Texto de André Macedo hoje publicado no "Diário de Noticias"
"O
ministro das Finanças acha inconcebível o desemprego a caminho dos 18%?
Acha inconcebível as falências em série? Acha inconcebível o nível de
impostos? O IVA galopante? A queda de investimento? O risco de motim
entre os militares? A fuga dos mais novos? O desespero dos reformados? A
desconfiança que se abate sobre partidos e instituições? Acha
inconcebível aprovar orçamentos que falham previsões e chegam a
fevereiro esmagados pela realidade?
Não. Para todos estes detalhes
pueris Gaspar não guarda espanto nenhum. Já para a hipótese de
Portugal, como a Irlanda, pedir a extensão, por mais 15 anos, do
pagamento do empréstimo aos fundos europeus que socorreram o País...
para isso o ministro escolhe palavras musculadas: inconcebível!, diz
ele. Haja moderação, acrescenta. Eu nunca tinha visto uma coisa destas. A
Irlanda tem menos necessidades do que Portugal - tem um empréstimo mais
pequeno -, até cresce alguma coisa, mas pede mais tempo. O que faz
Gaspar? Gaspar distancia--se do aliado (que gesto nobre...) e pede
cinco, dez anos no máximo. Alguém compreende?
Talvez seja a
vontade de ficar fora do radar de Berlim para não indispor ninguém.
Talvez seja a determinação em estar sempre alinhado com o ortodoxo e
fraquíssimo Olli Rehn. Há argumentos a favor desta tese: os juros já não
baixaram para 3%? Não houve tolerância para a derrapagem do défice em
2012 e não pode ser adiada a meta dos 3% em 2014? Devagar -
incrementalmente, como dizem os burocratas de Bruxelas - lá vão chegando
algumas concessões e borlas.
É seguramente uma maneira de olhar
para o problema. Podemos até imaginar que Gaspar se agiganta à porta
fechada, convertendo-se num tenaz defensor dos endividados. Será? Na
verdade, só saberemos quando saírem as memórias do ministro; mas sei que
há aqui um grave problema de oportunidade. O Wall Sreet Journal
informava ontem que a zona euro caminha para o quarto trimestre
consecutivo de contração. Ou seja, a receita é má e em Portugal é pior. A
estratégia de 100% pura austeridade não resolve. Para se ter uma ideia,
os enviados de Bruxelas a Atenas são aconselhados pela Comissão a
mentir aos taxistas para não levarem uns cascudos: jamais lhes digam
quem são, inventem. É isso mesmo: a ideia é mentir. Fazer-nos crer que
não há alternativa ou que a alternativa é rasgar contratos, não fazer
reformas nenhumas. Oito ou oitenta. Não é verdade. Há alternativa:
negociar mais, colocar limites... como faz a Irlanda (que recusou subir o
IRC) e como fez Espanha, que evitou o resgate. Infelizmente, Gaspar
jamais o fará. Isso, sim, é inconcebível.
P.S. No auge da crise,
alguns bancos centrais da Europa disseram às suas instituições
financeiras nacionais para não comprarem dívida dos países em
dificuldade. Com isso, extremaram a crise. São estes os parceiros
europeus a quem Gaspar se entrega com diligência."
quinta-feira, 7 de março de 2013
O inconcebível Gaspar
quarta-feira, 6 de março de 2013
Silêncios
Texto de Rita Lello, actriz, hoje publicado no "Diário Económico"
Sabemos que o Executivo PSD/CDS dá neste momento contas à ‘troika’, que vai na sua 7ª avaliação;
Sabemos que o líder do parceiro da coligação anda pela Índia a
inaugurar ginásios e a fazer discursos que falam da necessidade de
muscular a economia portuguesa; sabemos que o Eurogrupo avalia o pedido
de extensão do prazo de pagamento da dívida de Portugal feito pelo
Governo no início do ano.
O que não sabemos é o que o Governo tem a dizer sobre a manifestação do dia 2 de Março.
Sabemos que nas ruas estiveram cerca de um milhão e meio de pessoas
pelos números da organização, números que ainda não foram desmentidos
formalmente; sabemos que o desemprego, a carga fiscal, os cortes na
Saúde e na Educação e o desmantelamento do Estado Social são o que levou
as pessoas ás ruas; sabemos que aquilo que a maioria dos manifestantes
exige é que Governo se vá embora.
Não sabemos é o que é que o Governo
pensa sobre o assunto, muito menos o que fará acerca disso.
