"Fernando Ulrich exigiu a intervenção da troika quando o BPI tremeu. Depois, recebeu 1500 milhões de euros dos contribuintes para a sua recapitalização. Mais do que os capitais próprios do banco.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Ultra rico
"Fernando Ulrich exigiu a intervenção da troika quando o BPI tremeu. Depois, recebeu 1500 milhões de euros dos contribuintes para a sua recapitalização. Mais do que os capitais próprios do banco.
Já não se aguenta
Texto de Nuno Saraiva hoje publicado no "Diário de Notícias"
"Durante o
Estado Novo, os interrogatórios da PIDE, a polícia política do regime,
eram muitas vezes testemunhados por um "médico" que caucionava os atos
de tortura. O excelso e corajoso doutor, insensível ao sofrimento dos
interrogados, incentivava os inspetores a prosseguirem com a inquirição,
do tipo custe o que custar, assegurando sempre que o detido "aguenta,
aguenta".
As afirmações mais recentes de Fernando Ulrich, o
presidente do BPI, remetem-nos para esse tempo em que a doutrina oficial
do pensamento único impunha a filosofia dos "pobrezinhos mas
honradinhos". Na quarta-feira, dia em que apresentou os resultados
consolidados do exercício de 2012, Fernando Ulrich estava impante - e
com razão - com os lucros de 250 milhões que o banco a que preside
conseguiu arrecadar. Ficava-lhe bem, porém, um pouco de humildade que
lhe permitisse reconhecer que os números que apresentou só foram
possíveis graças à intervenção do Estado através do fundo de
recapitalização da banca, ao sacrifício dos contribuintes que ele parece
desprezar e aos depósitos de gente que, de hoje para amanhã, pode ficar
com o estatuto de sem-abrigo.
Mas o mais chocante nas palavras
do banqueiro é o paternalismo, a insensibilidade, a arrogância, a
pesporrência e a sobranceria que elas revelam. Interroga-se Ulrich: "Se
os gregos aguentam uma queda do PIB de 25%, os portugueses não
aguentariam porquê? Somo todos iguais, ou não?" E, pior do que esta
defesa despudorada e resignada do empobrecimento coletivo, é a
desumanidade demonstrada pela interrogação seguinte: "Se você andar aí
na rua, e infelizmente encontramos pessoas que são sem- -abrigo, isso
não lhe pode acontecer a si ou a mim porquê? Isso também nos pode
acontecer. E se aquelas pessoas que nós vemos ali na rua, naquela
situação a sofrer tanto, aguentam, porque é que nós não aguentaríamos?"
Afirmações
deste tipo são próprias de corações empedernidos que, está bom de ver,
jamais conviveram com a realidade que nos rodeia. Quando se tem um pingo
de humanidade, e nos confrontamos com a crueldade de quem vive na rua,
sem teto, sem família e sem comida, a interrogação obrigatória não é "se
aquelas pessoas aguentam, porque é que nós não aguentaríamos?", mas sim
como é que aquelas pessoas aguentam?
Fernando Ulrich, como
Isabel Jonet ou, para não ser acusado de sectarismo, Arménio Carlos, são
gente de referência nas mais diversas atividades. Têm responsabilidades
acrescidas de cada vez que abrem a boca, e têm de ter consciência das
repercussões que as suas palavras, mesmo quando mal medidas, têm na
sociedade portuguesa, sobretudo em momentos delicados como aqueles que
vivemos.
Mas Fernando Ulrich é também a voz e, num certo sentido, o
ideólogo de uma forma passadista de pensar que, cada vez mais, vai
ganhando terreno. A de que o Estado deve ser caridoso em vez de
solidário. E não, não somos todos iguais. Porque, como sabemos, no caso
dos bancos é bom que o Estado seja solidário na hora de arranjar
dinheiro, salvar as instituições e assumir os prejuízos.
