje publicado no Diário de Noticias.

"Temos um Presidente da República que, entre a Constituição de que é garante e o memorando com a troika, escolhe este e hipoteca aquela.

Bem pode o porta-voz do PS louvar a mensagem de ano novo do Presidente por ter deixado Passos Coelho politicamente isolado. Bem podem os opinadores encartados do costume encontrar na dita sinais de descolagem de Belém relativamente a São Bento. Um e outros querem que esqueçamos o essencial: Cavaco Silva é figura de referência das direitas tecnocráticas e dos economistas do deslaçamento social para quem a democracia é um estorvo.

Cavaco Silva é um político profissional. E a sua mensagem de ano novo foi isso mesmo: um exercício de pura política profissional. Daquela que, por dizer uma coisa e o seu contrário, tem conduzido a uma alergia crescente dos portugueses pela política. Do Orçamento do Estado disse que é um alimentador da espiral recessiva que está a destruir a economia portuguesa, que arrasa fiscalmente a população trabalhadora e o tecido empresarial, que é profundamente injusto e, para usar palavras brandas, que "suscita dúvidas" sobre a sua conformidade com os princípios elementares de equidade e não discriminação estatuídos pela Constituição. Isto dito, Cavaco pede desculpa mas promulga o dito horror. Fica claro: Cavaco partilha com Seguro a cultura da abstenção violenta. É o interesse nacional que mo impõe, diz com o ar grave que essa contrariedade requer. Queria não o ter promulgado mas se o não tivesse feito o País afundar-se-ia, seria o caos. E a gente pergunta: mas uma coisa assim tão má como o Presidente da República a pinta não traz o caos agarrado a ela? Um Orçamento tão destruidor não afunda o País? Uma lei com tão grande probabilidade de ser inconstitucional promulga-se e depois logo se vê? É isto um Presidente responsável?

Político profissional com muitos anos de prática, Cavaco Silva faz escolhas a coberto de imperativos gerais, pedindo desculpas por não poder alegadamente fazer outras. Na sua mensagem, Cavaco Silva enunciou com clareza a sua escolha política: repudiará qualquer crise política - leia-se: não quer que se force a demissão do Governo nem que haja eleições - e fará do cumprimento do memorando com a troika o mandamento maior da vida do País. Ora, criticar o Orçamento e fazer a apologia do cumprimento do memorando é uma contradição insanável. O Orçamento é o que é porque o memorando estabelece o que estabelece. O Orçamento do memorando é a crise da política real, mesmo se não houver crise política formal. Mas disso Cavaco Silva não quer saber. O que verdadeiramente lhe causa preocupação é que possa ganhar força a exigência de renegociação da dívida. Porque sabe que é aí que se desmorona a política de que ele é presidente, sabe que é aí que se rompe com a hegemonia da política do embaratecimento do trabalho, da política das privatizações a pataco, da política que rasga o contrato com os cidadãos mas sacraliza o contrato com os credores.

Cumprir o memorando para que tenhamos imagem de bom aluno e os credores possam continuar a financiar uma economia de baixos salários, de baixa qualificação e de direitos mínimos - esse é o desígnio de Cavaco Silva. E para que ele se cumpra, o Presidente toca a reunir. Ao lembrar que o memorando foi assinado por uma constelação partidária que representa 90% do espaço parlamentar, Cavaco põe no centro da política uma fórmula governativa de banda larga para apoio ao memorando da troika, seja com coligação formal ou com outra forma institucional. É a essa escolha de Cavaco que cada partido tem de responder. Alinhando com ela ou combatendo-a. Não há espaço para abstenções. Mesmo violentas."

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Resistir, nunca desistir

Texto de Baptista Bastos hoje publicado no "Diário de Notícias"

 "Entrámos no ano de todos os perigos e de todos os medos. Ninguém ameniza as perspectivas, e o primeiro-ministro acentuou a nossa angústia afirmando que nunca as coisas, depois do 25 de Abril de 74, tinham estado tão escuras. Os seus apaniguados, contentíssimos, aplaudiram as declarações, considerando-as sinal de honrada "transparência". Esqueceram-se, evidentemente, de que, à esquerda e à direita, gente altamente qualificada e sensata já advertira da tragédia próxima. E Passos Coelho continua a não reconhecer, claramente, o que a aplicação da ideologia neoliberal nos tem feito. Nem o que essa ideologia significa de risco para a própria democracia, cada vez mais acanhada até ao ponto de constituir uma humilhação e um desespero intoleráveis para quem nela acredita.

