Texto de Henrique Monteiro hoje publicado na edição online do "Expresso".
domingo, 14 de abril de 2013
A quadrilha dos aparelhos partidários
sábado, 13 de abril de 2013
Banditismo político
Texto de Carvalho da Silva hoje publicado no "Jornal de Noticias".
O Governo agiu premeditada e ostensivamente na construção de um OE inconstitucional e, de certeza, os elementos da troika estavam informados desse objetivo. Insistiram sempre na tese de que não tinham "plano B", desde logo para chantagear o TC e depois para, de forma mentirosa, hipócrita e cobarde, esconder na decisão do tribunal o fracasso absoluto das suas políticas, para sustentar um ataque sem precedentes ao Estado social e a amplas funções da Administração Pública Central e Local, para desencadear uma ofensiva contra o regime democrático.
O Governo conhece, melhor que ninguém, os efeitos desgraçados das suas políticas no plano social e económico, o agravamento da dívida pública, e sabe que o desvio orçamental de 2012 é quase três vezes superior ao impacto das medidas travadas pelo TC.
As políticas que o Governo e os seus mandantes da troika estão a impor no nosso país não são exequíveis em democracia, atentam contra a soberania do Estado português e significam um dos maiores roubos organizados a que os portugueses foram sujeitos ao longo da sua história.
Vivemos tempos muito sensíveis para o futuro deste grande projeto coletivo de um povo - com mais de 850 anos de percurso - que é Portugal. Proliferam, expressa ou implicitamente, atitudes antipatrióticas, mesmo quando alguns figurões invocam em vão a necessidade de "sentido de Estado", ao exporem as suas propostas de saída que mais não são do que empurrar o lixo para debaixo do tapete.
O presidente da República (PR), vergonhosamente, deu o seu alto patrocínio à operação conduzida pelo Governo e pela troika e não levanta a voz em defesa da soberania do país e da exigência do respeito e da responsabilização das instituições. Será que o PR tem consciência de quanto está a contribuir para comprometer o futuro de Portugal?
É ignóbil e de um cinismo absoluto a afirmação do primeiro-ministro "não posso permitir que se desperdicem os sacrifícios feitos pelo portugueses", quando sabe estar a preparar muitos e mais duros sacrifícios.
Gaspar é um tecnocrata absolutamente ao serviço de interesses estrangeiros.
É indispensável sacudir a charlatanice política e denunciar com força a repetição das mentiras que ainda campeia nos grandes meios de comunicação social.
A situação difícil que vivemos precisa de trabalho técnico de economistas e especialistas de várias áreas, mas a sua resolução é do campo da política no mais profundo e sério sentido da palavra. Esta perspetiva começa, felizmente, a ser partilhada por mais democratas e de diversos quadrantes.
Esperemos que o Partido Socialista não aprofunde a sua corresponsabilização no desastre e não queira que a prazo lhe caia nas mãos o papel de coveiro do regime democrático. A discussão dos problemas económicos, sociais e políticos para a saída do buraco, quer no plano nacional, quer a questão do euro ou dos caminhos a seguir na União Europeia, é uma tarefa difícil mas que urge prosseguir a partir de várias perspetivas existentes.
É um facto que não existe uma utopia credibilizada na sociedade, um projeto alternativo com força. As ideias em relação a matérias sensíveis ainda não são claras, as vontades andam dispersas. Há que deitar com vigor mãos à tarefa, discutir falando verdade ao povo, utilizar todas as disponibilidades, organizar energias. O projeto alternativo nascerá daí."
Diz que é uma espécie de remodelação
Texto de Nuno Saraiva hoje publicado no "Diário de Noticias"
"E ao sétimo dia,
Passos descansou. Depois de uma semana inteirinha de originalidade, em
que um ministro - braço direito do chefe - se arrastou, demissionário,
pelos corredores da governação, eis que o primeiro-ministro tira da
cartola, não um, mas dois ministros de currículo académico
inquestionável. E, deste ponto de vista mesquinho, podemos dizer que
esta é a suprema ironia para com o dr. Relvas.