Este é
só mais um exemplo de como a política e o Estado estão capturados pelo
sector financeiro. Outro tivemo-lo ontem quando da obscena tomada de
posse de um secretário de Estado - conferida por Cavaco Silva - que já
foi administrador da SLN, a holding detentora do BPN. Franquelim Alves,
que ao que consta omitiu do seu currículo esta passagem, terá
reconhecido no Parlamento durante o inquérito parlamentar à gestão do
BPN que "a situação era conhecida" e, "por razões cautelares", o Banco
de Portugal não foi informado do que se estava a passar.
São estes
personagens que, apesar de abrigados pelo Estado, passam a vida a
rogar-lhe pragas e a mal-dizê-lo. Veremos, no caso de Fernando Ulrich,
quando um dia for um "sem-abrigo" do Estado, se o banqueiro se aguenta! "
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Alternativa, procura-se!
Texto de Pedro Bacelar de Vasconcelos hoje publicado no "Jornal de Noticias"
"A construção de uma alternativa política aos desvarios do atual
Governo é uma preocupação cada vez mais premente e um dever
incontornável dos partidos, sobretudo os da Oposição e, em especial, do
Partido Socialista. A alternativa que se procura não se resume a um mero
programa, à elaboração de um elenco de medidas logicamente articuladas e
sistematizadas com vista à resolução dos problemas diagnosticados: a
dívida, o desemprego, o almejado crescimento da economia. Tão-pouco se
constrói, apenas, pela mudança de caras, protagonistas ou figurantes, ou
pela celebração festiva de congressos.
A construção de uma
alternativa política precisa de coragem, consistência e credibilidade.
Coragem para que o principal partido da Oposição leve até ao fim um
debate sério sobre as suas responsabilidades próprias, enquanto força
governante, nas políticas erradas que conduziram o país à situação
presente. Consistência nas soluções que há de propor e que terão de
conciliar os recursos de que dispomos com os padrões de decência
próprios do Estado de Direito e da democracia constitucional em cuja
defesa estamos comprometidos. Credibilidade que apenas se obtém pelo
amplo envolvimento da sociedade civil, pela prática de uma cultura de
transparência, pela capacidade de persuadir os eleitores de que existe,
realmente, uma alternativa séria, ponderada, merecedora da sua
confiança.
Há que compreender que as eleições que mais tarde ou
mais cedo irão ter lugar poderão representar a derradeira oportunidade
para impedir que esta crise comprometa também o modelo de convivência
democrática que fomos capazes de construir desde a revolução democrática
de Abril de 1974. Os erros cometidos vêm de muito longe, pelo menos,
desde o primeiro governo de Cavaco Silva, mas a crise política do regime
foi inaugurada pelo ciclo das "fugas".
Primeiro, com a renúncia
de Guterres que esculpiu na história da democracia, como epitáfio
paradoxal, a conhecida frase - "é a vida!". Seguiu-se a retirada
oportuna de Barroso, pouco depois de anunciar que o país estava "de
tanga", prenunciando a queda do mal-amado Santana Lopes. Depois, apesar
da conquista da primeira maioria absoluta do partido, José Sócrates
achou prudente declarar um período de luto - alegadamente para avaliar a
real situação das finanças do país - antes de lançar as medidas de
austeridade que permitiriam a Portugal cumprir as metas do equilíbrio
financeiro impostas pela Europa, já no limiar da crise internacional de
2008. Mas logo em 2009 regressava a instabilidade governativa e o
salve-se quem puder.
Uma revisão constitucional era uma ideia bem
interessante para acabar de vez com o messianismo envergonhado que
sustenta o nosso sistema semipresidencial, mas já basta de pretextos
para adiar decisões simples e prementes que poderiam dar um poderoso
sinal da vontade de reabilitar o Estado e de reanimar esta democracia
claudicante. Por exemplo, se a própria Constituição prevê que a
Assembleia da República possa funcionar apenas com 180 deputados, por
que razão temos de continuar a eleger 220? Se os eleitores desconfiam
dos seus representantes parlamentares - porque não os conhecem nem sabem
como ou por que razão foram escolhidos - por que é que se mantém o
sistema de eleição em listas fechadas e não são criados os círculos
uninominais que aliás estão previstos, até agora inutilmente, na lei
fundamental?