O ano traz, portanto, malvados prenúncios. E, embora sabedor da nociva sorte que nos aguarda, Passos Coelho não move uma palha para inverter a funesta tendência. Não move ou não sabe mover. A representação do poder demonstra enorme desprezo pelos protestos de rua, pelos movimentos de massas (o 15 de Setembro testemunhou a recusa da apatia e da resignação, pelas razões que em si mesmo comportava), pelos depoimentos e pelas declarações veementes de economistas, sociólogos, políticos, alarmados com o caminho para o desastre a que o País é impelido. Interpelado sobre se a população aguenta o caudal de restrições, impostos e constrangimentos, o banqueiro sr. Ulrich admitiu: "Aguenta! Aguenta!", num escabroso convencimento, a roçar o insulto e o impudor. É em criaturas deste jaez e estilo que o primeiro-ministro se apoia, pois elas mesmas caracterizam um dos pilares em que assenta a ideologia que defende.

A ideologia. Eis a questão capital. E o novo paradigma político e social, que nos tem sido imposto, inscreve--se nessa nova experiência do capitalismo, como emergência de sair da crise por si criada.
A regressão a que Pedro Passos Coelho nos obrigou contém uma incerteza dramática, que o atinge, atingindo-nos cruelmente. Ele abriu a caixa de Pandora e, agora, não sabe como fechá-la. É um tonto perigosíssimo. Arruinou a pátria, não somente a pátria política, social e económica mas, sobretudo, a pátria moral. Nem daqui a duas ou três décadas o desastre será remediado, diz quem sabe. O nefasto "rotativismo" ocultará ou dissimulará os erros e os crimes cometidos. Ninguém vai parar à cadeia, porque eles protegem-se uns aos outros, com o impudor de quem se reconhece acima de deus e do diabo.
É pungente assistir-se às torções do PS, como aos embustes, ao vazio de sentido dos discursos do PSD. Não desejo referir-me, neste texto, ao dr. Cavaco, por nojo e estrito resguardo mental. Desejo, isso sim, demonstrar o orgulho e a vaidade que sinto por pertencer a um povo como este, sofrido, cercado, mas decente e indomável."

A culpa

Texto de João Cardoso Rosas, Professor Universitário, hoje publicado no "Diário Económico"

"Ao contrário do que por aí se diz, este Governo tem uma excelente estratégia de comunicação. Em pouco tempo, conseguiu impor um discurso que uma boa parte da sociedade e dos fazedores de opinião absorveu acriticamente. Como caracterizá-lo?

O seu tema central é a culpa. Tudo começou pela interiorização do chamado "discurso alemão" sobre a crise. De acordo com essa visão, os culpados pela crise do euro são, em exclusivo, os países da periferia. Por isso eles devem pagar pelos seus pecados, ainda que isso implique o sacrifício da racionalidade na própria solução da crise.

Passos Coelho e os seus amigos nunca desafiaram esta ideia, nunca pensaram a crise em termos estruturais e em função do sistema de incentivos perversos criados pelo euro. A narrativa alemã da culpa convinha-lhes porque ia ao encontro da sua própria narrativa de demonização do anterior primeiro-ministro. Para os alemães a culpa era nossa, dos portugueses no seu conjunto, mas a liderança política do Governo assumia de bom grado essa culpa porque podia, ao mesmo tempo, transferi-la para outrem.

Esta interiorização, seguida de transferência para um "bode expiatório", prosseguiu em todas as áreas da vida colectiva. Assim, para o primeiro-ministro os desempregados têm culpa do seu desemprego porque não saem da sua zona de conforto. Os beneficiários de RSI têm culpa da sua dependência porque não querem trabalhar. Os reformados têm culpa pelo descalabro orçamental porque recebem pensões pelas quais não descontaram. O Estado social tem de ser refundado porque, em suma, há muita gente a viver à custa dele e são esses os culpados.

Mas a estratégia de culpabilização acaba por abranger quase toda a sociedade. Os portugueses são culpados porque se endividaram, compraram casa e carro, quiseram comer bife em vez de batatas. Os trabalhadores por conta de outrem são especialmente culpados porque ficaram parados nos seus postos de trabalho, inamovíveis, difíceis de despedir. Os funcionários públicos são ainda mais culpados porque são eles os responsáveis pela despesa pública. Por isso é necessário tornar precário o trabalho em geral e o da função pública em particular, assim como diminuir salários e regalias.

Passos Coelho e os seus amigos, dentro e fora do Governo, vêem-se como uma espécie de sacrificadores dos "bodes expiatórios" nos quais eles próprios agruparam todos os pecados do passado. Daí terem um espírito de missão e uma linguagem moralista. O seu objectivo não é a reforma social, é a purificação. Os sacrifícios que aplicam, longe de incomodá-los, provocam neles a satisfação dos justos.

Quanto à compaixão, mesmo quando não se sente, encena-se. Basta uma mensagem no Facebook. Afinal de contas, o Pedro é um sentimental. Quem diria."