Texto de Pedro Marques Lopes hoje publicado no "Diário de Noticias".
domingo, 5 de janeiro de 2014
Cavaco e a estratégia do relógio
terça-feira, 9 de abril de 2013
Cavaco une Portugal e dá posse a Jerónimo
Texto de Pedro Tadeu hoje publicado no "Diário de Noticias"
"Leia esta frase:
"O meu país necessita de renegociar as condições do nosso ajustamento.
Digo-o e repito-o. Renegociar as condições de ajustamento com metas e
prazo reais."
Agora, leia esta: "O que vejo com preocupação é que
FMI, a Comissão Europeia e o BCE só reagem, só corrigem o caminho depois
de se tornar estupidamente óbvio que é preciso mudar de caminho."
Com
paciência leia, também, esta: "O novo rumo e a nova política de que
Portugal precisa têm de romper com a crescente submissão e subordinação
externas."
E, finalmente, esta: "Portugal é um país democrático, é
um Estado de Direito com uma ordem constitucional que tem de ser
respeitada. E a exigência por esse respeito dá ao Governo possibilidade
de exigir melhores condições no campo internacional."
Estas quatro
afirmações, feitas em semana louca, sugerem uma mais do que óbvia linha
de pensamento comum: os portugueses têm de impor limites à troika, ou,
pelo menos, devem tentá-lo.
Relembro, agora, a nota de Cavaco
Silva, divulgada após receber, sábado, o primeiro-ministro: "O
Presidente da República reitera o entendimento de que o Governo dispõe
de condições para cumprir o mandato democrático em que foi investido e
manifestou o seu empenho em que sejam honrados os compromissos
internacionais assumidos e em que sejam alcançados e preservados os
consensos necessários à salvaguarda do superior interesse nacional."
O
entendimento que o Presidente tem dos, cito, "consensos" que interessam
à Pátria é oposto ao pensamento comum expresso pelas pessoas, autoras
daquelas quatro frases, de raiz política e ideológica tão afastada como,
respetivamente, António José Seguro (PS), António Lobo Xavier (CDS-PP,
reformador do IRC a pedido do Governo), Jerónimo de Sousa (PCP) e
Catarina Martins (BE).
Os maiores inimigos políticos, mesmo os
incapazes de se juntarem algum dia num Governo, unem-se
circunstancialmente em palavras, no objetivo de forçar a Zona Euro a
mudar de via. O consenso e interesse nacional está, assim e
aparentemente, no campo oposto ao de Passos Coelho e ao desejado pelo
Presidente...
Alguém imagina Cavaco Silva, fechado no seu Palácio,
a ter noção disto? Ou, se tivesse essa consciência, a arriscar dar um
passo que um dia o leve a dar posse a, sei lá... Jerónimo de Sousa como
ministro da Economia de um governo de, realmente, consenso nacional?
O
homem está longe desse, para ele, azar. Mas, como os tempos estão, na
sua sisuda imobilidade, caminha na direção de ver um dia a História
pregar-lhe essa partida."
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
A abstenção violenta de Cavaco Silva
Texto de Manuel José Manuel Pureza hoje publicado no Diário de Noticias.
"Temos um Presidente da República que, entre a Constituição de que é garante e o memorando com a troika, escolhe este e hipoteca aquela.
Bem pode o porta-voz do PS louvar a mensagem de ano novo do Presidente por ter deixado Passos Coelho politicamente isolado. Bem podem os opinadores encartados do costume encontrar na dita sinais de descolagem de Belém relativamente a São Bento. Um e outros querem que esqueçamos o essencial: Cavaco Silva é figura de referência das direitas tecnocráticas e dos economistas do deslaçamento social para quem a democracia é um estorvo.