A obsolescência do sistema político, a perversão da
representação democrática e o desprestígio dos partidos políticos são
realidades indesmentíveis. As próprias instituições soberanas, de um ou
de outro modo, estão implicadas nos escândalos económicos e financeiros
que impunemente arruinaram a nossa economia - do Governo ao Parlamento,
do Presidente da República aos tribunais. Em vez de deplorar a chamada
"onda populista", é urgente contrapor respostas práticas e convincentes
ao ceticismo que crescentemente se apodera dos cidadãos."
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Os cortes e a Corte
"O estado português tem de reduzir a despesa em quatro mil milhões de euros, por imposição dos compromissos que assumiu com a troika. Na hora de proceder a cortes, exige-se que esta redução atinja os privilégios e as rendas atribuídos aos mais poderosos e não seja feita à custa de mais sofrimentos infligidos ao povo. Até porque ao nível dos privilégios há muito por onde cortar
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
A bíblia de Passos
Texto de Manuel Maria Carrilho hoje publicado no "Diário de Noticias".
"Sempre que diz
que não, agora já sabemos que é sim. Ano e meio de governação revelaram a
função eminentemente táctica da negação no estilo de governo de Pedro
Passos Coelho: foi assim com tudo, os subsídios de férias e de Natal, as
reduções de salários, as amputações de funções nucleares do Estado, o
ataque às pensões, etc.
Trata-se de um tática batida, de eficácia
bem reconhecida, que não se deve menosprezar: é a tática de avançar
mascarado, jurando sempre respeitar o que se despreza, e rejeitar o que
se venera. O resto são meros expedientes e pequenos truques, fáceis para
quem gere o poder.
Foi assim que, depois de se ter fixado
arbitrária e secretamente um valor de cortes que se pretende fazer no
Estado (os tais quatro mil milhões de euros), se inventou um tema
suficientemente vago - a refundação - que permitisse abrir caminho para o
atingir negando estar a fazê-lo, jogando assim às escondidas com os
parceiros sociais, os partidos políticos, a opinião pública, afinal com
todos os portugueses.
O tema já leva três meses de laracha, e
ainda não foi apresentada uma só proposta, uma ideia que fosse ou um
único objetivo, para lá do tal valor fetiche dos quatro mil milhões, a
que também ninguém explicou como é que se chegou. Seria útil e não
devia ser difícil!...
Claro que se prometeu um debate, um "debate
nacional" evidentemente. Mas como debater o que literalmente não existe?
Este anúncio é parte da panóplia dos truques: ao anunciar esses debates
sempre futuros sobre um projeto sem existência concreta, o que se
visava era sobretudo - como se de uma inoculação se tratasse - ir
transformando o anúncio numa decisão incontornável.
Tão
incontornável que a simples referência ao tema acabasse afinal por...
dispensar todos os debates. Foi o que aconteceu. E os que agora se
montaram à pressa são - como bem se viu ontem e anteontem no Palácio
Foz, com o fórum "Pensar o Futuro - um Estado para a Sociedade" - uns
indignos arremedos de qualquer discussão séria, que ilustram sem
equívocos a extrema degradação política, intelectual e ética a que a
conceção e a prática do debate chegaram com este governo.
O lance
decisivo da manobra foi, contudo, outro. Ele consistiu em atirar-se
para aí com um "relatório" do FMI, um relatório "muito bem feito", dizia
com uma obscena e incontida excitação o secretário de Estado que o
divulgou.
Um relatório que, todavia, das pergunta enunciadas às
respostas escondidas, das palavras escolhidas às que foram
cuidadosamente evitadas, passando pelos números grosseiramente
manipulados, se revela uma mera encomenda governamental sem qualquer
credibilidade.
Mas o relatório não é só desonesto, ele é também
medíocre. A sua mediocridade técnica é, de resto, o que mais
imediatamente revela a sua natureza política e ideológica. Pedro Passos
Coelho veio, claro, dizer que não se trata da "bíblia" do Governo... Mas
os portugueses, agora, já sabem que quando Passos diz que não, é porque
é sim!
