terça-feira, 9 de abril de 2013
Primeiro-Mentiroso
Texto de Paulo Morais, Professor universitário, hoje publicado no Correio da Manhã
"Passos Coelho, quando candidato nas últimas eleições, prometeu o céu. Mas remeteu-nos ao inferno. Em campanha, tinha garantido que jamais aumentaria impostos.segunda-feira, 8 de abril de 2013
O talentoso senhor Passos
Texto de Daniel Oliveira, publicado no seu blogue "Antes pelo contrário" no "Expresso"
domingo, 7 de abril de 2013
Apenas incompetência
Texto de Pedro Marques Lopes hoje publicado no "Diário de Noticias"
"1 A decisão do
Tribunal Constitucional leva o défice público previsto para um valor a
rondar os 6,3%, um desvio de cerca de 0,8%. Como o director do Dinheiro
Vivo, André Macedo, referiu neste jornal, o ministro das Finanças
costuma falhar por bem mais - basta verificar os desvios do ano passado.
Em circunstâncias normais, o Governo negociaria com a troika -
explicando que num Estado de direito não se pode atropelar a
Constituição, caso os senhores não soubessem -, olharia melhor para as
rendas de algumas empresas, tentaria negociar as parcerias
público-privadas e não dramatizaria a situação afirmando simplesmente
que as instituições democráticas tinham funcionado e que havia de actuar
conforme.
A questão é que esta decisão do Tribunal foi a
machadada final no núcleo fundamental do Governo e na sua linha
política. Esse núcleo constituído por Relvas, Gaspar e Passos Coelho.
A
alma do Governo, o braço direito do primeiro-ministro, o homem que tudo
decidia, o tapa-buracos a quem se recorria para tudo e mais alguma
coisa, o para lá de incompetente coordenador político, Miguel Relvas,
foi escorraçado por triste e má figura.
O ideólogo do Governo, o
homem que define a política económica e orçamental, aquele que tratou de
preencher com ideais revolucionários o vazio ideológico do
primeiro-ministro está completamente desacreditado. Não acerta uma
previsão, exibe uma evidente falta de preparação para o lugar e teima em
querer governar contra a Constituição. A nossa Constituição é mais
importante do que as suas folhas de cálculo e a suas letras estão longe
de estarem mortas.
O que resta não é bem um Governo, é um conjunto
de homens e mulheres descoordenados, vagamente geridos por um
primeiro-ministro perdido, sem saber o que fazer e com uma linha
política chumbada pela realidade do desemprego, das falências, da
miséria, da recessão e, de novo, pela Constituição.
2 A reacção
desproporcionada e profundamente atentatória ao Estado de direito do
Governo à decisão do Tribunal Constitucional pouco ou nada teve que ver
com a decisão propriamente dita. Sim, a decisão pôs em causa a
estratégia do Governo, mas um Executivo tem sempre o limite da
Constituição. "É a lei do Orçamento do Estado que tem que se conformar à
Constituição e não a Constituição que se tem que conformar a qualquer
lei", que parte desta declaração do presidente do Tribunal
Constitucional Passos Coelho não percebeu? É que se não percebe isto não
pode ser primeiro-ministro numa democracia. Se não tem competência para
arranjar soluções alternativas não serve para governar um país.
A
razão da infelicíssima reacção é tão-só a admissão de incapacidade para
governar. A dramatização é resultado da implosão do núcleo central do
Governo e da sua política suicida. O Tribunal Constitucional está a ser
apenas utilizado como bode expiatório.
É bom que ninguém se esqueça: se o Governo sair sai pela sua incompetência, por rigorosamente mais razão nenhuma.
3
Já ninguém se lembra, mas na quarta-feira houve a apresentação da moção
de censura do PS. Ficou claro que este PS não tem sequer uma ideia de
alternativa e que Seguro ainda não está minimamente preparado para ser
primeiro-ministro. Melhor, ficou claríssimo que estamos metidos num beco
sem saída.
