Texto de Nuno Saraiva hoje publicado no "Diário de Noticias"
"Ficámos ontem a
saber, através do insuspeito Eurostat, que a taxa de desemprego em
Portugal voltou a subir em janeiro, cifrando-se agora nos 17,6%. Isto é,
quase um milhão de portugueses contabilizados sem trabalho, o que
significa mais de milhão e meio de desempregados reais. A evidência é
tal que o ministro da Economia já admitiu o falhanço. Paulo Portas foi
mais longe e assegurou que "só uma pessoa que não está no seu são juízo é
que diz que está tudo bem". Porém, há precisamente uma semana, o
primeiro-ministro garantia em Viena estarmos "na direção correta" e não
existir "necessidade de alterar a trajetória".
Se outros motivos
não existissem, o autismo e a obstinação que conduzem Pedro Passos
Coelho à negação permanente da realidade seriam razões de sobra para que
um mar de gente saísse à rua, no exercício legítimo de "um sobressalto
cívico". Ontem como hoje, as palavras de Cavaco Silva a 9 de março de
2011 em que incentivava à indignação da sociedade civil e desafiava os
jovens para que fizessem "ouvir a vossa voz porque este é o vosso tempo"
não podiam ser mais adequadas. A diferença é que hoje, além de estar
sitiado em Belém (de onde não sai há um mês), o Presidente da República,
cujo maior poder é o da palavra, mantem o silêncio preferindo
entreter-se a distribuir medalhas ou com questões de semântica jurídica.
A
Grândola voltou pois à rua num tempo assim. Em que o desemprego
continua a aumentar, em que os portugueses são acusados de pieguice e em
que os jovens são convidados a emigrar, em que o confisco e o assalto
fiscal são a receita de quem está no poder, em que se faz no Governo
exatamente o contrário daquilo que se havia prometido na oposição de
forma impune, em que a economia está feita em cacos, em que as previsões
são corrigidas à velocidade meteórica de quem muda de camisa mostrando
cada vez mais que os brutais sacrifícios exigidos não valem a pena, em
que dentro dos próprios partidos da maioria são cada vez mais os que
acusam o ministro das Finanças de estar a levar o País à ruína.
Perante
os factos, o primeiro--ministro responde com apelos à "serenidade" e
classifica como "radicalização" a indignação legítima de quem protesta
seguindo a máxima de que "a cantiga é uma arma". Uma espécie de variação
em "Pedro menor" do "nós ou o caos" cavaquista.
As reações aos
protestos dos últimos dias têm revelado, aliás, uma estranha comunhão de
pontos de vista entre sociais-democratas, centristas e... socialistas.
Todos, ou quase todos, saíram em defesa de Miguel Relvas após a
grandolada no ISCTE falando em "atentados à liberdade de expressão" e à
"democracia". Mas então a democracia esgota-se no momento em que
votamos? O protesto, a expressão pública do descontentamento, o
"sobressalto cívico" defendido em tempos por Cavaco não são também um
exercício democrático? E alguém "no seu são juízo" acredita mesmo que se
atentou contra a liberdade de expressão? Mas não pode um ministro falar
quando quer, como quer e onde quer? É evidente que pode e é óbvio que a
democracia é tudo isto. Ou será que preferiam umas boas pedradas ou
montras partidas à la grega em vez das manifestações pacíficas
enquadradas pela Grândola, vila morena de Zeca Afonso? Aí, sim, estariam
em causa as liberdades democráticas.
E de uma coisa tenhamos
todos a certeza. É impossível governar, com ou sem memorando de
entendimento para cumprir, contra a vontade e a revolta de um povo quase
inteiro. Como defenderam esta semana Jorge Coelho e António Pires de
Lima, numa conferência promovida pela TSF, é chegado o tempo de dizer à
troika que a receita da austeridade falhou, que após quase 20 meses de
sacrifícios brutais os portugueses não aguentam mais e de impor ao FMI,
ao BCE e à Comissão Europeia um "memorando para o crescimento e o
emprego" e o fim da escravatura fiscal a que estamos sujeitos.
Não
o fazer é ignorar o sentimento do País. E é bom que o Presidente da
República, a quem compete também ler os sinais, esteja atento e os saiba
interpretar. Sob pena de, um dia destes, as grandoladas darem lugar ao
caos social e à rutura. E o descontentamento e desencanto com os
políticos e as políticas conduzam, como em Itália, ao voto maciço num
palhaço."
sábado, 2 de março de 2013
Muitas razões para 'grandolar'
O mistério pós-manif
Texto de Henrique Monteiro hoje publicado na edição online do "Expresso".
