Texto de Henrique Monteiro publicado no seu blogue "Chamem-me o que quiserem" do "Expresso"
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Da imoralidade e estupidez do Governo
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
A nata
Texto de Manuel José Manuel Pureza hoje publicado no Diário de Noticias
"Portugal precisa
de um ajustamento estrutural da sua elite económica. Vivem claramente
acima das nossas possibilidades. Capturam o Estado e fazem dele o
alicerce da sua acumulação de riqueza, descapitalizando-o para o
exercício das funções que uma sociedade frágil e pobre exige. Servem de
intermediários da finança internacional e, como seus representantes em
Portugal, põem e desfazem governos à medida das necessidades de negócio
de cada momento. Zombam da lei e do interesse público. E, no fim, ainda
têm o topete de fazer para a sociedade que os alimenta a apologia da
miséria.
Há continuidades e mudanças na agenda dessa elite. A
proteção do Estado é, há mais de um século, a sua principal
continuidade: desde o monopólio dos tabacos na viragem do século XIX
para o século XX, até à siderurgia ou aos petróleos durante o
salazarismo e à eletricidade, às autoestradas ou à saúde no nosso tempo,
sempre a elite económica teve no Estado o seu mais fiel aliado. Mas
essa proteção não cai do céu. Ela é sim o resultado da tessitura fina de
redes de cumplicidade entre a esfera de decisão económica da elite e as
diferentes instâncias do poder político, desde os partidos aos media e
às instituições.
Que um banqueiro - membro de uma das famílias que
ao longo de mais de um século perdura no topo da economia nacional,
resistindo a todas as intempéries políticas e financeiras - tenha
beneficiado de programas governamentais de amnistia fiscal para
regularizar a não declaração ao fisco de 8,6 milhões de euros é muito
revelador da relação de cumplicidade entre o Estado e as famílias da
banca. O que impressiona neste caso é a duplicidade com que o Estado
trata as pessoas: uma dívida ao fisco de um qualquer cidadão anónimo na
ordem de umas centenas de euros determina invariavelmente sanções e
punições temíveis para a existência frágil da esmagadora maioria; já a
dívida de milhões de um banqueiro por infração da regra mais basilar que
é a da declaração de rendimento e de património é objeto de tratamento
com deferência e vénia, quem sabe se não mesmo com um agradecimento do
Estado credor. O banqueiro sabe que tem no Estado um amigo, o cidadão
arrisca-se a ter nele um agressor.
Que um outro banqueiro, cujo
banco é detido em 99% pelo Estado, diga publicamente que "não se
chocaria" se o Estado nomeasse um membro para a gestão do banco é
igualmente revelador. A sobranceria com que a elite se permite tratar o
Estado, a redução deste a algo que se tolera (mesmo que se corra à
procura do seu auxílio ao primeiro obstáculo que surja à tranquilidade
da acumulação), evidencia como ela dá por assente que o Estado não
incomodará e se remeterá ao servil papel de atento, venerador e
obrigado.
O desdém da elite pelo Estado é a expressão de um seu
desdém mais fundo pela sociedade no seu todo. Que ainda um outro
banqueiro se dê o direito de dizer, na mesmíssima sessão em que anunciou
lucros do seu banco no valor de 250 milhões de euros - dos quais 160
resultantes de especulação sobre a dívida soberana de Portugal - que se
os sem-abrigo aguentam a sua condição nós todos temos de aguentar as
consequências da vertigem do empobrecimento mostra como a elite dos
negócios entrou em versão hardcore e como a sua confiança lhe fez perder
a noção dos limites do decoro.
Esta nata que impôs a vinda da
troika para garantir o pagamento por quem trabalha dos custos das suas
irresponsabilidades especulativas e que abençoa a nomeação para o
Governo de quem calou o crime do BPN é aquilo que mais precisa de ser
refundado em Portugal."
Até quando vão os banqueiros gozar connosco?
Texto de Tiago Mesquita, publicado no seu blogue "100 reféns" no "Expresso".>
"O Santander, presidido por António Vieira Monteiro, registou de 2011 para 2012 um aumento superior a 200% de 63,9 milhões para 250 milhões de euros."