Importa porém
relevar deste ajustamento governamental algumas notas. Desde logo o
facto de Pedro Passos Coelho ter reduzido o CDS à sua insignificância.
Depois de mais de uma semana a ouvir altos dirigentes do partido de
Paulo Portas a reclamarem em público uma remodelação profunda e a
substituição do ministro da Economia, o primeiro-ministro ignorou a
pressão, fez um remendo e manteve Álvaro Santos Pereira no Governo.
Mesmo que nos custe a entender o que é que ainda prende Álvaro à mesa do
orçamento, tal é o vazio de competências a que já foi sujeito. Mas,
talvez mais cedo que tarde, Paulo Portas, que não tem memória curta,
perca a paciência com as afrontas sucessivas e obrigue o
primeiro-ministro a engolir a célebre declaração, deixada cair em
entrevista à RTP - ainda como vingança da TSU-, de que o número dois do
Governo era não o líder do CDS mas Vítor Gaspar.
Por outro
lado, por mais justificações e desculpas esfarrapadas que possam
arranjar-se, ficou à vista de toda a gente a dificuldade de Passos
Coelho seduzir quem ainda esteja disposto a sacrificar-se, mesmo que em
nome da pátria, e aceite integrar um governo cada vez mais parecido com o
Titanic. É verdade que Luís Marques Guedes já era quase ministro e
ninguém duvida da sua competência de tarimba feita desde os idos do
cavaquismo. Ninguém questionará também a superior qualidade intelectual
que Miguel Poiares Maduro acrescentará ao Governo. Mas o que estes nomes
confirmam, somados aos dos novos secretários de Estado, Pedro Lomba e
Cardoso da Costa, conhecidos cavaquistas, é que, de facto, a coligação
governamental foi alargada ao Palácio de Belém e Cavaco Silva é mesmo,
mais do que nunca, a "mão por detrás do arbusto".
Porém, e apesar
das reservas públicas ao rumo das políticas governamentais e das
críticas à atuação europeia na resposta à crise, o Presidente da
República não teve, ou não quis ter, a força suficiente para fazer
perceber ao primeiro-ministro que o maior e mais grave problema do
Governo chama-se Vítor Gaspar. É certo que, por definição, os ministros
das Finanças não são remodeláveis, sobretudo em contexto de emergência
financeira como aquele que vivemos. Mas como pode alguém que não acerta
uma previsão que seja, que faz dois Orçamentos feridos de
inconstitucionalidade, que é responsável pela maior tragédia económica e
social que o País alguma vez enfrentou, que com apenas dois meses de
execução orçamental já teve de rever por duas vezes as metas do défice,
continuar a ser apresentado como um joker e o grande fator de
credibilização nacional?
Se dúvidas houvesse, o primeiro-ministro
deixou claro que, apesar de a parede estar bem à frente dos nossos
olhos, prefere continuar ideologicamente a acelerar a grande velocidade
contra ela. É essa a única leitura possível do reforço de poder político
de Vítor Gaspar no Governo, por oposição à cada vez menor influência e
importância de Álvaro Santos Pereira.
Esta microrremodelação e as
suas consequências são, aliás, coerentes com a comunicação ao País do
dia 7 deste mês, em que Passos Coelho alegava, a propósito do chumbo do
Tribunal Constitucional (TC) a quatro normas do Orçamento do Estado, que
agora estava obrigado a explicar-se à troika. Ao que parece, o
primeiro-ministro tem falado pouco com o seu novo ministro adjunto, ou
teria percebido que, embora discordando do acórdão do TC, Miguel Poiares
Maduro sugeria na sua página do Facebook, entre outras hipóteses, que a
solução para Portugal passa, não pela subserviência e o servilismo com
os credores, mas pela capacidade de impor a óbvia renegociação do
memorando - acrescento eu, introduzindo medidas que estimulem o
investimento e o crescimento económico - ou pela ameaça de incumprimento
do dito programa de ajustamento.