Sabemos que por enquanto a expressão do descontentamento se tem feito
a cantar, que há carrinhos de bebé e crianças pequenas entre os
manifestantes e que os reformados vieram juntar-se ao coro em número
significativo. Mas, apesar da pacificidade dos protestos, o Governo
teima em, arrogante e desnorteado, não dar cavaco a quem o questiona.
Sabemos que somos a cada dia um povo mais informado, consciente e
revoltado com o que se passa no seu País e que o silêncio do Governo é
mais uma afronta à nossa inteligência, à nossa maturidade, aos nossos
direitos elementares e à Democracia.
Sabemos, pois, quais as exigências de quem tem o dever de fazer as
perguntas mas não fazemos ideia do que pensam aqueles que têm a
obrigação de lhes dar respostas.
Quanto ao Governo, se não sabe
devia saber que uma manifestação como a do dia 2 de Março "silenciosa" e
"triste" não significa ausência de discurso ou de coragem, significa
que o povo está, concentrado, a pensar."
terça-feira, 5 de março de 2013
Marginais de sábado
Texto de Paulo Morais, Professor universitário, hoje publicado no Correio da Manhã
"Os verdadeiros marginais no sábado foram os partidos, a classe política, os sindicatos e outras estruturas do regime.domingo, 3 de março de 2013
Indignação não é parvoíce
Texto de Fernando Santos hoje publicado no "Jornal de Noticias"
"A indignação de milhares e milhares de cidadãos polvilhou ontem ruas e
praças de dezenas de cidades portuguesas. Palavras de ordem incisivas e
cartazes tão originais quanto críticos das políticas de austeridade em
curso deram o colorido a manifestações de desagrado pelo modo como os
credores internacionais estão a impor um plano inclinado na qualidade de
vida nacional, acolitados por um governo e uma maioria parlamentar
agradecidos, obedientes - e ideologicamente identificados.
O
protesto sob o lema "Que se lixe a troika" fez a retoma da iniciativa de
15 de setembro do ano passado. Então como agora, a chamada sociedade
civil mandou às malvas o enquadramento político-partidário ou, até,
sindical - e deu asas a um sentimento genuíno de mal-estar e repulsa
pela orientação geral do país. Uma parte substancial do país já percebeu
não ter futuro, vive afetada pela pobreza e a degradação das condições
de vida dos seus próprios - ou próximos - núcleos familiares e tem,
pois, razões bastantes para pressionar a reorientação das políticas em
curso.
A virtude da existência de movimentos genuínos de protesto
não é negligenciável e, em certo ponto, é mesmo um sinal objetivo de
desapoio e desconfiança a quem dispõe da condução política do país, do
Parlamento ao Governo, mas sem ignorar também a Presidência da
República. Ontem, como em anteriores manifestações, dispondo os
contestatários de um acrescido valor: foram capazes de expressar o que
lhes vai na alma sem violência gratuita - houve meros arrufos. O
protesto civilizado, dentro de regras democráticas, bem pode mesmo
servir de fonte inspiradora a criadores de "pins" para uso (orgulhoso)
na lapela dos portugueses.
Há uma tendência natural para
estabelecer paralelismos entre o protesto de ontem e o de 15 de
setembro, inclusive pela apresentação de números. Uma tal propensão fica
entretanto condicionada por ambientes divergentes - mas de resultado
contestatário igual.
O protesto de 15 de setembro estava
alavancado pela patetice e o desastre de uma tentativa de dias antes do
Governo de anunciar a intenção de colocar os trabalhadores a
substituírem-se ao patronato no pagamento da Taxa Social Única. As
consciências abespinharam-se, incluindo a dos patrões, e o protesto foi
marcante no recuo de Passos Coelho. É certo, vingou-se mais tarde pela
apresentação de um enorme aumento de impostos, mas percebeu então a
força da rua.
Se se quiser: o protesto de ontem - agora com a
troika em Lisboa a saber se o Executivo cumpre o infernizar de vida aos
cidadãos como está programado - é uma sequela do saque fiscal iniciado
há dois meses e, por isso, dispôs de menos sangue a ferver. Mas não é
negligenciável e vai - tenhamos todos a certeza - gerar réplicas
próximas.
Só um tolo não acredita estarem "afinadas" decisões para
o famoso corte de quatro mil milhões de euros, e cujo anúncio ficou
congelado pela manifestação de ontem. Troika e Governo não são parvos,
mas estão enganados quando se acham convencidos de que a parvoíce está
alojada nos cidadãos vulgares."