"Não tenho dúvidas de que a manifestação de hoje será grande. Enorme! Cada um tem as suas amostragens, mas a minha é surpreendente. Pessoas que nunca imaginei lá porem os pés, vão. Algumas com muita convicção, outras como quem vai a um picnic. Mas vão!
Se tudo correr bem (e entendo por correr bem não haver pequenos grupos provocadores violentos nem exageros policiais) há um enorme mistério que me ocorre: o que vai fazer o Governo? E o que vai fazer o Presidente?
No pós-manif de 15 de setembro do ano passado o Governo recuou na proposta da TSU. As coisas não melhoraram, mas pelo menos acalmaram. E agora? Vai recuar? Em quê? Limita-se a dizer que vai conseguir mais tempo para pagar a dívida (o que deve ficar definido já na segunda feira)? Foi por causa disso que escondeu o corte de quatro mil milhões que devia estar decidido até ao fim de Fevereiro? Poderá haver uma boa (ou menos má) notícia? Não creio.
E se a manifestação for mesmo enorme, como prevejo, será que o Presidente da República sai do torpor em que parece viver para partilhar com os seus concidadãos um pensamento, uma estratégia, um aceno de simpatia, que seja?
Hoje é um dia mau para o Governo. Não que eu espere que saia algo concreto da manifestação, mas porque perante o que deve ser um mar de gente o país voltará a verificar que os seus dirigentes não têm estratégia nem rumo. Estão gastos.
Veremos..."
sexta-feira, 1 de março de 2013
Os empresários portugueses e a "maminha" das tetas sagradas da vaca do Estado
Texto de João Lemos Esteves hoje publicado na edição online do "Expresso".
2. E depois quem paga a factura? Os portugueses, claro. Os cidadãos comuns a quem o Estado não dá "maminha. Pelo contrário: o Estado vive à "mama" do nível brutal de impostos que cobra a todos nós, sem que tenhamos qualquer contrapartida em termos de excelência dos serviços públicos prestados. Não só pagamos impostos, não só somos alvo de um verdadeiro confisco fiscal, como teremos de pagar mais para beneficiar dos serviços estatais de saúde e educação. Ele é impostos, ele é taxas, ele é contribuições especiais. Ao fim e ao resto, em Portugal, quase que se paga para trabalhar! Mas, claro, que vivemos todos à mama do Estado! O culpado da crise somos nós...claro que sim!
3.Claro que para Alexandre Soares dos Santos é muito fácil falar. Perante o confisco fiscal levado a cabo pelo Governo Passos Coelho, Soares dos Santos transfere o seu dinheirinho para uma conta off-shore e vai acumulando a sua riqueza. Muito bem: investiu, ganhou o seu lucro e agora disfruta desse lucro. A maioria dos portugueses também gostaria de ter o ordenado que recebem depois de um mês intenso de trabalho livre de impostos, gostava de acumular numa off-shore para depois viver à grande. Ou o Dr. Alexandre Soares dos Santos acha que os portugueses gostam de ser pobres? Eu próprio gostaria de mamar na mesma teta de Alexandre Soares dos Santos: ganhava o meu dinheiro, dava-me com todos os Governos, pirava-me com o dinheiro antes de pagar impostos. E depois pregava a moral de bom cidadão aos portugueses.
4. Pois, mas este Governo, que se diz liberal, a única política que consegue executar é a de aumento de impostos. Eu é que sou "mamado" pelo Estado. E, no fim do mês", Dr. Alexandre Soares dos Santos, a "vaca" não sou eu? A "vaca" das maminhas económico-financeiras não somos nós, portugueses comuns? Confirma-se: todas as vacas são iguais, mas umas são mais iguais do que outras...Para alguns, as maninhas do Estado dão, apenas, um pingo (muito) doce."
As tetas de Alexandre Soares dos Santos
Texto de Tiago Mesquita, publicado no seu blogue "100 reféns" no "Expresso"
"Sou a favor de manifestações que tenham conteúdo. Que no fim da passeata apresente alguma coisa. Não é com Grândolas Vilas Morenas que a gente resolve nada" - defendeu, durante a apresentação dos resultados da empresa em 2012. Pois não, é a levantar vinte euros no multibanco de cada vez que queremos gastar vinte cêntimos no Pingo Doce. Isso sim, é luta.
Ninguém estava à espera que a Jerónimo Martins anunciasse os resultados líquidos de 360,4 milhões de euros referentes a 2012 ao som de música de intervenção. Agora, seria expectável, até aconselhável, num ano em que quase todos os portugueses saíram a perder, que um (dos poucos) que saiu a ganhar - milionário - tivesse algum decoro ao falar de assuntos que lhe passam ao lado.