4 Eu também sou daqueles que não gostam de muitas
partes do texto constitucional, que o acham demasiado programático,
demasiado extenso e mesmo incapaz de assegurar direitos que tenta
prescrever. O que ninguém pode dizer é que a Constituição impede
reformas mais ou menos profundas ou que é responsável pelos nossos
problemas estruturais. Não, as nossas crises podem ter muitas origens e
podem ter muitos culpados, mas dentro deles não estarão com toda a
certeza os preceitos constitucionais.
Tenho poucas dúvidas de que
no seguimento da deliberação de sexta-feira do Tribunal Constitucional
os do costume atacarão uma vez mais a Constituição. Queria apenas
recordar a esses cavalheiros e senhoras que os princípios invocados para
declarar a inconstitucionalidade das normas foram os da igualdade e
proporcionalidade. Não esteve em causa a gratuitidade do ensino ou da
saúde ou os tão criticados direitos adquiridos ou coisa do género. Nada
disso. Repito: igualdade e proporcionalidade. Alguém está interessado
numa Constituição que não defenda estes princípios? E devem os juízes
olhar para a "realidade" e esquecê-los?"
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Alguém avise o governo que já morreu
Texto de Daniel Oliveira, publicado no seu blogue "Antes pelo contrário" no "Expresso"
quinta-feira, 4 de abril de 2013
"É o capitalismo, estúpido!"
Texto de Baptista-Bastos hoje publicado no "Diário de Noticias"
"Já se sabe que a
ideologia neoliberal não respeita nem as leis da economia nem as
obrigações do direito. Os enredos governamentais apoiam-se na
espontaneidade dos mecanismos económicos e na natureza dos acasos.
Economistas ilustres como Daniel Bessa ou Ferreira do Amaral e
professores universitários como Paulo Morais têm--no dito,
incansavelmente, acentuando as características complexas do poder e das
liberdades. As consequências são claras: a democracia, tal como a
concebemos e foi estruturada na Europa Social, está desfigurada e, por
este caminho, condenada a desaparecer. Quando Viriato Soromenho-Marques
escreve que a Europa morreu em Chipre, ele adverte-nos de que o
intervencionismo económico, tal como aconteceu naquele país, constitui
uma ameaça às liberdades.
Estamos no interior de uma nova guerra,
cujas conclusões são imprevisíveis. Parafraseando o outro: "É o
capitalismo, estúpido!" Do ponto de vista desta irracionalidade
política, não há lugar para o sujeito plural, para a diversidade de
opiniões. "Não há alternativa", frase tão ao gosto de Pedro Passos
Coelho, não lhe pertence em sistema de exclusividade: faz parte do
breviário da "nova" doutrina, agora, embora tardiamente, condenada pela
Igreja católica.
"É o capitalismo, estúpido!", decorre da
circunstância de não se lhe haver opositor, e as críticas conhecidas
(Badiou, por exemplo, L'Hypothèse Com- muniste) encontrarem pela frente
um concerto de estipendiados, bem pago e bem organizado, o qual faz eco
da frase "Salvemos os bancos!", salvaguarda de um sistema que incorporou
"o fim das ideologias" como teoria. É desolador o deserto de ideias à
nossa volta. A paixão pelo pensamento crítico parece ter desaparecido; e
as páginas dos jornais, habitualmente portadoras de sugestões,
incentivando à leitura e ao debate, consagram-se à superfície das
coisas, às futilidades e ao desprezo pelas causas. O ser humano está
concebido como homo oeconomicus, e a sua existência regida pela
rendibilidade e subordinada aos grandes interesses económicos.
Uma
certa Europa do humanismo e da solidariedade morreu em Chipre, como
acentuou Soromenho-Marques. E talvez para sempre, porque a capitulação
daquele pequeno país prova que a mutação do ideal social em um Estado
omnipotente e autoritário (a Alemanha é que manda, até por interpostas
economias) não é capricho do acaso, sim um projecto hegemónico e
perigosíssimo, que pode conduzir à guerra (avisou Jean-Claude Juncker).