Avaliação? Que avaliação?
Texto de Pedro Marques Lopes hoje publicado no "Diário de Noticias"
"1 Eu percebo que uma visita a Lisboa é sempre
agradável. Está um sol bonito, é fácil arranjar mesa nos restaurantes e
há pouco trânsito nas estradas.
Não admira que os elementos da troika aterrem com um ar alegre e bem
disposto na Portela. Qual de nós desprezaria uns dias de férias? Está
bem. Há umas reuniões com uns tipos não muito contentes com o memorando
que está a ser seguido e umas manifestações na rua, mas a maioria das
conversas é com a rapaziada do Governo que gosta mais do dito memorando
do que os próprios senhores da troika.
Agora, é capaz de ser um bocado despesista trazer a equipa troikista a
Portugal. Dizem que é para avaliar o plano, ver como as coisas estão a
correr. Para isso não era preciso darem-se ao trabalho de cá vir: está
tudo a correr de acordo com o plano.
O plano, o plano que era tão bom, tão bom que mesmo que a troika não o
tivesse sugerido Passos Coelho o tinha imposto. Melhor, o plano era
genial, mas era preciso mais. Mais dureza, mais austeridade, mais
revolução. A malandragem que tinha vivido entre taças de champanhe e
viagens a Cancun tinha de ser castigada, os sectores que alguém decidiu
serem obsoletos tinham de ser rapidamente extintos. O homem ou se
transformava em homem novo, em herói do trabalho (nada de profissões
supérfluas tipo pedreiro ou historiador) ou seria dispensável.
Não era preciso incomodarem--se a vir cá: o processo está em curso.
Podíamos mandar uma folhinha de Excel com os dados da recessão, com os
números do desemprego, com os volumes de investimento, com as falências,
com a quantidade de portugueses a emigrar. Pois, são os resultados do
plano. A realidade, a realidade que tantas vezes tem sido confrontada
com planos revolucionários e que teima em ganhar-lhes sempre.
Dizem-nos que esta avaliação é a mais importante.
Qual avaliação? Isto não é avaliação nenhuma. A avaliação está aí,
para toda a gente ver. Vê-se nas ruas, ouve-se nos telefonemas dos
amigos desesperados, sente-se nos rostos com medo, mede-se nas filas dos
institutos de emprego e nas das embaixadas dos novos eldorados.
Qual avaliação? Isto é como ir fazer um exame e nem se ter lido o
manual. Até pode ser que o professor passe o aluno, mas aí percebemos
logo que não é o aluno que está a ser avaliado: é o professor que sabe
que não ensinou a matéria.
Não é de agora, mas já percebemos que a troika não avalia o programa,
avalia-se a si própria. O pior é que as boas notas que dá a si própria
reflectem-se na vida de milhões de homens e mulheres. Uma coisa do
género: a minha boa figura é mais importante do que umas centenas de
milhares de desempregados.
Éramos a última esperança, não era? Podia ser que as outras cobaias
não fossem as cobaias certas. Nós até tínhamos fama de calmos, de
sofredores calados, de pau para toda a obra. Nem assim. Pois, não há
cobaia que consiga sobreviver quando lhe dão com uma marreta de duas
toneladas na cabeça.
Qual avaliação? Isto é gozar com a nossa cara. Mas a falta de
vergonha não tem limites. Que ninguém fique surpreendido se o ministro
das Finanças acompanhado dum funcionário troikista nos vier dizer que
passamos em mais este exame. Num acto de incomensurável modéstia, pode
aceitar uns pequenos ajustamentos no plano, nada de substancial, uns
detalhes. Até pode ser que nos dê os parabéns, que nos congratule pelo
facto de o nosso esforço estar a dar resultados. Pode ser mesmo que nos
ache assim tão estúpidos, tão cegos, tão incapazes duma reacção.
2 Segundo alguns, o facto de termos na lei de limitação
de mandatos um "de" ou um "da" atrás da presidência da câmara ou da
junta faz toda a diferença. Ou seja, parece que sendo "da" câmara já não
há problema nenhum: já não é preciso renovação nenhuma da classe
política, já não há problema nenhum com as cumplicidades inevitavelmente
geradas com longos períodos no poder. Fica tudo bem.
Um presidente pode ser doze anos presidente "da" Câmara de Oeiras,
mais doze anos presidente "da" Câmara de Sintra, mais doze anos
presidente "da" Câmara da Amadora, mais doze "da" de Cascais e mais doze
"da" de Lisboa.