Cavaco Silva é um político profissional. E a sua mensagem de ano novo foi isso mesmo: um exercício de pura política profissional. Daquela que, por dizer uma coisa e o seu contrário, tem conduzido a uma alergia crescente dos portugueses pela política. Do Orçamento do Estado disse que é um alimentador da espiral recessiva que está a destruir a economia portuguesa, que arrasa fiscalmente a população trabalhadora e o tecido empresarial, que é profundamente injusto e, para usar palavras brandas, que "suscita dúvidas" sobre a sua conformidade com os princípios elementares de equidade e não discriminação estatuídos pela Constituição. Isto dito, Cavaco pede desculpa mas promulga o dito horror. Fica claro: Cavaco partilha com Seguro a cultura da abstenção violenta. É o interesse nacional que mo impõe, diz com o ar grave que essa contrariedade requer. Queria não o ter promulgado mas se o não tivesse feito o País afundar-se-ia, seria o caos. E a gente pergunta: mas uma coisa assim tão má como o Presidente da República a pinta não traz o caos agarrado a ela? Um Orçamento tão destruidor não afunda o País? Uma lei com tão grande probabilidade de ser inconstitucional promulga-se e depois logo se vê? É isto um Presidente responsável?
Político profissional com muitos anos de prática, Cavaco Silva faz escolhas a coberto de imperativos gerais, pedindo desculpas por não poder alegadamente fazer outras. Na sua mensagem, Cavaco Silva enunciou com clareza a sua escolha política: repudiará qualquer crise política - leia-se: não quer que se force a demissão do Governo nem que haja eleições - e fará do cumprimento do memorando com a troika o mandamento maior da vida do País. Ora, criticar o Orçamento e fazer a apologia do cumprimento do memorando é uma contradição insanável. O Orçamento é o que é porque o memorando estabelece o que estabelece. O Orçamento do memorando é a crise da política real, mesmo se não houver crise política formal. Mas disso Cavaco Silva não quer saber. O que verdadeiramente lhe causa preocupação é que possa ganhar força a exigência de renegociação da dívida. Porque sabe que é aí que se desmorona a política de que ele é presidente, sabe que é aí que se rompe com a hegemonia da política do embaratecimento do trabalho, da política das privatizações a pataco, da política que rasga o contrato com os cidadãos mas sacraliza o contrato com os credores.
Cumprir o memorando para que tenhamos imagem de bom aluno e os credores possam continuar a financiar uma economia de baixos salários, de baixa qualificação e de direitos mínimos - esse é o desígnio de Cavaco Silva. E para que ele se cumpra, o Presidente toca a reunir. Ao lembrar que o memorando foi assinado por uma constelação partidária que representa 90% do espaço parlamentar, Cavaco põe no centro da política uma fórmula governativa de banda larga para apoio ao memorando da troika, seja com coligação formal ou com outra forma institucional. É a essa escolha de Cavaco que cada partido tem de responder. Alinhando com ela ou combatendo-a. Não há espaço para abstenções. Mesmo violentas."
domingo, 23 de dezembro de 2012
Um Presidente que não conta
Texto de Pedro Marques Lopes hoje publicado no "Diário de Noticias".
"É um tempo para
pararmos um pouco, olharmos à nossa volta e reflectirmos sobre aquilo
que fizemos, aquilo que deixámos de fazer, aquilo que não devíamos ter
feito, aquilo que podíamos ter feito melhor", afirmou Cavaco Silva
durante a sessão de apresentação de cumprimentos natalícios por parte do
Governo.
Não é de crer que o homem que nunca se engana e
raramente tem dúvidas tenha, por uma vez, resolvido anunciar uma
introspecção. De alguém que continua a tentar fazer-nos de parvos e diz
que as suas palavras sobre as suas pensões foram mal interpretadas
quando todos as ouvimos claramente, não podemos esperar grandes actos de
contrição.
Por estas e outras não faltou gente a interpretar
aquela frase como um recado ao Governo e não como uma espécie de mea
culpa. No fundo, uma troca de recados: o primeiro-ministro mandou um
recado a Cavaco Silva quando falou - de forma ignorante e imprudente
pondo em causa a solidariedade entre gerações, essencial ao equilíbrio
da comunidade - sobre "pessoas" que não descontaram o suficiente para
ter as reformas de que hoje desfrutam e o Presidente da República tratou
de mandar outro recado incentivando Passos Coelho a reflectir. Digamos
que estamos bem entregues quando, num momento como o que passamos,
Presidente e primeiro-ministro se divertem a mandar recados um ao outro.