Com lucros destes, muito português guardava os vinis do Zeca Afonso no baú, pendurava a boina e ia viver para um paraíso qualquer. Fiscal ou não. Daqueles em que a sede do banco é uma cabana de colmo, o céu é azul, o mar é quentinho e onde até as palmeiras sorriem.
Não satisfeito, Soares dos Santos decidiu dar mais um conselho aos pobres. Aparentemente, também especialista em subsídios, provavelmente pelas muitas horas passadas à porta da Segurança Social, afirmou o senhor que "andamos sempre a mamar na teta do Estado". "Porquê, porquê?" - questionou indignado, quase irado, como se alguém lhe estivesse a ir ao bolso.
Ora bem, a propósito de "passeatas" e de "mamar do Estado", recordo a Soares dos Santos as seguinte notícias:
"Soares dos Santos muda participação na Jerónimo Martins para a Holanda - Os 56% que a família Soares dos Santos detém na Jerónimo Martins, dona da marca Pingo Doce, passaram a ser controlados indiretamente, através de uma sociedade com sede na Holanda. A operação deverá estar relacionada com o agravamento da tributação fiscal (...)". "Soares dos Santos garantiu que não tinham sido os impostos a levar a empresa para a Holanda. Admitiu, contudo, que poderá ter vantagens fiscais no futuro devido a esta alteração da holding que detém acções na Jerónimo Martins." Expresso e Negócios Online
Infelizmente, hoje em dia, nem todas as famílias podem tomar "opções". Continuam, em desespero, a ser ordenhadas pelo Estado até o leite sair em pó. Enquanto isso, os de sempre, com as tetas bem sedeadas na Holanda ou noutro país qualquer, para fugir à sede (e à sede!) do Estado português, que assim não pode mamar o doce pingo delas como desejaria, estão, a cada dia que passa, mais "afortunados" e, principalmente, mais moralistas e hipócritas."
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
O mito escangalhado
Texto de Baptista Bastos hoje publicado no "Diário de Notícias"
"Tudo indica que o Grande Manitu das finanças portuguesas não passa de uma fraude. O homem, tido e havido como um génio sem par, não lhe acerta uma. De cada vez que se põe a prever, a projectar números e concepções, sai tudo errado; pior: acontece o contrário, com a consequência nefasta de afectar milhões de nós. Só agora, as indignações e os vitupérios começaram a surgir. E posta em causa a competência de Vítor Gaspar. Não se lhe exige que seja uma pitonisa de Delfos, dispondo de poderes premonitórios quase divinos. Mas pede-se-lhe, unicamente, que faça bem o seu trabalho: analise, compare, estatua as previsibilidades do mercado. A experiência ideológica aplicada a Portugal, de que ele é um obediente serventuário, conduz a um esvaziamento do próprio animus colectivo, resultado de um empreendimento de sujeição baseado no medo, na violência e na unilateralidade de pensamento.
No domingo, durante o programa Prós e Contras, de Fátima Campos Ferreira, um dos melhores que vimos, o general Loureiro dos Santos referiu que, nas Forças Armadas, um oficial superior que se enganasse tanto e tantas vezes, já tinha sido despedido. Aliás, durante a sessão, as críticas às definições e às decisões do Governo foram das mais lúcidas interpretações que tenho ouvido acerca da maneira e do modo como estamos a ser conduzidos e governados. Todo o poder encontra sempre uma resistência, sobretudo quando actua admitindo não haver possibilidade de escolha e de alternativa. As decisões são aceitas e tomadas em conjunto.
É, pois, preciso não esquecer de que a desgraça que nos atinge estende-se, na sua imperiosa e grave crueldade, à culpa de todos os membros do Executivo. Nenhum é inocente e cada um e todos terão de ser punidos, para lá do que as urnas disserem. A correlação entre acção e indulgência, que se tornou uma absurda normalidade, tem de ser interrompida, e os governantes responsabilizados. Recordo que a França, após a Libertação, criou a figura jurídica de "indignidade nacional" aplicável aos que haviam tripudiado sobre "a honra da pátria e os direitos de cidadania."
O lado "punitivo e ideológico", de que fala a eurodeputada socialista Elisa Ferreira, foi por eles criado e desenvolvido com inclemência e zelo. Resgatar a tragédia aplicando-lhes o mesmo remédio é uma tese que faz caminho, como resposta de justiça, nunca como retaliação ou vingança. Justiça, pura e simplesmente
O que este Governo nos tem feito representa a mais grave contraconduta social, política, cultural e humana verificada em Portugal desde o salazarismo. O discurso oposicionista não pode, somente, ser "diverso" e incidir, apenas, na "actualidade" portuguesa. Os sicários deste projecto encontram-se espalhados transver- salmente por todos os sectores da actividade europeia, mas não há batalhas inúteis, nem lutas sem sofrimento.