O momento, no entanto, é propício para se perceber e dizer
algo mais, e mais importante: é que a bíblia de Passos não é só este
relatório. Independentemente do seu destino, e do que dele venha de
facto a ser adoptado, a bíblia de Passos é a de um ultraliberalismo
estruturalmente fanático.
De um ultraliberalismo que nunca
tínhamos visto em ação em Portugal, e cujas características ideológicas e
políticas infelizmente têm sido descuradas - e, isso sim, é que devia
ser objeto de um exigente debate político nacional.
A ideia,
repito, foi a de avançar mascarado. Mas este ultraliberalismo tem como
que traído Passos Coelho em todos os momentos de verdade (sobre a
constituição, o emprego, a emigração, as funções sociais, os impostos,
etc.), revelando as suas verdadeiras convicções e intenções ideológicas.
É
esta forma de liberalismo - na verdade é muito mais "ultra" do que
"neo" - que, de um modo ora mais engenhoso ora mais atamancado, tem
definido a natureza, a ação e os objetivos do atual governo.
A
sua ambição fundamental é a mercantilização integral da sociedade, num
quadro em que a competição dispensa completamente a cooperação, e em que
o mercado é afirmado e assumido como a única forma de organização
social plenamente legítima. Nada mais conta!
É aliás neste ponto
que o ultraliberalismo (F. Hayek, G. Becker etc.) se distingue do
liberalismo clássico (A. Smith, Ricardo, etc.), que visava restringir a
intervenção do Estado no mercado, distinguindo duas racionalidades, a
política e a económica.
O ultraliberalismo, pelo contrário,
defende a generalização sem quaisquer limites do modelo de mercado a
todas as áreas e a todas as atividades da sociedade. Defende também que
se faça da finança - apesar de todos os desmentidos factuais dos últimos
anos - o modelo de eficiência desse mesmo mercado. E defende ainda que
tal seja feito por um intervencionismo político e jurídico radical. É
exatamente tudo isto que, neste momento, está em curso em Portugal.
A
ideologia ultraliberal é clara: é preciso subordinar todas as
racionalidades, sejam elas a política, a social, a cultural, a
educativa, etc., a uma só e mesma racionalidade, que é a do mercado: é
esta, e só esta, a inspiração do "relatório" do FMI.
Passos Coelho
segue sem reservas este fanatismo ultraliberal, é ele que dá coerência a
todas as suas declarações, mesmo - ou sobretudo - quando o nega. O que
ele ambiciona para Portugal é pôr o Estado sob a vigilância permanente e
sob controlo constante do mercado, é governar não só para o mercado
mas, fundamentalmente, em função do que a lógica mercantil quer da
sociedade.
Nesta perspectiva, inédita em Portugal mas que é hoje
absolutamente clara no discurso do Governo, é a economia que
verdadeiramente passa a controlar e a fundar a política, impondo-lhe os
seus objetivos - e isto é que é, afinal, a "refundação".
É por
isso um erro pensar-se que o seu adversário é apenas o Estado social -
na verdade, o seu adversário é todo o Estado, o Estado tout court. Qual é
o interesse de noções como "bem comum", "bem-estar social", "interesse
geral", perguntava há já algumas décadas F. Hayek, nesse clássico do
ultraliberalismo que é "A Estrada para a Escravidão"? Nenhum,
respondia, são ideias a combater, como acontece com as de autonomia, de
contrato social, de comunidade, de soberania.
São meras ilusões
que é preciso eliminar, como tudo aquilo que valorize os sentimentos
comuns dos cidadãos ou quaisquer perspetivas unificadoras da sociedade.
"A
sociedade não existe" é o dogma central deste ultraliberalismo, para
quem só existem os indivíduos na sua pluralidade e, claro, o mercado na
sua divindade . É esta a "bíblia" de Passos Coelho."
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Sem dó nem piedade
"Aos políticos corruptos nunca são assacadas nenhumas responsabilidades pelos seus atos. Violam leis e regulamentos, patrocinam negócios ruinosos para o Estado, enriquecem de forma obscena e nada lhes acontece.