É provável que a santíssima trindade composta por Passos, Gaspar
e Relvas, essa entidade una e indivisível, não tenha consciência do mal
que está a fazer ao País e da catástrofe que está a semear. O
Presidente da República também ainda não percebeu que está a ser
conivente por acções ou omissões da dita trindade, e que os cidadãos
entendem que ele é parte integrante da equipa que está a destruir a
classe média, a condenar gente, sobretudo de meia-idade (que não mais
vai conseguir arranjar emprego) à miséria e a fazer regredir social e
economicamente o País muitas dezenas de anos.
Não, não foram
apenas as suas infelicíssimas declarações sobre as suas pensões, não foi
aquele inominável discurso em que ofendeu tudo e todos aquando da sua
vitória eleitoral, não foi o episódio das escutas (que em qualquer país
civilizado teria levado à demissão do Governo ou do Presidente da
República) que faz com que Cavaco Silva seja o Presidente da República
mais impopular da história da democracia. Não é em vão que sondagem após
sondagem Cavaco Silva reúna mais opiniões desfavoráveis que Seguro,
Paulo Portas ou até do duo dinâmico Martins/Semedo - só mesmo Passos
Coelho é mais impopular que ele. Nada disto surpreende: além de o
sentirem colaborar com o Governo, os portugueses não conseguem perceber a
sua importância. Cavaco Silva conseguiu tornar o cargo de Presidente da
República irrelevante.
O Presidente renunciou ao seu papel de
provedor do povo quando não fala dos problemas, das angústias, dos
verdadeiros dramas dos seus representados e gasta o tempo com recados
que apenas servem para que mais tarde venha com o seu habitual e fútil
"eu tinha avisado" que nada acrescenta e apenas lembra a sua inutilidade
. Não cumpriu o seu juramento de "defender, cumprir e fazer cumprir a
Constituição da República Portuguesa" quando deixou que um grupo de
deputados fizesse o que ele devia ter feito mandando o orçamento de 2012
para o Tribunal Constitucional. Não pediu a fiscalização preventiva do
Orçamento para 2013 quando, segundo todos os constitucionalistas, todos
os observadores independentes e até do próprio partido do Governo, este
tem várias normas inconstitucionais e apenas 7,6% dos portugueses acham
que ele o deve promulgar.
Ouviu-se, aliás, muito o argumento de
que o Presidente não iria enviar a lei para o Tribunal Constitucional
para fiscalização preventiva por existir o risco de não haver orçamento
nas primeiras semanas de 2013. Cavaco Silva pode invocar todas as razões
para não o ter feito menos essa. O Presidente não jurou cumprir e fazer
cumprir um qualquer orçamento, jurou sim fazer cumprir a Constituição.
Mais, se as dúvidas são muito fortes não faz sentido que não requeira a
fiscalização deixando assim que muito provavelmente entrem em vigor leis
inconstitucionais.
Quando, lá para Março, toda a gente perceber a
catástrofe orçamental, o Governo entrar em colapso, os tribunais,
departamentos do Estado e sociedade civil mergulharem numa crise sem
precedentes vamos ter um Presidente descredibilizado, impopular,
barricado em Belém e em que ninguém confia. Nem os partidos, nem a
comunidade em geral. E logo quando mais precisávamos dum Presidente da
República. "
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Cavaco Silva: o homem errado no lugar errado
Texto de Daniel Oliveira, publicado no seu blogue "Antes pelo contrário" no "Expresso"
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Cavaco e o orçamento
O Presidente com medo
"É comum considerar-se que a hipótese de mandar um governo abaixo dissolvendo o Parlamento é "o poder" do Presidente. Chamam-lhe até "a bomba atómica". Já ser a última barreira entre a aprovação de uma lei que desrespeita fundamentos básicos da Constituição - a equidade, a proporcionalidade, a justiça - e a sua entrada em vigor não é muito valorizado. É pena: o sistema dá ao Presidente a prerrogativa de enviar as leis ao Tribunal Constitucional para certificar que, mesmo quando um governo e uma maioria de deputados decidam ignorar a Lei Fundamental, ele estará lá para se atravessar por ela - ou seja, pelo povo, contra a possibilidade de injustiça, o que é dizer de tirania. Não é uma escolha: é a mais nobre das suas obrigações.