É, pois, preciso não esquecer de que a desgraça que nos atinge estende-se, na sua imperiosa e grave crueldade, à culpa de todos os membros do Executivo. Nenhum é inocente e cada um e todos terão de ser punidos, para lá do que as urnas disserem. A correlação entre acção e indulgência, que se tornou uma absurda normalidade, tem de ser interrompida, e os governantes responsabilizados. Recordo que a França, após a Libertação, criou a figura jurídica de "indignidade nacional" aplicável aos que haviam tripudiado sobre "a honra da pátria e os direitos de cidadania."
O lado "punitivo e ideológico", de que fala a eurodeputada socialista Elisa Ferreira, foi por eles criado e desenvolvido com inclemência e zelo. Resgatar a tragédia aplicando-lhes o mesmo remédio é uma tese que faz caminho, como resposta de justiça, nunca como retaliação ou vingança. Justiça, pura e simplesmente
O que este Governo nos tem feito representa a mais grave contraconduta social, política, cultural e humana verificada em Portugal desde o salazarismo. O discurso oposicionista não pode, somente, ser "diverso" e incidir, apenas, na "actualidade" portuguesa. Os sicários deste projecto encontram-se espalhados transver- salmente por todos os sectores da actividade europeia, mas não há batalhas inúteis, nem lutas sem sofrimento.
- See more at: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3076695&seccao=Baptista%20Bastos&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco#sthash.TLD3pBy5.dpuf
No domingo, durante o programa Prós e Contras, de Fátima Campos Ferreira, um dos melhores que vimos, o general Loureiro dos Santos referiu que, nas Forças Armadas, um oficial superior que se enganasse tanto e tantas vezes, já tinha sido despedido. Aliás, durante a sessão, as críticas às definições e às decisões do Governo foram das mais lúcidas interpretações que tenho ouvido acerca da maneira e do modo como estamos a ser conduzidos e governados. Todo o poder encontra sempre uma resistência, sobretudo quando actua admitindo não haver possibilidade de escolha e de alternativa. As decisões são aceitas e tomadas em conjunto.
É, pois, preciso não esquecer de que a desgraça que nos atinge estende-se, na sua imperiosa e grave crueldade, à culpa de todos os membros do Executivo. Nenhum é inocente e cada um e todos terão de ser punidos, para lá do que as urnas disserem. A correlação entre acção e indulgência, que se tornou uma absurda normalidade, tem de ser interrompida, e os governantes responsabilizados. Recordo que a França, após a Libertação, criou a figura jurídica de "indignidade nacional" aplicável aos que haviam tripudiado sobre "a honra da pátria e os direitos de cidadania."
O lado "punitivo e ideológico", de que fala a eurodeputada socialista Elisa Ferreira, foi por eles criado e desenvolvido com inclemência e zelo. Resgatar a tragédia aplicando-lhes o mesmo remédio é uma tese que faz caminho, como resposta de justiça, nunca como retaliação ou vingança. Justiça, pura e simplesmente
O que este Governo nos tem feito representa a mais grave contraconduta social, política, cultural e humana verificada em Portugal desde o salazarismo. O discurso oposicionista não pode, somente, ser "diverso" e incidir, apenas, na "actualidade" portuguesa. Os sicários deste projecto encontram-se espalhados transver- salmente por todos os sectores da actividade europeia, mas não há batalhas inúteis, nem lutas sem sofrimento.
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No domingo, durante o programa Prós e Contras, de Fátima Campos Ferreira, um dos melhores que vimos, o general Loureiro dos Santos referiu que, nas Forças Armadas, um oficial superior que se enganasse tanto e tantas vezes, já tinha sido despedido. Aliás, durante a sessão, as críticas às definições e às decisões do Governo foram das mais lúcidas interpretações que tenho ouvido acerca da maneira e do modo como estamos a ser conduzidos e governados. Todo o poder encontra sempre uma resistência, sobretudo quando actua admitindo não haver possibilidade de escolha e de alternativa. As decisões são aceitas e tomadas em conjunto.
É, pois, preciso não esquecer de que a desgraça que nos atinge estende-se, na sua imperiosa e grave crueldade, à culpa de todos os membros do Executivo. Nenhum é inocente e cada um e todos terão de ser punidos, para lá do que as urnas disserem. A correlação entre acção e indulgência, que se tornou uma absurda normalidade, tem de ser interrompida, e os governantes responsabilizados. Recordo que a França, após a Libertação, criou a figura jurídica de "indignidade nacional" aplicável aos que haviam tripudiado sobre "a honra da pátria e os direitos de cidadania."