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
A economia e a fé
Texto de André Macedo hoje publicado no Diário de Notícias".
Alguém acredita nesta coisa? É bom notar que este triplo salto teria de acontecer numa altura em que a Zona Euro vem de uma recessão, pode até não conseguir sair dela neste trimestre (o ritmo de crescimento nominal das exportações portuguesas está a cair desde março de 2011). Além de que o nosso principal parceiro comercial - Espanha - está a arder financeira e politicamente.
Ricardo Cabral vai mais longe. Diz ele: embora exportar seja fundamental, as empresas que exportam não vivem no limbo. Elas estão ligadas ao mercado interno: ou porque também vendem para ele - e, portanto, sofrem com o colapso da procura -, ou porque têm relações com fornecedores internos, sujeitos a impostos draconianos, ou ainda porque são confrontados com uma força de trabalho esmagada pela violência fiscal. Ou seja: a economia não é compartimentada. Embora quem exporte sobreviva melhor, não deixa de tornar-se menos competitivo por causa do contexto.
E qual é o contexto? Além do que já se conhece, o Governo admite que a retoma prevista para 2014 será pouco ou nada sentida pelas famílias. O contributo do consumo privado para a taxa prevista de crescimento (0,8% ) será de apenas 0,1 pontos percentuais, o valor mais baixo de todos os episódios de recuperação registados desde 1961. O mesmo acontecerá com a procura interna, que oferecerá uma ajuda de apenas 0,2 pontos percentuais, o valor mais baixo nos 53 anos de observações. É bom perceber que estamos a falar de uma previsão e que as previsões são sempre otimistas.
No fundo, a coisa está assim: o ajustamento era inevitável, a herança uma tragédia, mas a recessão está a ser tão profunda que: 1) o desemprego vai a caminho dos 17%; 2) em proporção do PIB, as empresas devem hoje mais do que quando começou a crise; 3) a dívida pública está nos 123% e não está estabilizada; 4) não há crédito e os bancos (em cartel?) continuam a cobrar juros de usura, apesar de o comprarem barato ao BCE. Acreditar que o crescimento surgirá de geração espontânea é não apenas otimista - tem tudo para dar errado. Veremos."
Álvaro, explica-nos o BPN e TGV
Texto de Daniel Deusdado hoje publicado no Jornal de Noticias.
3. Sejamos francos: o dr. Franquelim Alves era até há dias o gestor principal do milionário programa comunitário Compete (colocado lá pelo PSD em fevereiro último) e onde se podem decidir candidaturas em função dos mais variados critérios. Agora é secretário de Estado do Empreendedorismo onde, no essencial, é um ajudante do ministro Álvaro. Há uma diferença muito grande?
4. Aliás, como sabemos, ninguém vai parar a determinados lugares sem ser "de confiança". Por onde andou o dr. Franquelim Alves? Foi diretor financeiro da Lusomundo no início da década de 90, grupo que havia comprado por atacado os principais jornais portugueses privatizados pelo cavaquismo, passou depois pelo grupo Jerónimo Martins e PT. E foi finalmente parar à Sociedade Lusa de Negócios (do grupo BPN), uma sociedade que transformava os prejuízos do BPN em lucros chorudos. Repare-se então no currículo oficial do novo secretário de Estado: "Dezembro 2007 - Outubro 2008: CEO de um Grupo de participações sociais envolvendo as áreas da saúde, hotelaria, retalho automóvel e sistemas de informação". Zero de BPN/SLN. Álvaro e Relvas querem fazer de nós todos burros. E cegos. E surdos.
5. Aliás, um ponto extra sobre Álvaro, Gaspar e o Governo: afinal o TGV anunciado ontem já não é "TGV". É uma "linha de comboio apenas para mercadorias". E afinal é importante, mas só arranca em 2015... Mas há três falsidades na notícia: a primeira é de que o arranque em 2015 só serve para esconder que o dinheiro que existia atualmente para o projeto foi desviado em parte (600 milhões) para mais um buraco do Estado, a Parpública. Portanto, adia-se. Em segundo lugar: não há linhas ferroviárias apenas para mercadorias (como não há autoestradas apenas para camiões). Obviamente, haverá, o Lisboa-Madrid para passageiros, mas não se pode dizer já. Por fim, Gaspar não conseguiu fazer passar os apoios europeus de 25 para 85%. A percentagem de comparticipação europeia para redes transeuropeias de transportes sempre foi altíssima como se comprova em Espanha.