Túnel
Texto de José Reis Santos, Historiador, hoje publicado no "Diário Económico"
Virado mais um ano, justo o da fortuna
ou do azar, verificamos que os projectos do Governo em desmantelar as
bases do Estado-social português construído nos últimos 30 anos, e de
transformar o País num Estado ‘low cost’ atraente ao lucro da alta
finança internacional, correm sérios riscos de passaram de conceito a
realidade irreversível.
Bem sei que por circunstâncias próprias do nosso sistema
político-partidário, elegemos para nos governar um bando de miúdos
traquinas, sem qualquer experiência política relevante, qualidades
intelectuais ímpares ou competências de gestão governativa. Dizem alguns
que tal é consequente da excessiva partidarização da vida política
contemporânea, da profissionalização resultante da consolidação
institucional dos sistemas democráticos, uma inevitabilidade. Até sou
capaz de concordar que, resultante da estabilização institucional e
democrática, a vida política se torne mais rotineira e burocratizada,
mais técnica e profissionalizada, logo menos excepcional e desafiadora,
intelectualmente menos atraente e recompensadora. Mas o que não consigo
admitir, o que não concebo, é que exactamente os que se dizem produto
desta profissionalização não ostentem qualidades ímpares que os
apresentem como excepcionais, como dignos de gerirem os destinos
colectivos de 10 milhões de pessoas.
Assim, vemos hoje nas lapelas dos (novos) blazers dos miúdos que há
20 anos eram chutados para as 5ª filas parlamentares, os ‘pins' do
escudo de Portugal, uma distinção já não legitimada pelo respeito social
e popular, mas uma marca de arrependimento eleitoral e símbolo para a
reflecção institucional, pois temos de saber encontrar forma de não só
impedir que se perpectue o laxismo constitucional e a ilegalidade social
e eleitoral deste Governo, como saber construir uma fórmula
institucional que impeça que no futuro um escasso triunfo eleitoral se
transforme num projecto totalitário de transformação integral, não
sufragada e fora-da-lei (constitucional), da realidade nacional, caminho
que o senhor Passos Coelho tem percorrido.
O problema prende-se, em teoria, com a relação entre o desenho
constitucional e a natureza dos titulares dos cargos da hierarquia
institucional. Assim, quer Cavaco como Portas detêm o poder de dar por
terminada a experiência laboratorial em curso em Portugal; mas não
intervêm com esse desiderato, curiosamente demonstrando um claro
desrespeito pelo sentido de Estado, por razões incógnitas ou anódinas
(Cavaco) e por um tacticismo político e invulgar preguiça em se levantar
das cadeiras do poder (Portas).
Assim, que fazer? Continuar com o protesto social? Mais e mais
manifestações? Esperar por novas cargas policiais e pela instauração
definitiva de um estado securitário em Portugal, com novos bufos e uma
PIDE 2.0? Ou respeitar o ciclo eleitoral, construindo uma alternativa
para 2015? Em teoria, e como institucionalista, tenderia em escolher a
solução que respeitasse os trâmites estabelecidos no nosso desenho
institucional, não tivesse este Governo rasgado essas mesmas
estipulações e nos tivesse colocado num túnel sem saída, sem lâmpadas ou
lampiões que iluminem qualquer esperança, e onde o El Dourado é
prometido apenas para os poucos que já tudo têm."
domingo, 13 de janeiro de 2013
O grande salto em frente
Texto de Pedro Marques Lopes hoje publicado no "Diário de Noticias""Com mais de ano e meio de atraso Passos Coelho apresentou o seu manifesto eleitoral. Está finalmente perante nós, mascarado de relatório do FMI, o que Vítor Gaspar, Passos Coelho e Relvas querem para o País - saberemos dentro em breve se devemos acrescentar Paulo Portas a esta lista. Eis a agenda escondida, o ir para além da troika, aquilo que a Santíssima Trindade sempre quis mas não apresentou aos portugueses receando não ganhar as eleições.
Esqueçamos a falta de vergonha e o desrespeito pelos cidadãos de se mandar para um jornal um documento que a ser implementado mudaria o País para sempre e depois mandar um mero secretário de Estado explicá-lo.