O lado "punitivo e ideológico", de que fala a eurodeputada socialista Elisa Ferreira, foi por eles criado e desenvolvido com inclemência e zelo. Resgatar a tragédia aplicando-lhes o mesmo remédio é uma tese que faz caminho, como resposta de justiça, nunca como retaliação ou vingança. Justiça, pura e simplesmente
O que este Governo nos tem feito representa a mais grave contraconduta social, política, cultural e humana verificada em Portugal desde o salazarismo. O discurso oposicionista não pode, somente, ser "diverso" e incidir, apenas, na "actualidade" portuguesa. Os sicários deste projecto encontram-se espalhados transver- salmente por todos os sectores da actividade europeia, mas não há batalhas inúteis, nem lutas sem sofrimento.
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É, pois, preciso não esquecer de que a desgraça que nos atinge estende-se, na sua imperiosa e grave crueldade, à culpa de todos os membros do Executivo. Nenhum é inocente e cada um e todos terão de ser punidos, para lá do que as urnas disserem. A correlação entre acção e indulgência, que se tornou uma absurda normalidade, tem de ser interrompida, e os governantes responsabilizados. Recordo que a França, após a Libertação, criou a figura jurídica de "indignidade nacional" aplicável aos que haviam tripudiado sobre "a honra da pátria e os direitos de cidadania."
O lado "punitivo e ideológico", de que fala a eurodeputada socialista Elisa Ferreira, foi por eles criado e desenvolvido com inclemência e zelo. Resgatar a tragédia aplicando-lhes o mesmo remédio é uma tese que faz caminho, como resposta de justiça, nunca como retaliação ou vingança. Justiça, pura e simplesmente
O que este Governo nos tem feito representa a mais grave contraconduta social, política, cultural e humana verificada em Portugal desde o salazarismo. O discurso oposicionista não pode, somente, ser "diverso" e incidir, apenas, na "actualidade" portuguesa. Os sicários deste projecto encontram-se espalhados transver- salmente por todos os sectores da actividade europeia, mas não há batalhas inúteis, nem lutas sem sofrimento.
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No domingo, durante o programa Prós e Contras, de Fátima Campos Ferreira, um dos melhores que vimos, o general Loureiro dos Santos referiu que, nas Forças Armadas, um oficial superior que se enganasse tanto e tantas vezes, já tinha sido despedido. Aliás, durante a sessão, as críticas às definições e às decisões do Governo foram das mais lúcidas interpretações que tenho ouvido acerca da maneira e do modo como estamos a ser conduzidos e governados. Todo o poder encontra sempre uma resistência, sobretudo quando actua admitindo não haver possibilidade de escolha e de alternativa. As decisões são aceitas e tomadas em conjunto.
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O lado "punitivo e ideológico", de que fala a eurodeputada socialista Elisa Ferreira, foi por eles criado e desenvolvido com inclemência e zelo. Resgatar a tragédia aplicando-lhes o mesmo remédio é uma tese que faz caminho, como resposta de justiça, nunca como retaliação ou vingança. Justiça, pura e simplesmente
O que este Governo nos tem feito representa a mais grave contraconduta social, política, cultural e humana verificada em Portugal desde o salazarismo. O discurso oposicionista não pode, somente, ser "diverso" e incidir, apenas, na "actualidade" portuguesa. Os sicários deste projecto encontram-se espalhados transver- salmente por todos os sectores da actividade europeia, mas não há batalhas inúteis, nem lutas sem sofrimento.
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O que este Governo nos tem feito representa a mais grave contraconduta social, política, cultural e humana verificada em Portugal desde o salazarismo. O discurso oposicionista não pode, somente, ser "diverso" e incidir, apenas, na "actualidade" portuguesa. Os sicários deste projecto encontram-se espalhados transver- salmente por todos os sectores da actividade europeia, mas não há batalhas inúteis, nem lutas sem sofrimento.
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No domingo, durante o programa Prós e Contras, de Fátima Campos Ferreira, um dos melhores que vimos, o general Loureiro dos Santos referiu que, nas Forças Armadas, um oficial superior que se enganasse tanto e tantas vezes, já tinha sido despedido. Aliás, durante a sessão, as críticas às definições e às decisões do Governo foram das mais lúcidas interpretações que tenho ouvido acerca da maneira e do modo como estamos a ser conduzidos e governados. Todo o poder encontra sempre uma resistência, sobretudo quando actua admitindo não haver possibilidade de escolha e de alternativa. As decisões são aceitas e tomadas em conjunto.