Claro que sim. Não há problema nenhum. E nós comemos gelados com a
testa e vamos votar em gente que nos quer aldrabar desta maneira.
Continuem assim e até aqui, em Portugal, Grillos com dois eles cantarão.
3 O maior inimigo da democracia não são as más escolhas
populares, são as não escolhas. O maior perigo para uma comunidade é a
indiferença, a apatia, a resignação. Uma comunidade que não protesta,
que não se manifesta, está morta, já nem de escolher é capaz. Uma
comunidade que protesta, que se indigna, pode estar cheia de problemas,
mas ainda está viva."
sábado, 2 de março de 2013
Da rua da amargura à avenida da liberdade
Texto de Joana Amaral Dias hoje publicado no "i" online
"Vou à manifestação porque recuso o cada um por si, a dispersão e a
ruptura dos laços que nos tem arruinado, que é o princípio do fim e o
pasto da barbárie
![]() |
| Foto do "i" |
“Porque vais à manifestação?” tem milhares de respostas e mais um dia, é pelo agora e pelo depois, pela Europa, pelo Estado social, pelo emprego, pela dignidade e, claro, pela liberdade. Aliás, hoje, só por ela já valeria a pena, demonstrada que está a tentativa de intimidação. Mas ir é também fazê-lo por todos aqueles que não podem, os esbulhados da luta e todos os desapossados das suas capacidades, os tantos que acreditam que já não acreditam, os omitidos nos lares, os invisíveis pela deficiência, os que estão em recolher obrigatório ou em prisão domiciliária forçada porque o trabalho não dá para mais ou nem lhes dá nada, todos os exilados, os cilindrados pelo tempo extorquido, os que chegam à escola sem pequeno-almoço, os que já nem vão à escola, os que racionam a sua saúde, os que já estão há tanto tempo a viver na rua que não encontram a porta de saída. Vou à manifestação porque recuso o cada um por si, a dispersão e a ruptura dos laços que nos tem arruinado, que é o princípio do fim e o pasto da barbárie. Vou porque um início é isto, um começo é assim - erguer vínculos, gerar parentescos e resgatar a acção. Hoje não tenho nada melhor para fazer."
Muitas razões para 'grandolar'
Texto de Nuno Saraiva hoje publicado no "Diário de Noticias"
"Ficámos ontem a
saber, através do insuspeito Eurostat, que a taxa de desemprego em
Portugal voltou a subir em janeiro, cifrando-se agora nos 17,6%. Isto é,
quase um milhão de portugueses contabilizados sem trabalho, o que
significa mais de milhão e meio de desempregados reais. A evidência é
tal que o ministro da Economia já admitiu o falhanço. Paulo Portas foi
mais longe e assegurou que "só uma pessoa que não está no seu são juízo é
que diz que está tudo bem". Porém, há precisamente uma semana, o
primeiro-ministro garantia em Viena estarmos "na direção correta" e não
existir "necessidade de alterar a trajetória".
Se outros motivos
não existissem, o autismo e a obstinação que conduzem Pedro Passos
Coelho à negação permanente da realidade seriam razões de sobra para que
um mar de gente saísse à rua, no exercício legítimo de "um sobressalto
cívico". Ontem como hoje, as palavras de Cavaco Silva a 9 de março de
2011 em que incentivava à indignação da sociedade civil e desafiava os
jovens para que fizessem "ouvir a vossa voz porque este é o vosso tempo"
não podiam ser mais adequadas. A diferença é que hoje, além de estar
sitiado em Belém (de onde não sai há um mês), o Presidente da República,
cujo maior poder é o da palavra, mantem o silêncio preferindo
entreter-se a distribuir medalhas ou com questões de semântica jurídica.
A
Grândola voltou pois à rua num tempo assim. Em que o desemprego
continua a aumentar, em que os portugueses são acusados de pieguice e em
que os jovens são convidados a emigrar, em que o confisco e o assalto
fiscal são a receita de quem está no poder, em que se faz no Governo
exatamente o contrário daquilo que se havia prometido na oposição de
forma impune, em que a economia está feita em cacos, em que as previsões
são corrigidas à velocidade meteórica de quem muda de camisa mostrando
cada vez mais que os brutais sacrifícios exigidos não valem a pena, em
que dentro dos próprios partidos da maioria são cada vez mais os que
acusam o ministro das Finanças de estar a levar o País à ruína.