Mas, pelos vistos, o chefe do
Governo sente-se confortável no papel de diretor-geral da troika em
Portugal e o ministro das Finanças orgulhoso da função, que exerce com
garbo, de embaixador do BCE e da Alemanha em Lisboa. Tudo isto com a
cumplicidade cada vez mais evidente do Presidente da República."
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Governo já não tem o mínimo de credibilidade
Texto de Henrique Monteiro hoje publicado na edição online do "Expresso".
"Qualquer remodelação que não passasse pelo topo do Governo - e refiro-me
mesmo a Passos e Gaspar - ficaria incompleta. Claro que Miguel Poiares
Maduro tem um currículo invejável, sério, criterioso; é certo que
Marques Guedes transmite uma seriedade infinitamente superior à de
Relvas, mas nem um nem outro resolvem qualquer problema. Nem podem, por muito bom desempenho que atinjam.
E qual é o problema? Justa ou injustamente, este Governo perdeu aquele mínimo de credibilidade necessária.
Escusam-me de dizer que outros Governos também não a tinham, porque é
falso. Ou seja, olhemos para Sócrates: o Governo era mau, era péssimo,
tomou medidas que nos custam os olhos na cara. Mas tinha seguidores
indefetíveis. Uma parte significativa do país achava que Sócrates nos
salvava.
Ao contrário, bastou a Gaspar fazer um despacho numa tarde de segunda-feira, para logo nesse dia à noite começar a faltar tudo no país - comida nas cantinas, gasóleo nos carros, papel nas repartições. Não me interpretem mal: eu não
acredito que o efeito fosse esse, mas as vozes que se levantaram -
quase todas - assim o diziam. Ninguém concedeu, por um segundo, o
benefício da dúvida a Gaspar. E ninguém defendeu aquele despacho nem
aquele ministro. Em parte, porque os considerandos do documento são
revanchistas, inúteis; em parte porque Gaspar não tem apoios; em parte
porque o Governo está isolado de tal forma que, como escrevi há tempos
usando uma frase da terra da minha origem, já nem os cães o respeitam.
Claro que nenhum Governo no meio de uma crise assim seria popular.
Mas nenhum pode ser tão impopular. Claro que um Governo não pode
governar para agradar ao eleitorado, mas nenhum pode sobreviver se for
odiado - ativa ou passivamente - pelo eleitorado.
Este é um problema sério. Não se pode dissolver o povo nem instituições
como o Tribunal Constitucional ou o Presidente da República. E o povo - do CDS ao Bloco de Esquerda (basta ouvi-los na televisão) não suporta este Governo. Já não é só a esquerda, é a direita.
De Bagão Félix, a Manuela Ferreira Leite, de Pacheco Pereira a António
Capucho ninguém parece continuar disponível a acreditar em algo que este
Governo faça. O próprio novo ministro Miguel Poiares Maduro fez,
segundo li hoje no 'Público', algumas sugestões de governo diferente no
seu Facebook...
Este é, pois, o problema em que Passos tem de pensar seriamente. Eu, que
nem sou dos maiores críticos do Governo, por entender que ninguém que
faça reformas pode ser amado (embora escuse de ser tão extensamente
odiado), também já não suporto ver esta caminhada constante para o
abismo político e económico.
É preciso esperança, porque sem esperança não há caminho. E para renovar a esperança é preciso que alguns saiam de cena."
Remodelação? Qual remodelação!?
Texto de António Costa, Director, hoje publicado no Diário Económico
"Pedro Passos Coelho perdeu uma oportunidade
para abrir um novo ciclo político ao fazer uma remodelação minimalista,
um remendo, ao substituir Miguel Relvas por dois novos ministros. Mas a
estratégia do primeiro-ministro diz-nos mais do que pensa sobre o futuro
do país, económico e político, do que mil declarações políticas.
Em primeiro lugar, Passos Coelho mostrou quem manda no Governo,
se houvesse algum tipo de dúvida. Ao longo da semana, estiveram em cima
da mesa todos os cenários, as discussões sobre o modelo de remodelação,
os nomes e a orgânica dominaram as discussões de bastidores entre o
primeiro-ministro e Paulo Portas, mas a decisão foi solitária, e
pessoal. Mais: sem cedências.