É, pois, preciso não esquecer de que a desgraça que nos atinge estende-se, na sua imperiosa e grave crueldade, à culpa de todos os membros do Executivo. Nenhum é inocente e cada um e todos terão de ser punidos, para lá do que as urnas disserem. A correlação entre acção e indulgência, que se tornou uma absurda normalidade, tem de ser interrompida, e os governantes responsabilizados. Recordo que a França, após a Libertação, criou a figura jurídica de "indignidade nacional" aplicável aos que haviam tripudiado sobre "a honra da pátria e os direitos de cidadania."
O lado "punitivo e ideológico", de que fala a eurodeputada socialista Elisa Ferreira, foi por eles criado e desenvolvido com inclemência e zelo. Resgatar a tragédia aplicando-lhes o mesmo remédio é uma tese que faz caminho, como resposta de justiça, nunca como retaliação ou vingança. Justiça, pura e simplesmente
O que este Governo nos tem feito representa a mais grave contraconduta social, política, cultural e humana verificada em Portugal desde o salazarismo. O discurso oposicionista não pode, somente, ser "diverso" e incidir, apenas, na "actualidade" portuguesa. Os sicários deste projecto encontram-se espalhados transver- salmente por todos os sectores da actividade europeia, mas não há batalhas inúteis, nem lutas sem sofrimento.
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Fal-si-da-de
Texto de Sandro Mendonça, Economista, hoje publicado no "Diário Económico"
"Este Governo tenta distrair-nos dos
seus falhanços com mais falhanços. Os falhanços são já paradoxalmente o
único recurso de auto-defesa deste Governo.
Prova 1. No Verão passado Passos Coelho anunciava o fim da crise
para 2013, "um ano já de estabilização da nossa economia e de preparação
da recuperação económica". Afirmava que falava "sem disfarçar a
realidade, dizendo a verdade aos portugueses". Que diz agora o mesmo
Coelho quando os dados do emprego e do PIB aceleram para o pesadelo?
Diz
que Portugal está no "caminho correcto" e que a culpa é do
enquadramento externo, talvez até da Europa "merkelizada" à qual tem
sido subserviente.
Prova 2. Temos depois o caso do Terreiro do Paço onde só a continuada
corrosão de carácter não paga imposto. Os factos não querem nada com
Gaspar e o pior é que Gaspar também não quer nada com eles. Foi Gaspar
que pretendeu impor uma mudança radical na TSU sem nunca provar a
existência do tal "estudo" que alegadamente sustentava a medida. É o
mesmo Gaspar que está confortável com um erro de 100% na sua previsão de
recessão para 2013 e que, em cima desse surrealismo estratégico,
desenhou um orçamento que agora se prepara para rever maquiavelicamente
alegando que há compromissos (!) a cumprir (com quem?).
Prova 3. Diz o ministro da economia que o País "não é amigo das
empresas". Mas é este Governo que encarregou o "planeador fiscal" Paulo
Núncio (agora secretário de Estado) de implementar uma amnistia aos
milionários que evadiram os seus capitais do País. O mesmo Governo que
convidou Lobo Xavier (mais um advogado especializado em ilusionismo
fiscal) a desenhar um regime de isenções às grandes SGPS. Afinal
estratagemas típicos de amigos da especulação (e do BPN) e não de quem
trabalha.
Por tudo isto o crédito deste Governo está exausto. Os militantes do
PSD já o notam até à náusea nessa ronda de seminários a que as cúpulas
deram o anti-nome de "Consolidação, Crescimento e Coesão". Por isto
muitos estarão na próxima manifestação de 2 Março. Este Executivo é um
fracasso que governa para o falhanço dentro de ti ó falsidade.
Uma cena falhada
"Se os partidos querem candidatar os seus dinossauros autárquicos a um quarto mandato vão ter de o assumir
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Um governo para Portugal
Texto de Carvalho da Silva hoje publicado no "Jornal de Noticias"
No que a Portugal diz respeito, por que esperamos?
Um quarto dos portugueses está no desemprego ou com atividade que não dá para sobreviver, a dívida pública já vai em 122,5% do PIB, a recessão e o desemprego vão agravar-se, as empresas e as atividades privadas e públicas continuarão a ser destruídas e, se nada for feito, em 2015 estaremos a contabilizar a saída, em 6 anos, de 400 000 jovens do país. É a sobrevivência de Portugal e a viabilidade do seu desenvolvimento futuro que estão em causa.
As promessas e compromissos que o Governo apresenta aos portugueses não têm qualquer credibilidade: o Governo PSD/CDS representa os credores e os agiotas que nos exploram. Entre aquilo que o Governo dizia e o que o Governo diz agora há uma grande diferença. Dizia não querer "nem mais tempo, nem mais dinheiro". Diz agora que quer adiar mais um ano a meta do défice orçamental prevista para 2013 e ainda pedir à troika uma "recalendarização da dívida oficial", ou seja, quer mais tempo.