6. "Já alguém teve o bom senso de elucidar os portugueses por que estamos a investir milhares de milhões de euros num TGV, em vez de os gastarmos em novas escolas, hospitais mais modernos ou mesmo numa redução da carga fiscal?". Sabe quem escreveu isto? O ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, em "O medo do insucesso nacional", 2009. Era altamente demagógico e politicamente incendiário já que Sócrates cavalgava o TGV Lisboa-Madrid em ano eleitoral. Não havia, da parte de Álvaro, nesse livro, um esclarecimento sério sobre a componente "mercadorias" e "bitola europeia". Mas o marketing político é isto mesmo: areia para os olhos. E resulta quase sempre em boas carreiras políticas."
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
O problema moral com Franquelim Alves
Texto de Pedro Tadeu hoje publicado no "Diário de Noticias"
"Franquelim Alves
terá uma moral irrepreensível. O problema é que a escolha do
primeiro-ministro para secretário de Estado do Empreendedorismo,
Competitividade e Inovação levanta problemas de moral. Problemas sem
importância alguma, dirão... Não é assim.
O ruído à volta da
nomeação do economista levantou-se, em primeiro lugar, por ele ter sido
administrador da SLN/BPN, o local onde se concretizou um pacote de
fraudes que custa aos portugueses, até agora, três mil milhões de euros.
Isso foi omitido do seu currículo, apesar de Franquelim Alves ter feito
parte, em 2008, das sucessivas equipas lideradas por Oliveira e Costa
(que está a ser julgado), Abdool Vakil e Miguel Cadilhe.
Em
segundo lugar, em resposta a uma comissão de inquérito da Assembleia da
República, o doutor Franquelim declarou ter achado ser "prudente" não
informar o Banco de Portugal quando se apercebeu, no princípio de 2008,
da existência de uma montanha de imparidades e de atos irregulares no
banco para onde, em má hora, entrara.
Qual é o problema moral? É
de Franquelim Alves? Não, pois se aceitarmos não ter o homem
responsabilidade pelos crimes do BPN, temos de admitir o seu direito a
exercer os cargos que entender. Será caridosa esta tese, mas vamos
acolhê-la, até por piedade.
O problema de moral política neste
caso, incontornável, é de quem nomeia, de quem escolhe Franquelim para
um cargo público, ligado a decisões económicas, sabendo da "sombra" do
caso BPN.
Estamos a falar da moral política de alguém que o povo
escolheu para liderar o País e que, por isso, tem de ter consciência
permanente de que o seu patrão, o seu "acionista", não é uma qualquer
senhora Merkel, não é um capitalista riquíssimo, não é um banqueiro
cheio de capacidade de investimento. Os acionistas a quem este senhor
reporta chamam-se eleitores e há uns oito milhões deles.
Até
agora achava que o primeiro-ministro agia sob uma visão em que
acreditava e de acordo, genericamente, com o que lealmente tinha
informado pretender fazer. Mesmo a TSU e os aumentos de impostos podiam
ser vistos como fazendo parte desse contrato original, que o levou a
tomar o poder em 21 de junho de 2011.
O que não fez parte do
contrato foi isto: misturar, mesmo em dose criminalmente insuspeita, BPN
e o seu tremendo roubo aos eleitores com uma parte fundamental da
gestão da economia do País. São moralmente incompatíveis.
Face a
este problema Passos Coelho colocou-se no lado pior, no lado de quem não
quer saber de moral política para coisa alguma. E isso ele prometeu aos
eleitores, aos seus acionistas, que não faria."
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Depois de Franquelim Alves, Oliveira e Costa será o próximo Ministro das Finanças de Passos Coelho?
Texto de João Lemos Esteve, publicado no seu blogue "Politicoesfera" no "Expresso"
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Ultra rico
"Fernando Ulrich exigiu a intervenção da troika quando o BPI tremeu. Depois, recebeu 1500 milhões de euros dos contribuintes para a sua recapitalização. Mais do que os capitais próprios do banco.