Ou seja: Cavaco deixou passar orçamentos que considerava desrespeitarem a Constituição, passando pela vergonha de num deles isso ser confirmado pelo TC. Porquê? Segundo o PR, porque nenhum seu antecessor enviou um orçamento para o TC e porque o País não pode ficar "sem orçamento".
Ora, primeiro, com a fiscalização sucessiva o OE pode ser inviabilizado a meio do exercício - o que é muito pior. Depois, nenhum antecessor de Cavaco reputou de inconstitucionais normas de um orçamento - e nunca outro suscitou tantas dúvidas, e tão graves. Além disso, o PR cuja Casa Civil se queixou de ser escutada por um governo, que usou um seu discurso de posse para forçar a demissão do executivo em funções e que usa as publicações de Belém para ajustar contas com um ex-PM, acusando-o de manobras inconstitucionais - coisas todas elas nunca vistas -, teme o quê, ser o primeiro? O PR que preferiu receber pensões ao seu salário, que dá recados políticos no Facebook e vai a cerimónias públicas brincar com a situação do País tem receio de estrear um estilo?
Valha-nos Pacheco Pereira, o mais famoso tradutor de Cavaco. "Se o PR enviar o Orçamento para o TC, o Governo ataca-o", disse na última Quadratura. Como ninguém perguntou "e então?", ficámos a saber que há quem ache normal que um Presidente da República tenha medo de um Governo. Falta então saber porquê - se não for só por feitio."
O país já está a arder!
Texto de Pedro Bacelar de Vasconcelos hoje publicado no "Jornal de Noticias""Já não parece provável que o Presidente da República submeta à apreciação preventiva do Tribunal Constitucional o projeto de Lei do Orçamento do Estado para 2013. E é pena, porque sendo certo que o Tribunal se irá pronunciar sobre esta matéria mais tarde ou mais cedo, sempre seria preferível que o Presidente - ainda que por mera prudência - obtivesse desde já o esclarecimento das muitas dúvidas que algumas normas do orçamento têm suscitado.
E haveria ainda, nas atuais circunstâncias, uma terceira razão para o Presidente da República exercer os poderes de fiscalização preventiva da constitucionalidade. A crise económica e social vai agravar-se inevitavelmente ao longo dos próximos meses e a crise política que ruidosamente se anuncia não será, provavelmente, ultrapassada sem que este Governo se demita. Ora, da intervenção do Presidente podia resultar, perante o eventual "chumbo" do Tribunal Constitucional, a precipitação de um pedido de demissão do primeiro-ministro, o que permitiria travar o processo de acelerada degradação para que o Governo arrastou o país, e devolver à Assembleia da República a responsabilidade de procurar um novo programa político e uma fórmula governativa transparente, assentes num explícito compromisso parlamentar.
Independentemente do seu resultado, a iniciativa do Presidente de requerer a apreciação preventiva ao Tribunal Constitucional, sempre teria a virtude de separar a questão política do problema da fundamentação jurídica da validade das leis e, sobretudo, permitiria manter as possibilidades de controlo e de limitação dos danos da crise política, no terreno institucional. A convocação de eleições antecipadas - decorrente do "chumbo" parlamentar do defunto "PEC IV", cuja memória este Governo tudo tem feito para "reabilitar" - tornou o pedido de resgate inadiável, em 2011. Por isso, não há tempo a perder. Quanto mais se prolongar a agonia governamental, quanto mais tarde se atalhar esta deriva catastrófica que ignora as virtudes do diálogo e despreza o espírito de concertação, mais penoso e complicado se vai tornar encontrar-lhe algum remédio ou panaceia.