Isto não é uma mudança, nem uma viragem na sua política, nem sequer uma pirueta; é simplesmente o reconhecimento da impossibilidade de cumprir a meta do défice de 2013 e de reembolsar os credores nos termos contratados.
A "recalendarização da dívida oficial" de que fala Gaspar é, de certo modo, uma reestruturação da dívida. Feitas umas encenações combinadas entre os mandantes da troika, Gaspar, Passos e C.ª, dir-nos-ão que esse prémio é dado por termos sido bem comportados e porque geramos "confiança externa". A verdade é outra: o bom comportamento lançou o país numa recessão tão profunda que os credores são os primeiros a reconhecer que têm de aliviar a pressão, sob pena do bem comportado morrer da cura, sem pagar as dívidas. Estamos já numa situação em que os próprios credores concluem ser perigoso espremer mais o devedor.
A reestruturação da dívida de que precisamos é outra: uma reestruturação que permita reduzir juros, montantes e prazos, e libertar recursos para o investimento e para a criação de emprego.
Quando todos os sinais de alarme estão a soar estridentes, há que resolver dois problemas: remover os credores da posição que ocupam no governo do país e encontrar uma alternativa de governação que nos represente numa negociação efetiva, séria e acutilante com os credores.
Os portugueses têm de ser chamados a discutir com as forças sociais, económicas e políticas problemas muito delicados como a questão do euro ou as formas de assumir compromissos para a produção de bens e serviços úteis e adequados a um processo de recuperação económica e social. Existem propostas concretas formuladas por partidos, por forças políticas, movimentos sociais, ou mesmo por universitários empenhados, como viu quem esteve no sábado passado na Conferência da rede "Economia com futuro", na Gulbenkian.
A mobilização dos trabalhadores e do povo para uma intervenção contínua de denúncia, de protesto e de afirmação de novos rumos que os sindicatos e outras organizações estão a fazer precisa de todo o apoio, também para que o regime democrático não seja afetado.
Grandes manifestações populares a 2 de março podem ter um efeito muito positivo.
Não haja dúvidas, a consequência da não resposta no plano da construção da alternativa política é o alargamento do vazio, o divórcio entre os cidadãos e as instituições políticas, terreno fértil para o populismo e o apelo a soluções autoritárias."
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Vítor Gaspar bateu com a cabeça na parede
Texto de Bruno Proença hoje publicado no "Diário Económico"
"Se alguém bater com a cabeça várias vezes na
parede, provavelmente a parede fica no mesmo sítio e a pessoa com um
grande galo. O ministro das Finanças aprendeu esta verdade às suas
custas. Vítor Gaspar andou meses a negar a realidade, até que chocou
contra ela. Na quarta-feira no Parlamento, o ministro reconheceu aquilo
que todos já tínhamos percebido. Os dados da economia nacional indicam
que a recessão deste ano será pior do que previsto. O Banco de Portugal
já tinha colocado a contracção em 1,9% e Gaspar colou--se a esta
previsão. Fala agora numa recessão de 2%, depois da quebra no PIB de
3,2% em 2012 e acima de 1% em 2011. Não há dúvida que é a pior crise
económica desde o 25 de Abril.
Consequências? Vítor Gaspar
anunciou também que espera que a Comissão Europeia dê mais um ano a
Portugal para colocar o défice abaixo dos 3%. Como? Importa-se de
repetir? Este é o mesmo ministro das Finanças que andou meses a recusar
esta possibilidade que tem sido defendida por vários economistas, pelo
líder do PS, António José Seguro, e até por pessoas do PSD. A realidade
impôs-se ao ministro das Finanças. E não é a primeira vez que isso
acontece. Em menos de dois anos de Governo, Gaspar tem acertado muito
pouco.
Os objectivos orçamentais têm sido conseguidos à custa do
‘doping' das receitas extraordinárias e, por isso, a consolidação das
contas públicas está longe do esperado. A dívida pública mantém-se numa
trajectória de subida e já passou a barreira dos 120% do PIB. Resultado,
poderá ser a segunda vez que Portugal beneficiará de mais tempo para
controlar o défice orçamental. Recorde-se que inicialmente, o objectivo
era ter um défice de 2,3% em 2014. Em Setembro do ano passado, o
objectivo para o saldo negativo deste ano saltou de 3% para 4,5%. Menos
de seis meses depois, Gaspar pede mais um ano.
O ‘timing' do
anúncio do ministro revela um certo descontrolo que reina nas Finanças.