Também não vale a pena debater a ideia que se quis vender dizendo que são simples propostas de âmbito técnico e de se dizer que é um texto que busca consensos: é um documento puramente político e não pretende ser minimamente consensual. A prova disso é que nem os partidos da oposição, nem sindicatos, nem nenhum parceiro social foram tidos ou achados.
A verdade é que Passos Coelho contratou o FMI para lhe escrever o seu programa ideológico.
Como qualquer programa político é marcado ideologicamente, a opção ideológica naturalmente reflecte-se na maneira de fazer os diagnósticos, na forma de levantar as questões e essencialmente nas soluções propostas. Este relatório do FMI não deixa de ter inexactidões graves, erros flagrantes e enormes falsidades, mas sempre com o mesmo objectivo: defender opções políticas (até nisso se aproxima de um manifesto eleitoral). Mais, quando se pede um estudo deste tipo ao FMI sabe-se o que se vai obter.
Digamos que a receita é conhecida e, para quem não saiba, não resultou em nenhum lado, da América Latina à Ásia. Pedir ao FMI um estudo sobre a reforma do Estado é perguntar a um muçulmano se prefere cordeiro ou porco. Já sabemos a resposta.
O documento põe em causa, por completo, o caminho seguido em Portugal após a revolução; pretende acabar com o Estado social, que tem sido consensual em Portugal, concorde-se ou não com a forma como está desenhado ou tem funcionado. Não se chega a meio de uma legislatura e se diz que se tem de despedir 50 000 professores, outros tantos militares, polícias e outros milhares largos de funcionários públicos.
Também não é o momento para anunciar que se vai roubar 20% do dinheiro que as pessoas emprestaram ao Estado para que lhes fosse devolvido quando fossem velhas. São propostas legítimas, mas o mandato eleitoral não é um cheque em branco. O que está em causa não é propriamente privatizar 49% ou 51% da RTP ou aumentar mais ou menos os impostos: é uma mudança radical na forma de estruturar a comunidade, não pode ser feita sem um mandato claro do povo. Não se podem fazer estas mudanças absolutamente radicais sem eleições e em muitos casos mudando a própria Constituição. Ainda é preciso ouvir o povo para dar o grande salto em frente.
Há aqui ainda, entre muitos outros, um par de problemas. O parceiro de coligação, o CDS? Em que estado fica depois deste episódio, sabendo-se que não concorda com o verdadeiro plano do Governo, apesar de lhe pertencer? Portas e Cavaco estão cada vez mais parecidos nas ideias e nos actos: não se pode esperar nada deles. Não querem, até ver, contar.
O segundo e mais importante tem que ver com o PSD. Revê-se o partido neste programa? É que tudo o que tem sido a actuação deste Governo, sobretudo este programa Governo/FMI, é contra toda a sua história, toda a sua tradição governativa, toda a sua raiz ideológica. Pois, é muito provável que antes mesmo de haver eleições para sufragar o dito plano fossem necessárias eleições no PSD. Os sinais são claros. De Carreiras a Capucho, passando por Mota Amaral e pelo descontentamento visível das bases do partido. Não deixa de ser muito interessante, aliás, comparar este documento do FMI com o Relatório da Plataforma para o Crescimento Sustentável presidida pelo primeiro vice--presidente do PSD, Jorge Moreira da Silva. Não é preciso ler muitas páginas de ambos os documentos para percebermos o quão absolutamente distintas são as visões expostas. É muito difícil perceber como é que o Passos Coelho versão 2012/13 e Moreira da Silva são do mesmo partido.
Este Governo não é bem um Governo, é um terrível acidente. Talvez o pequeníssimo empurrão que falta para que caia não seja dado pelo Presidente da República ou pelo CDS mas pelo Partido Social--Democrata. Veremos se ainda sobra alguma força e carácter ao partido que teve um papel decisivo na construção da nossa democracia."
sábado, 12 de janeiro de 2013
Esta democracia
Texto de João Marcelino hoje publicado no "Diário de Noticias"
"1.