Mas
há uma pergunta a formular: alguma vez essa Europa do humanismo e da
solidariedade existiu? É o capitalismo que ordena as coisas e a própria
vida das pessoas. O capitalismo que chegou excessivamente longe, com o
apoio das irresponsabilidades e das cedências de quem devia ter uma
posição moral irredutível. Nesta conjuntura avultam muitas traições e
imprevidências. Chegámos a esta miséria. E agora?"
terça-feira, 26 de março de 2013
Reviravolta
Texto de Paulo Morais, Professor universitário, hoje publicado no Correio da Manhã
"Portugueses estão reféns de governo incompetente e não depositam qualquer esperança na oposição.O que haverá entre Miguel Relvas e Passos Coelho (e Seguro)? Um mistério da política portuguesa
Texto de João Lemos Esteves hoje publicado na edição online do "Expresso".
terça-feira, 19 de março de 2013
Abolição das PPP
Texto de Paulo Morais, Professor universitário, hoje publicado no Correio da Manhã
"Os contratos das parcerias público-privadas (PPP) com que o Estado se comprometeu transformaram os cidadãos em servos vitalícios de alguns grupos económicos, ou seja, em escravos.
As PPP representam um compromisso anual de vários milhares de milhões de euros, um verdadeiro cancro para as finanças públicas da atual e das próximas gerações. Em primeiro lugar, geram para os concessionários, em particular das PPP rodoviárias, rentabilidades anuais obscenas, da ordem dos 17%, ou até mais. O rendimento é garantido. Cada troço de autoestrada obriga o Estado a um pagamento diário… independentemente de lá passar um único carro. Por outro lado, o Estado ainda paga prémios pela diminuição da sinistralidade, que representam largos milhões para cada autoestrada. É certo que também há penalização pelo acréscimo de acidentes, mas as multas são incomparavelmente mais baixas do que os prémios, pelo que os privados ficam (como sempre) beneficiados. Favorecidos numa relação de um para cem ou até mais! Por último, os governos têm negociado, ao longo de anos, ruinosos acordos de "reposição de reequilíbrio financeiro". Já no início do século, na Ponte Vasco da Gama, a primeira das PPP, o Estado atribuía uma verba de 42 milhões de euros à Lusoponte, para a compensar por um aumento de taxas de juro, mas nunca a concessionária pagou quando as taxas diminuíam. Estas práticas reiteradas transferiram milhares de milhões para os concessionários. Em 2011, só nas PPP rodoviárias, para despesas correntes de cerca de oitocentos milhões de euros, os pedidos de reequilíbrio financeiro foram de… novecentos milhões. Só há agora uma forma de nos libertarmos deste jugo: abolir o negócio das PPP. Pela via da renegociação dos contratos, reconversão do modelo em concessão ou, pura e simplesmente, expropriação dos equipamentos e infraestruturas. E sem sequer consagrar direitos adquiridos aos concessionários. Em primeiro lugar, porque os contratos são leoninos, os direitos foram obtidos ilegitimamente. Mas sobretudo porque quando se libertam servos, como quando se procedeu à abolição da escravatura, não se podem, nem devem, manter intactos os direitos dos esclavagistas. "
domingo, 17 de março de 2013
Uma colossal crise política
"Restasse um pingo de bom senso, sobrasse uma réstia de vergonha, tivesse ainda o mínimo de respeito pelos cidadãos e Vítor Gaspar não hesitaria um segundo: após a conferência de imprensa de sexta-feira, dirigia-se a São Bento e entregaria a sua carta de demissão ao primeiro-ministro.
Por esta altura, não há português que desconheça a dimensão da incompetência do ministro das Finanças. E não era preciso mais aquela conferência de imprensa: a lista dos erros, das fantasias, dos mais patéticos disparates não cabe neste jornal. Ninguém desconhece a evidente incapacidade do ministro.