Ainda não são conhecidos os primeiros dados da execução orçamental deste
ano e já está tudo em causa. A estratégia é para mudar perante uma
recessão mais grave e o desemprego a subir. Confirmaram-se os
prognósticos de que o Orçamento do Estado para este ano estava mal
feito.
E qual é a solução para convencer a Comissão Europeia a dar
mais tempo? Vítor Gaspar quer avançar com o famoso plano B que prevê
novos cortes de 800 milhões de euros. A factura será paga sempre pelos
mesmos. Esta é a lição que o ministro ainda não aprendeu. Os portugueses
e a economia nacional não aguentam mais austeridade. A corda já
rebentou. O país está numa espiral recessiva. Mais cortes garantem
apenas mais recessão, desemprego, pobreza e emigração. A redução do
défice e da dívida continuará uma miragem. É altura de mudar de receita.
É altura de apostar no crescimento económico e no combate ao
desemprego, que está a destruir a sociedade portuguesa.
Os
ortodoxos dizem que só é possível fazer o ajustamento financeiro com
recessão. Pois é o contrário. Este nível brutal de ajustamento só é
possível com a criação de riqueza. A questão é como? Essa é o debate que
o país necessita de fazer. Duas sugestões: um Estado mais eficiente e
um corte brutal nos impostos sobre as empresas por forma a captar
investimento estrangeiro. Depois das medidas do BCE, os mercados abriram
a porta aos países periféricos. Não se desperdice a oportunidade com
teimosias. É necessário outro caminho para tirar Portugal da crise.
Cortar por cortar não resolve nada. Só há futuro com crescimento
económico."
Ilusionismos
Texto de José Manuel Pureza hoje publicado no "Diário de Noticias"
Vem pois aí o primeiro dos mais que esperados orçamentos retificativos. Ele juntar-se-á a uma série de outras retificações em curso, das quais a mais relevante é a do pedido de mais um ano para a aplicação do programa de ajustamento. Engana-se quem vê aqui o sinal de um Governo em desespero, de cabeça perdida diante da sistemática negação dos seus axiomas pela realidade. Insisto: o Governo não se enganou, esta é a sua estratégia meticulosamente pensada e estes são os resultados por si pretendidos. Por isso, a crítica a fazer ao Governo não é a de incompetência técnica mas a de amesquinhamento da democracia pela gestão da mentira e amesquinhamento da sociedade pelo empobrecimento e pelo desemprego.
Quem se regozija com o pedido do Governo, vendo nele uma expressão de sensatez e clamando, com autocomprazimento, que mais tempo para o ajustamento era algo que sempre devia ter sido defendido, deixa na sombra o essencial: o suposto ano suplementar não servirá para corrigir a estratégia mas sim para a aplicar, sem alterações de nenhum tipo, conseguindo para isso um quadro de menor resistência social. Mario Draghi encarregou-se, aliás, esta semana, de deixar claro que não haverá, da parte dos credores, qualquer complacência para com uma atenuação das metas do programa de ajustamento português. "Se com 'ajustar às circunstâncias' se quer dizer mitigar a consolidação orçamental, não é isso que queremos dizer. O que queremos dizer é mitigar as consequências. Enfraquecer a consolidação orçamental agora correria o risco de perder os efeitos que muitos dos sacrifícios já estão a permitir"- podiam as afirmações do presidente do Banco Central Europeu não ser mais cristalinas?
A estratégia do Governo é pois a de não mudar de rumo e manter como dogma a punição da economia pela austeridade custe o que custar, criando ao mesmo tempo a ilusão de que "sabe ouvir" e que, em coerência, se deixou convencer pelo bom senso e até pela "sensibilidade social" que o levam a cuidar de evitar ruturas sociais. Daí o pedido de mais um ano. Daí também o suposto faseamento dos cortes de quatro mil milhões de euros na despesa social, com 800 imediatos e o diferir dos 3200 restantes para um prazo mais dilatado em alguns meses.
Quem diz, face a esta estratégia da ilusão, "cá está, tínhamos razão, é preciso 'mitigar as consequências'" negociando o modo de executar o memorando da troika, mostra que o aceita como irrecusável e que tudo se resumirá a ritmos e intensidades da sua aplicação. Puro engano. Não é a intensidade de aplicação do memorando que gera desemprego, é o memorando em si mesmo. Não é o ritmo de aplicação do memorando que produz desespero social, é o memorando em si mesmo. Por isso, proclamar que é tempo de dizer basta para na linha seguinte jurar fidelidade à 'regra de ouro' é alinhar na estratégia da ilusão. Não é a Grândola que esses cantam. É a balada de Rui Veloso: "Muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa."