Há umas semanas Passos Coelho saiu-se com a refundação do Estado.
Poucas horas depois, no meio da confusão instalada, percebeu-se que a
questão nada tinha a ver com estratégia e visão. Era, apenas, mais um
problema financeiro. Importante, sim; mas financeiro. Faltavam 4 mil
milhões de euros para cortar até 2014 e a troika queria um plano até
fevereiro deste ano (de 2013). Passos Coelho, até aí tão cioso da
autoridade da maioria absoluta que coordena, convocou de repente o PS
para assinar os sacrifícios. Entretanto chegou o Natal. E agora, passado
este, chegou o estudo encomendado aos credores de que se conhecem já as
linhas gerais. Temos demasiado bem-estar, professores e polícias a
mais, lautas prestações sociais e durante tempo demasiado, etc., etc. Ou
seja: mais uma via sacra para percorrer rumo a uma economia radiosa.
Veremos o que o Governo aproveita deste estudo e quais as linhas gerais pelas
quais conduzirá os cortes. Mas é nestes momentos que devemos ponderar o
significado da nacionalização do Banif (sim, foi nacionalizado, à
sorrelfa, na véspera do réveillon) e refletir nas palavras de Nuno
Morais Sarmento que, em recente entrevista, garantia ser possível cortar
ainda quatro milhões nos gastos do Estado sem colocar em causa os
apoios sociais. Nuno Morais Sarmento foi, recorde-se, ministro de um
Governo social-democrata.
2. A vida é uma escolha permanente. Na
política sobretudo. O Governo tem um problema em mãos e deve assumir as
escolhas, como em determinada altura parece ter assumido que não
precisava de continuar a estimular o consenso político. Continuar a
queixar-se do PS e dos partidos da esquerda (que nem sequer convocou
para esse acordo nacional que gosta de reclamar) não faz qualquer
sentido. Quem tem legitimidade governa - e se Passos Coelho entende que
tem legitimidade, com aquilo que disse na campanha e depois escreveu no
programa de governo, para avançar... Pois faça o favor. Avance. Decida.
Acabe com a ladainha do consenso nacional, que soa a falso. Eleja-se lá a
comissão para o plano que tem de estar pronto em pouco mais de um mês e
já que não se quer poupar o País a alguns sacrifícios brutais em tempo
recorde ao menos que se poupe na hipocrisia, que já cansa.
3.
Portugal está a viver a maior revolução social desde o 25 de Abril. Tudo
isto se passa em democracia formal mas, infe- lizmente, muito do que
está a acontecer ao nível das decisões do Governo não passou pelo
escrutínio do voto. Mais uma vez a campanha eleitoral foi uma mentira e
está a ir-se para além do que é aceitável. É mentira, ainda, que de um
lado estejam os revolucionários liberais e do outro os conservadores
socialistas. Se fosse assim tão simples poder-se-ia até perguntar onde
para o PSD social-democrata, esse partido de esquerda sepultado algures.
Não! Na sociedade nacional existe, felizmente, um largo consenso
europeu e a visão de Portugal como um país honrado e necessitado de
reformas. O que não é consensual é es- ta velocidade suicida, quer na
conso- lidação orçamen- tal quer nas reformas estruturais, que não sendo
acompanhada por crescimento gera pobreza, desemprego, infe- licidade e
está a desarticular o País.
A reforma do chamado Estado
social, assim como a privatização de algumas empresas, deveria merecer
uma grande discussão, ou melhor: um referendo. Mas, tal como perguntar o
que pensam os cidadãos da construção da União Europeia, nem pensar
nisso! Os políticos desconfiam do Povo, têm medo da democracia. É por
isso que este processo português tem tudo para, de repente, ser
interrompido. Acabar mal. Gostava de estar enganado."
Saída de emergência
"O dito relatório do FMI é pura perfídia. Está eivado de dados incorretos e falhas técnicas. Depois, passa ao lado do nosso ponto de partida, do contexto europeu e da crise internacional. Afinal, o mundo acabou? Terceiro, ignora o impacto das medidas.