O líder do CDS queria uma remodelação abrangente, desde logo do
ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, além de Miguel Relvas. A
demissão do principal aliado pessoal e político de Passos Coelho criou o
espaço para Portas pôr as cartas em cima da mesa. O ministro dos
Negócios Estrangeiros percebeu, cedo, que não poderia pressionar Passos
Coelho, que não é Durão Barroso, mas foi tarde.
A decisão de Passos Coelho, a decisão de não ceder às pretensões
de Portas, de não aceitar sequer dar ao líder do CDS a coordenação
política, revela que o centro de poder do Governo, de facto, reduziu-se a
dois, a Passos e a Gaspar. Porque Marques Guedes e Poiares Maduro, os
dois novos ministros, credíveis e competentes, não têm o peso político
para desempenharem esse papel.
Se houve um problema na primeira metade deste mandato foi,
precisamente, o facto de Passos Coelho não contar, verdadeiramente, com
Paulo Portas, com o CDS. Ficou, para a história, a declaração do
primeiro-ministro de que o número dois do Governo era Vítor Gaspar. E
continua, apesar do Governo, da estabilidade política do executivo,
depender do segundo partido da coligação. Por opção, por pressão do PSD,
Passos Coelho mantém Portas à margem, mas também não o compromete. O
CDS continuará, assim, com um pé dentro e outro fora do Governo.
Esta
pseudo-remodelação confirma, também, que o primeiro-ministro está
convicto de que a solução para os problemas do país, para a execução do
plano de ajustamento passa pela manutenção do ministro das Finanças e
depende da sua credibilidade externa, leia-se, também da vontade dos
ministros das Finanças do euro.
Verdadeiramente, uma remodelação sem incluir o ministro das
Finanças, que está no melhor e no pior do desempenho deste Governo, não
será nunca uma remodelação. Mais ainda neste Governo, em que o poder do
ministro das Finanças é enorme, de facto e de direito. Pedro Passos
Coelho poderia ter aproveitado estas mudanças para reequilibrar a
relação de forças entre as finanças e a economia. Pelo contrário,
acentuou a perda de poderes de Álvaro Santos Pereira ao retirar-lhe o
que ainda tinha de fundos comunitários, que passam para Poiares Maduro.
A manutenção do centro de poder do Governo na dupla Passos/Gaspar
evidencia também que a resolução dos problemas do País joga-se, na
perspectiva do primeiro-ministro, sobretudo, na Europa, na relação com o
ministro das Finanças da Alemanha e com a ‘troika'. Particularmente
esta semana, por causa da reunião que decorre hoje e amanhã em Dublin,
mas nos próximos doze meses, até ao fim da presença dos credores
externos em Portugal.
O primeiro-ministro deveria ter avançado já com uma remodelação
alargada, prefere, antes, levar esta equipa até ao limite, provavelmente
até às autárquicas, mas o tempo deste Governo não é normal, é
excepcional, como a situação económica e financeira do País. Ao não
fazê-lo, Passos Coelho vai prolongar os problemas políticos já evidentes
há meses. Até quando?"
Democracia e terror
Texto de Pedro Bacelar de Vasconcelos hoje publicado no "Jornal de Noticias"
O poder judicial é o definitivo garante da legalidade democrática e da ordem constitucional. Porque "as decisões judiciais prevalecem sobre as de quaisquer outras autoridades" e todos estão obrigados ao seu cumprimento: cidadãos comuns, Governo, deputados e Presidente. As leis são frequentemente violadas, independentemente do seu grau de perfeição e, muitas vezes, a própria administração, as polícias, o Governo, são acusados de as transgredir. Se a violação das leis não fosse punível, se ninguém se encarregasse de as fazer respeitar, triunfavam fatalmente a prepotência e a tirania. Inventaram-se os tribunais para que as regras do jogo não possam variar ao longo da partida, ao sabor da conveniência do mais forte. Um poder soberano mas "politicamente neutro", titulado por agentes - os juízes - constrangidos por inúmeras exigências e incompatibilidades que visam também assegurar a sua "neutralização" contra ameaças de instrumentalização de forças económicas e sociais.