Tal como advertia nesta mesma coluna, na semana passada, o "arrastamento da crise política ou a dissolução do Parlamento não podem ser considerados, nas presentes circunstâncias, como alternativa desejável". É em nome da própria legitimidade democrática que conquistou e das expectativas criadas aos seus eleitores que a maioria parlamentar responsável pela atual governação terá de ser capaz de reconhecer a urgência de mudar as políticas que por esta vereda estreita nos conduzem ao empobrecimento generalizado, à subserviência internacional e à mais desamparada ruína. Caso não sejam capazes de o fazer, então que reconheçam o seu embuste ou impotência e se afastem prontamente para que o povo soberano, enfim, se pronuncie."
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Presidir
Texto de Sandro Mendonça, Economista do ISCTE-IU, hoje publicado no "Diário Económico"
"A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico
(OCDE) acaba de prever que a economia portuguesa se contraia 1,8% em
2013. Trata-se de quase o dobro do que esperam o Governo e a ‘troika'
(1%). A OCDE, tal como outras organizações internacionais (leia-se, o
FMI), tem sistematicamente falhado as previsões desde que a actual
crise começou (note-se, já falhava passou a falhar muito mais). Ou seja,
a queda não vai apenas ser de 1,8% e o orçamento será impraticável.
Mais grave, aliás: a OCDE, o FMI, o BCE e a Comissão Europeia têm
errado no diagnóstico e na receita. Claro, isso não interessa: Portugal
tem de obedecer e calar, aprender a empobrecer.
Portugal é "país soberano" mas tem de se submeter, Portugal tem de
"crescer" mas para isso tem de contrair. E com isto metem Portugal no
clube de países "feios, porcos e maus" quando antes a Europa dizia que
Portugal era um caso de sucesso e de democratização saudável e quando
ainda há uns meros cinco anos (antes da crise internacional) a própria
OCDE elogiava Portugal por corrigir as contas públicas e por tornar o
Estado mais eficiente.
Cá dentro o Governo faz um Orçamento de Estado que agrava a recessão e
agrava a desigualdade. Ganhou eleições zurzindo contra uma crise
induzida pelo governo anterior e contra o agravamento de impostos.
E depois piorou a crise e o desemprego, bateu recordes de impostos e
delapidou os serviços públicos, tenta vender activos ao desbarato (TAP,
Águas de Portugal, RTP, etc.) e sucede em que colocar os seus ‘brokers'
de influência nas grandes empresas de grande lastro nacional (Catroga na
EDP, Nogueira Leite na CGD, Borges na Galp). Esta coligação fez
exactamente o oposto do que prometeu: pessoalizou cargos, confundiu
interesses políticos com nacionais, substituiu os interesses do país
pelos da Europa central.
E no meio de tudo isto lembramo-nos dos homens da luta: "E o Presidente, pá?!"
O
Presidende da República não conseguirá evitar presidir. Este Orçamento
tem de ser analisado como merece. O desastre é certo se ele passar."
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
O que aí vem
Texto de João Cardoso Rosas, Professor Universitário, hoje publicado no "Diário Económico"
"Talvez por razões ideológicas ("o programa da
‘troika' é o nosso programa e queremos ir ainda mais longe"), talvez por
causa de um contexto internacional que lhe escapa, talvez pela situação
de "bom aluno" em que se colocou prescindindo de capacidade negocial
face a uma ‘troika' que já não acredita nas suas próprias soluções,
talvez porque os protagonistas são menores e nunca se poderia esperar
uma visão de estadista da dupla de "amigos para todas as ocasiões"
composta por Passos Coelho e Relvas, talvez porque se quebrou a
confiança interna e a coligação está desfeita, ou talvez por uma mistura
de todas estas coisas, o Governo não tem um caminho de futuro a
oferecer aos portugueses, limita-se a repetir soluções que são causas
dos nossos problemas e o OE para 2013 é a confirmação disso mesmo.