No ano passado, foram três orçamentos rectificativos e previsões completamente ao lado. Este ano, em três meses, já se corrigiram todas as previsões duas vezes, quando não havia uma alma que soubesse somar que já não soubesse que os números orçamentados eram absolutamente irreais.
Mas os truques de fraco artista de Gaspar chegam a ofender: há um mês, dizia-nos que a recessão ia passar de 1% para 2%, mais um ponto, perceberam? Pois, o dobro (claro está que anteontem disse que vai ser 2,3% e, como é claro, daqui a umas semanas este número vai piorar) . Sexta-feira, não contente com o cenário que estava a descrever, resolveu voltar a querer aldrabar. Afinal não há um número para o défice para 2012, há três. Quem quiser que escolha o seu. Temos 4,9%, 6% e 6,6%. Pronto, é mesmo 6,6% (alguém se recorda dos insultos aos "profetas da desgraça" que diziam que o número seria aproximadamente deste valor?), mas se mexermos na folha de cálculo e dermos uma pancadinha no computador podemos até ter outros números.
Pensávamos nós que no mundo dos superempreendedores, da gente pouco piegas, dos autênticos novos homens deste extraordinário novo mundo houvesse um bocadinho de exigência, um bocadinho de responsabilidade. Ou seja, não houvesse lugar para incompetentes, não houvesse lugar para quem falha de forma tão clamorosa. O facto é que Gaspar como director financeiro duma PME não durava dois meses.
Mas, convenhamos, é Gaspar o maior culpado? Obviamente que face aos resultados das suas acções não poderia ficar nem mais um segundo no Governo, mas foi ele quem disse que mesmo que não estivéssemos sujeitos a este memorando de entendimento o iríamos aplicar? Foi ele que disse que se devia ir para além da troika? É ele o maior responsável por uma política que o melhor horizonte que tem para nos apresentar é um desemprego de 18% para 2016?
Foi ele quem definiu uma meta que consiste em destruir uma inteira geração através duma austeridade sem perspectivas? Foi ele quem definiu uma política, que agora não há ninguém que não saiba, provocou que todos os sacrifícios, todos os cortes, todas as desgraças provocadas tivessem sido em vão? Foi Gaspar que condenou os nossos filhos, sobrinhos e amigos a emigrar definitivamente pois o País nada lhes terá para oferecer nas próximas décadas?
Não, não foi ele. Foi o primeiro-ministro. E existisse sentido de Estado, conhecesse Passos Coelho o verdadeiro estado do País, entendesse a enormidade das suas opções e o primeiro-ministro pediria uma audiência ao Presidente da República e faria também o evidente: apresentaria a sua imediata demissão.
A dimensão da tragédia que nos foi apresentada é demasiado brutal para que tudo fique na mesma. Nós já a conhecíamos, mas pela primeira vez o Governo deu a entender que finalmente tinha percebido. Convenhamos, era, aliás, impossível, desta vez, não perceber: os números, sobretudo os do desemprego, são demasiado estridentes.
Falhou, falhou tudo. O fracasso é completo e total. Um Governo que precisa de aqui chegar para perceber que errou não pode permanecer em funções. Um Governo que foi o primeiro agente de destruição duma geração, dum tecido económico, de ter criado uma situação social insustentável, um nível de desemprego que destrói uma comunidade, não pode agora vir dizer que vai mudar (nem essa intenção tem, claro está). Um Governo que espalhou e aplaudiu todo o napalm económico e social que vinha da Europa não tem a mais pequena capacidade de negociar uma outra política.
Pois, ai meu Deus, uma crise política. Mas há maior crise política do que manter em funções um Governo que pelas suas próprias decisões políticas nos trouxe até aqui? Há maior crise política do que manter um Governo que ainda pensa que este caminho é o certo? Manter tudo como está, essa, sim, será uma colossal crise política. "