O poder judicial independente é, neste sentido, o derradeiro garante do Estado de Direito Democrático. A necessidade de "neutralização política" é sobretudo evidente na função específica atribuída ao Tribunal Constitucional: garantir o respeito da Constituição, mesmo contra maiorias parlamentares conjunturais, e proteger os valores perenes dos direitos humanos, do pluralismo político e da alternância democrática contra qualquer ameaça de subversão. E por isso, se é inaceitável que o primeiro-ministro queira transformar os juízes em seus interlocutores - como fez na deplorável comunicação ao país - ainda mais grave e aberrante é tentar confundi-los com vulgares agentes políticos e culpá-los pelo falhanço e pelas graves consequências económicas e sociais que resultam exclusivamente de uma governação desastrosa que a todo o custo pretendem manter.
Este comportamento não denuncia apenas uma genuína cultura antidemocrática. Tem que ser designado pelo seu verdadeiro nome: "terrorismo"! A maioria que governa, que legisla e que chefia o Estado, passou à fase da agressão violenta aos tribunais e aos cidadãos... e o Presidente terá em breve de escolher o seu lado da barricada. Sem emenda nem remorso pelas quatro infrações cometidas contra a Lei Fundamental que todavia juraram cumprir, o Governo foi descendo todos os degraus de decência e passou abertamente ao terrorismo administrativo e financeiro, como se lê no despacho assinado por Vítor Gaspar, onde este se dá por vítima do poder judicial, à semelhança de muitos reclusos a cumprir pena nos estabelecimentos prisionais. A política transformou-se numa obscenidade. Não há diálogo possível com o terrorismo."
Um despacho, um programa
Texto de José Manuel Pureza hoje publicado no "Diário de Noticias"
"Portugal
não tem quaisquer condições de pagar 125 mil milhões de euros (75 mil
milhões dos quais a credores privados) nos próximos oito anos. Não há
reengenharia financeira - incluindo extensões de maturidades dos
empréstimos - nem malabarismo político que permita infirmar esta
verdade. Sem anulação de montantes, Portugal sucumbirá a um insuportável
peso relativo da dívida no PIB nacional. Para pagar este primeiro
resgate terá de contrair um segundo, para pagar este um terceiro e assim
sucessivamente. Essa é verdadeiramente a única inevitabilidade efetiva
da nossa vida coletiva. Ela traz consigo uma escolha decisiva que o País
tem de fazer: renegociar a dívida ou naufragar nela. Só por cegueira
ideológica se pode teimar em negá-lo.
O Governo sabe-o melhor do que ninguém. E já escolheu, sem hesitar, o seu lado: o do segundo resgate. A encenação catastrofista da última semana não foi outra coisa senão a criação de um clima antecipador do segundo resgate. O Governo está tão empenhado na concretização dessa escolha que foi ele próprio, quando do debate da moção de censura apresentada pelo Partido Socialista, que entendeu por bem trazer para o debate público o tema do segundo resgate.
A explicação é simples: escolher o segundo resgate em detrimento de uma renegociação da dívida que inclua os seus montantes não é algo que o Governo faça porque tem de fazer. Não, o Governo vê no segundo resgate a oportunidade de levar por diante um programa, que sempre foi o seu, de destroçar por inteiro o Estado social em Portugal. Que Passos Coelho e Vítor Gaspar atribuam ao Tribunal Constitucional a responsabilidade dessa destruição dos serviços públicos é uma expressão de cinismo puro. Eles querem, nunca o esconderam, essa destruição. Esse é o seu programa para o País. Que não tenham a coragem de o assumir agora, escondendo-se por trás de uma sentença que os tira do sério, mostra a sua verdadeira dimensão como estadistas.