Já não se aguenta
Texto de Nuno Saraiva hoje publicado no "Diário de Notícias"
"Durante o
Estado Novo, os interrogatórios da PIDE, a polícia política do regime,
eram muitas vezes testemunhados por um "médico" que caucionava os atos
de tortura. O excelso e corajoso doutor, insensível ao sofrimento dos
interrogados, incentivava os inspetores a prosseguirem com a inquirição,
do tipo custe o que custar, assegurando sempre que o detido "aguenta,
aguenta".
As afirmações mais recentes de Fernando Ulrich, o
presidente do BPI, remetem-nos para esse tempo em que a doutrina oficial
do pensamento único impunha a filosofia dos "pobrezinhos mas
honradinhos". Na quarta-feira, dia em que apresentou os resultados
consolidados do exercício de 2012, Fernando Ulrich estava impante - e
com razão - com os lucros de 250 milhões que o banco a que preside
conseguiu arrecadar. Ficava-lhe bem, porém, um pouco de humildade que
lhe permitisse reconhecer que os números que apresentou só foram
possíveis graças à intervenção do Estado através do fundo de
recapitalização da banca, ao sacrifício dos contribuintes que ele parece
desprezar e aos depósitos de gente que, de hoje para amanhã, pode ficar
com o estatuto de sem-abrigo.
Mas o mais chocante nas palavras
do banqueiro é o paternalismo, a insensibilidade, a arrogância, a
pesporrência e a sobranceria que elas revelam. Interroga-se Ulrich: "Se
os gregos aguentam uma queda do PIB de 25%, os portugueses não
aguentariam porquê? Somo todos iguais, ou não?" E, pior do que esta
defesa despudorada e resignada do empobrecimento coletivo, é a
desumanidade demonstrada pela interrogação seguinte: "Se você andar aí
na rua, e infelizmente encontramos pessoas que são sem- -abrigo, isso
não lhe pode acontecer a si ou a mim porquê? Isso também nos pode
acontecer. E se aquelas pessoas que nós vemos ali na rua, naquela
situação a sofrer tanto, aguentam, porque é que nós não aguentaríamos?"
Afirmações
deste tipo são próprias de corações empedernidos que, está bom de ver,
jamais conviveram com a realidade que nos rodeia. Quando se tem um pingo
de humanidade, e nos confrontamos com a crueldade de quem vive na rua,
sem teto, sem família e sem comida, a interrogação obrigatória não é "se
aquelas pessoas aguentam, porque é que nós não aguentaríamos?", mas sim
como é que aquelas pessoas aguentam?
Fernando Ulrich, como
Isabel Jonet ou, para não ser acusado de sectarismo, Arménio Carlos, são
gente de referência nas mais diversas atividades. Têm responsabilidades
acrescidas de cada vez que abrem a boca, e têm de ter consciência das
repercussões que as suas palavras, mesmo quando mal medidas, têm na
sociedade portuguesa, sobretudo em momentos delicados como aqueles que
vivemos.
Mas Fernando Ulrich é também a voz e, num certo sentido, o
ideólogo de uma forma passadista de pensar que, cada vez mais, vai
ganhando terreno. A de que o Estado deve ser caridoso em vez de
solidário. E não, não somos todos iguais. Porque, como sabemos, no caso
dos bancos é bom que o Estado seja solidário na hora de arranjar
dinheiro, salvar as instituições e assumir os prejuízos.
Este é
só mais um exemplo de como a política e o Estado estão capturados pelo
sector financeiro. Outro tivemo-lo ontem quando da obscena tomada de
posse de um secretário de Estado - conferida por Cavaco Silva - que já
foi administrador da SLN, a holding detentora do BPN. Franquelim Alves,
que ao que consta omitiu do seu currículo esta passagem, terá
reconhecido no Parlamento durante o inquérito parlamentar à gestão do
BPN que "a situação era conhecida" e, "por razões cautelares", o Banco
de Portugal não foi informado do que se estava a passar.