Perante
os factos, o primeiro--ministro responde com apelos à "serenidade" e
classifica como "radicalização" a indignação legítima de quem protesta
seguindo a máxima de que "a cantiga é uma arma". Uma espécie de variação
em "Pedro menor" do "nós ou o caos" cavaquista.
As reações aos
protestos dos últimos dias têm revelado, aliás, uma estranha comunhão de
pontos de vista entre sociais-democratas, centristas e... socialistas.
Todos, ou quase todos, saíram em defesa de Miguel Relvas após a
grandolada no ISCTE falando em "atentados à liberdade de expressão" e à
"democracia". Mas então a democracia esgota-se no momento em que
votamos? O protesto, a expressão pública do descontentamento, o
"sobressalto cívico" defendido em tempos por Cavaco não são também um
exercício democrático? E alguém "no seu são juízo" acredita mesmo que se
atentou contra a liberdade de expressão? Mas não pode um ministro falar
quando quer, como quer e onde quer? É evidente que pode e é óbvio que a
democracia é tudo isto. Ou será que preferiam umas boas pedradas ou
montras partidas à la grega em vez das manifestações pacíficas
enquadradas pela Grândola, vila morena de Zeca Afonso? Aí, sim, estariam
em causa as liberdades democráticas.
E de uma coisa tenhamos
todos a certeza. É impossível governar, com ou sem memorando de
entendimento para cumprir, contra a vontade e a revolta de um povo quase
inteiro. Como defenderam esta semana Jorge Coelho e António Pires de
Lima, numa conferência promovida pela TSF, é chegado o tempo de dizer à
troika que a receita da austeridade falhou, que após quase 20 meses de
sacrifícios brutais os portugueses não aguentam mais e de impor ao FMI,
ao BCE e à Comissão Europeia um "memorando para o crescimento e o
emprego" e o fim da escravatura fiscal a que estamos sujeitos.
Não
o fazer é ignorar o sentimento do País. E é bom que o Presidente da
República, a quem compete também ler os sinais, esteja atento e os saiba
interpretar. Sob pena de, um dia destes, as grandoladas darem lugar ao
caos social e à rutura. E o descontentamento e desencanto com os
políticos e as políticas conduzam, como em Itália, ao voto maciço num
palhaço."
O mistério pós-manif
Texto de Henrique Monteiro hoje publicado na edição online do "Expresso".
"Não tenho dúvidas de que a manifestação de hoje será grande. Enorme! Cada um tem as suas amostragens, mas a minha é surpreendente. Pessoas que nunca imaginei lá porem os pés, vão. Algumas com muita convicção, outras como quem vai a um picnic. Mas vão!
Se tudo correr bem (e entendo por correr bem não haver pequenos grupos provocadores violentos nem exageros policiais) há um enorme mistério que me ocorre: o que vai fazer o Governo? E o que vai fazer o Presidente?
No pós-manif de 15 de setembro do ano passado o Governo recuou na proposta da TSU. As coisas não melhoraram, mas pelo menos acalmaram. E agora? Vai recuar? Em quê? Limita-se a dizer que vai conseguir mais tempo para pagar a dívida (o que deve ficar definido já na segunda feira)? Foi por causa disso que escondeu o corte de quatro mil milhões que devia estar decidido até ao fim de Fevereiro? Poderá haver uma boa (ou menos má) notícia? Não creio.
E se a manifestação for mesmo enorme, como prevejo, será que o Presidente da República sai do torpor em que parece viver para partilhar com os seus concidadãos um pensamento, uma estratégia, um aceno de simpatia, que seja?
Hoje é um dia mau para o Governo. Não que eu espere que saia algo concreto da manifestação, mas porque perante o que deve ser um mar de gente o país voltará a verificar que os seus dirigentes não têm estratégia nem rumo. Estão gastos.
Veremos..."
sexta-feira, 1 de março de 2013
Os empresários portugueses e a "maminha" das tetas sagradas da vaca do Estado
Texto de João Lemos Esteves hoje publicado na edição online do "Expresso".
2. E depois quem paga a factura? Os portugueses, claro. Os cidadãos comuns a quem o Estado não dá "maminha. Pelo contrário: o Estado vive à "mama" do nível brutal de impostos que cobra a todos nós, sem que tenhamos qualquer contrapartida em termos de excelência dos serviços públicos prestados. Não só pagamos impostos, não só somos alvo de um verdadeiro confisco fiscal, como teremos de pagar mais para beneficiar dos serviços estatais de saúde e educação. Ele é impostos, ele é taxas, ele é contribuições especiais. Ao fim e ao resto, em Portugal, quase que se paga para trabalhar! Mas, claro, que vivemos todos à mama do Estado! O culpado da crise somos nós...claro que sim!