Nesse afã de preparar o caminho ao segundo resgate, o Governo não hesitou mesmo em evidenciar um inequívoco autoritarismo. Com a sua reação, de inédita violência, contra o Tribunal Constitucional, Passos Coelho assumiu por inteiro que não é primeiro-ministro de um Estado de direito, antes quer ser governante de um estado de exceção. E agora vem o despacho de Gaspar tornar dispensáveis e ridicularizar todos os ministros e instaurar por decisão administrativa a ditadura do Ministério das Finanças. Lançar as culpas dos nossos males sobre quem tem por função republicana garantir o respeito da lei suprema e aumentar desmesuradamente os poderes de um ministro que, em dois orçamentos sucessivos, mandou a Constituição às urtigas é bem a prova dos pergaminhos democráticos da direita governante.
Mas tudo isto é frágil, tudo isto é dramatização postiça. O fogo político sobre o Tribunal Constitucional é um disfarce do programa de esvaziamento da escola pública, do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social pública. Habilidosamente querem-nos convencer de que isso é imprescindível para "honrarmos os nossos compromissos" com os credores, para mantermos a "credibilidade externa". Tudo falso, tudo mal amanhado. Para "honrarmos os nossos compromissos" o Governo vai contrair um segundo resgate. Entretanto terá destruído o Estado social de direito em Portugal. E no fim estaremos com mais dívida para pagar. E com menos democracia."
terça-feira, 9 de abril de 2013
Cavaco une Portugal e dá posse a Jerónimo
Texto de Pedro Tadeu hoje publicado no "Diário de Noticias"
"Leia esta frase:
"O meu país necessita de renegociar as condições do nosso ajustamento.
Digo-o e repito-o. Renegociar as condições de ajustamento com metas e
prazo reais."
Agora, leia esta: "O que vejo com preocupação é que
FMI, a Comissão Europeia e o BCE só reagem, só corrigem o caminho depois
de se tornar estupidamente óbvio que é preciso mudar de caminho."
Com
paciência leia, também, esta: "O novo rumo e a nova política de que
Portugal precisa têm de romper com a crescente submissão e subordinação
externas."
E, finalmente, esta: "Portugal é um país democrático, é
um Estado de Direito com uma ordem constitucional que tem de ser
respeitada. E a exigência por esse respeito dá ao Governo possibilidade
de exigir melhores condições no campo internacional."
Estas quatro
afirmações, feitas em semana louca, sugerem uma mais do que óbvia linha
de pensamento comum: os portugueses têm de impor limites à troika, ou,
pelo menos, devem tentá-lo.
Relembro, agora, a nota de Cavaco
Silva, divulgada após receber, sábado, o primeiro-ministro: "O
Presidente da República reitera o entendimento de que o Governo dispõe
de condições para cumprir o mandato democrático em que foi investido e
manifestou o seu empenho em que sejam honrados os compromissos
internacionais assumidos e em que sejam alcançados e preservados os
consensos necessários à salvaguarda do superior interesse nacional."
O
entendimento que o Presidente tem dos, cito, "consensos" que interessam
à Pátria é oposto ao pensamento comum expresso pelas pessoas, autoras
daquelas quatro frases, de raiz política e ideológica tão afastada como,
respetivamente, António José Seguro (PS), António Lobo Xavier (CDS-PP,
reformador do IRC a pedido do Governo), Jerónimo de Sousa (PCP) e
Catarina Martins (BE).
Os maiores inimigos políticos, mesmo os
incapazes de se juntarem algum dia num Governo, unem-se
circunstancialmente em palavras, no objetivo de forçar a Zona Euro a
mudar de via. O consenso e interesse nacional está, assim e
aparentemente, no campo oposto ao de Passos Coelho e ao desejado pelo
Presidente...
Alguém imagina Cavaco Silva, fechado no seu Palácio,
a ter noção disto? Ou, se tivesse essa consciência, a arriscar dar um
passo que um dia o leve a dar posse a, sei lá... Jerónimo de Sousa como
ministro da Economia de um governo de, realmente, consenso nacional?
O
homem está longe desse, para ele, azar. Mas, como os tempos estão, na
sua sisuda imobilidade, caminha na direção de ver um dia a História
pregar-lhe essa partida."