São estes
personagens que, apesar de abrigados pelo Estado, passam a vida a
rogar-lhe pragas e a mal-dizê-lo. Veremos, no caso de Fernando Ulrich,
quando um dia for um "sem-abrigo" do Estado, se o banqueiro se aguenta! "
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Alternativa, procura-se!
Texto de Pedro Bacelar de Vasconcelos hoje publicado no "Jornal de Noticias"
"A construção de uma alternativa política aos desvarios do atual
Governo é uma preocupação cada vez mais premente e um dever
incontornável dos partidos, sobretudo os da Oposição e, em especial, do
Partido Socialista. A alternativa que se procura não se resume a um mero
programa, à elaboração de um elenco de medidas logicamente articuladas e
sistematizadas com vista à resolução dos problemas diagnosticados: a
dívida, o desemprego, o almejado crescimento da economia. Tão-pouco se
constrói, apenas, pela mudança de caras, protagonistas ou figurantes, ou
pela celebração festiva de congressos.
A construção de uma
alternativa política precisa de coragem, consistência e credibilidade.
Coragem para que o principal partido da Oposição leve até ao fim um
debate sério sobre as suas responsabilidades próprias, enquanto força
governante, nas políticas erradas que conduziram o país à situação
presente. Consistência nas soluções que há de propor e que terão de
conciliar os recursos de que dispomos com os padrões de decência
próprios do Estado de Direito e da democracia constitucional em cuja
defesa estamos comprometidos. Credibilidade que apenas se obtém pelo
amplo envolvimento da sociedade civil, pela prática de uma cultura de
transparência, pela capacidade de persuadir os eleitores de que existe,
realmente, uma alternativa séria, ponderada, merecedora da sua
confiança.
Há que compreender que as eleições que mais tarde ou
mais cedo irão ter lugar poderão representar a derradeira oportunidade
para impedir que esta crise comprometa também o modelo de convivência
democrática que fomos capazes de construir desde a revolução democrática
de Abril de 1974. Os erros cometidos vêm de muito longe, pelo menos,
desde o primeiro governo de Cavaco Silva, mas a crise política do regime
foi inaugurada pelo ciclo das "fugas".
Primeiro, com a renúncia
de Guterres que esculpiu na história da democracia, como epitáfio
paradoxal, a conhecida frase - "é a vida!". Seguiu-se a retirada
oportuna de Barroso, pouco depois de anunciar que o país estava "de
tanga", prenunciando a queda do mal-amado Santana Lopes. Depois, apesar
da conquista da primeira maioria absoluta do partido, José Sócrates
achou prudente declarar um período de luto - alegadamente para avaliar a
real situação das finanças do país - antes de lançar as medidas de
austeridade que permitiriam a Portugal cumprir as metas do equilíbrio
financeiro impostas pela Europa, já no limiar da crise internacional de
2008. Mas logo em 2009 regressava a instabilidade governativa e o
salve-se quem puder.
Uma revisão constitucional era uma ideia bem
interessante para acabar de vez com o messianismo envergonhado que
sustenta o nosso sistema semipresidencial, mas já basta de pretextos
para adiar decisões simples e prementes que poderiam dar um poderoso
sinal da vontade de reabilitar o Estado e de reanimar esta democracia
claudicante. Por exemplo, se a própria Constituição prevê que a
Assembleia da República possa funcionar apenas com 180 deputados, por
que razão temos de continuar a eleger 220? Se os eleitores desconfiam
dos seus representantes parlamentares - porque não os conhecem nem sabem
como ou por que razão foram escolhidos - por que é que se mantém o
sistema de eleição em listas fechadas e não são criados os círculos
uninominais que aliás estão previstos, até agora inutilmente, na lei
fundamental?
A obsolescência do sistema político, a perversão da
representação democrática e o desprestígio dos partidos políticos são
realidades indesmentíveis. As próprias instituições soberanas, de um ou
de outro modo, estão implicadas nos escândalos económicos e financeiros
que impunemente arruinaram a nossa economia - do Governo ao Parlamento,
do Presidente da República aos tribunais. Em vez de deplorar a chamada
"onda populista", é urgente contrapor respostas práticas e convincentes
ao ceticismo que crescentemente se apodera dos cidadãos."