3.Claro que para Alexandre Soares dos Santos é muito fácil falar. Perante o confisco fiscal levado a cabo pelo Governo Passos Coelho, Soares dos Santos transfere o seu dinheirinho para uma conta off-shore e vai acumulando a sua riqueza. Muito bem: investiu, ganhou o seu lucro e agora disfruta desse lucro. A maioria dos portugueses também gostaria de ter o ordenado que recebem depois de um mês intenso de trabalho livre de impostos, gostava de acumular numa off-shore para depois viver à grande. Ou o Dr. Alexandre Soares dos Santos acha que os portugueses gostam de ser pobres? Eu próprio gostaria de mamar na mesma teta de Alexandre Soares dos Santos: ganhava o meu dinheiro, dava-me com todos os Governos, pirava-me com o dinheiro antes de pagar impostos. E depois pregava a moral de bom cidadão aos portugueses.
4. Pois, mas este Governo, que se diz liberal, a única política que consegue executar é a de aumento de impostos. Eu é que sou "mamado" pelo Estado. E, no fim do mês", Dr. Alexandre Soares dos Santos, a "vaca" não sou eu? A "vaca" das maminhas económico-financeiras não somos nós, portugueses comuns? Confirma-se: todas as vacas são iguais, mas umas são mais iguais do que outras...Para alguns, as maninhas do Estado dão, apenas, um pingo (muito) doce."
As tetas de Alexandre Soares dos Santos
Texto de Tiago Mesquita, publicado no seu blogue "100 reféns" no "Expresso"
"Sou a favor de manifestações que tenham conteúdo. Que no fim da passeata apresente alguma coisa. Não é com Grândolas Vilas Morenas que a gente resolve nada" - defendeu, durante a apresentação dos resultados da empresa em 2012. Pois não, é a levantar vinte euros no multibanco de cada vez que queremos gastar vinte cêntimos no Pingo Doce. Isso sim, é luta.
Ninguém estava à espera que a Jerónimo Martins anunciasse os resultados líquidos de 360,4 milhões de euros referentes a 2012 ao som de música de intervenção. Agora, seria expectável, até aconselhável, num ano em que quase todos os portugueses saíram a perder, que um (dos poucos) que saiu a ganhar - milionário - tivesse algum decoro ao falar de assuntos que lhe passam ao lado.
Com lucros destes, muito português guardava os vinis do Zeca Afonso no baú, pendurava a boina e ia viver para um paraíso qualquer. Fiscal ou não. Daqueles em que a sede do banco é uma cabana de colmo, o céu é azul, o mar é quentinho e onde até as palmeiras sorriem.
Não satisfeito, Soares dos Santos decidiu dar mais um conselho aos pobres. Aparentemente, também especialista em subsídios, provavelmente pelas muitas horas passadas à porta da Segurança Social, afirmou o senhor que "andamos sempre a mamar na teta do Estado". "Porquê, porquê?" - questionou indignado, quase irado, como se alguém lhe estivesse a ir ao bolso.
Ora bem, a propósito de "passeatas" e de "mamar do Estado", recordo a Soares dos Santos as seguinte notícias:
"Soares dos Santos muda participação na Jerónimo Martins para a Holanda - Os 56% que a família Soares dos Santos detém na Jerónimo Martins, dona da marca Pingo Doce, passaram a ser controlados indiretamente, através de uma sociedade com sede na Holanda. A operação deverá estar relacionada com o agravamento da tributação fiscal (...)". "Soares dos Santos garantiu que não tinham sido os impostos a levar a empresa para a Holanda. Admitiu, contudo, que poderá ter vantagens fiscais no futuro devido a esta alteração da holding que detém acções na Jerónimo Martins." Expresso e Negócios Online
Infelizmente, hoje em dia, nem todas as famílias podem tomar "opções". Continuam, em desespero, a ser ordenhadas pelo Estado até o leite sair em pó. Enquanto isso, os de sempre, com as tetas bem sedeadas na Holanda ou noutro país qualquer, para fugir à sede (e à sede!) do Estado português, que assim não pode mamar o doce pingo delas como desejaria, estão, a cada dia que passa, mais "afortunados" e, principalmente, mais moralistas e hipócritas."