Os próximos meses serão terríveis. O Governo continuará em
dissolução, com remodelação ou sem ela, o divórcio em relação aos
cidadãos aumentará, existirá um risco real de que o poder caia na rua
(por isso este OE, ao mesmo tempo que corta na saúde e na educação,
aumenta a despesa nas forças de segurança e nas forças armadas). Quando,
em meados de 2013, se verificar que a execução orçamental é um fiasco, a
vida útil deste Governo terá terminado definitivamente. Nessa altura
terá de ser encontrada uma solução no quadro do sistema político e ela
só poderá vir do Presidente. Quais as alternativas de Cavaco Silva?
Muita gente tem sugerido um Governo de iniciativa presidencial, uma
solução tecnocrática à italiana. Esta ideia - defendida, por exemplo,
por Mário Soares - é péssima. O Monti português está por encontrar e um
Governo do Presidente na fase actual aumentaria o divórcio do poder em
relação aos cidadãos, agravando a situação social e colocando em causa
todo o sistema político, incluindo o próprio PR.
Outra possibilidade seria um Governo de salvação nacional formado por
uma grande coligação (PS, PSD, CDS). Esta solução teria sido
interessante há um ano e meio atrás, mas o PSD não quis sequer
considerá-la. Com os actuais protagonistas ela é impraticável. Se nem
PSD e CDS conseguem entender-se, imagine-se o que seria agora incluir
também o PS - que, de resto, já afastou essa possibilidade - na mesma
coligação!
Resta, portanto, a dissolução da AR e a convocação de eleições
antecipadas - o que deve ser feito no início do Verão, para permitir ao
novo Governo a preparação do OE para 2014. As eleições serão a única via
para restaurar o vínculo entre os governantes o povo. Desta vez,
ninguém tolerará falsas promessas. Desta vez, os principais partidos
terão de comprometer-se antecipadamente a encontrar uma solução de
governabilidade. Caberá ao Presidente esse papel de pedagogia política."
domingo, 26 de fevereiro de 2012
O CLAN DUARTE LIMA e o POLVO LARANJA
Mais um mail de indignação que circula pela net, este sobre o envolvimento dos "notáveis" do PSD no caso BPN. Um escândalo que os politicos não querem ver resolvido na justiça.
"O POLVO" E A OPERAÇÃO FACE OCULTA COM RABO DE FORA
1- A partir de 2008 torna-se evidente que a operação Face Oculta foi redireccionada pela investigação e pelos Media para passar a visar principalmente Sócrates. Era preciso derrubar Sócrates e mudar de governo, porque havia gigantescos interesses em jogo e, em particular, o caso BPN prometia dar cabo do PSD.
2. Das fraudes do BPN ignora-se ainda hoje a maior parte. Trata-se de uma torrente de lama inesgotável, que todos os nossos Media evitam tocar.
3. O agora falado caso IPO/Duarte Lima, de que Isaltino também foi uma peça fulcral, nem foi sequer abordado durante o Inquérito Parlamentar sobre o BPN , inquérito a que o PSD se opôs então com unhas e dentes, como é sabido.
A táctica então escolhida pelo polvo laranja foi desencadear um inquérito parlamentar paralelo, para averiguar se Sócrates estava ou não a «asfixiar» a comunicação social ! Mais uma vez, uma produção de ruído para abafar o caso BPN e desviar as atenções.
4. Mas é interessante examinar como é que o negócio IPO/Lima foi por água abaixo.
5. Enquanto Lima filho, Raposo e Cia. criavam um fundo com dezenas de milhões , amigavelmente cedidos pelo BPN de Oliveira e Costa, Isaltino pressionava o governo para deslocar o IPO para uns terrenos de Barcarena, concelho de Oeiras. Isaltino comprometia-se a comprar os terrenos (aos Limas e Raposo, como sabemos hoje) com dinheiro da autarquia e a «cedê-los generosamente» ao Estado para lá construir o IPO.
Fazia muito jeito que fosse o município de Oeiras a comprar os terrenos e não o ministério da Saúde, porque assim o preço podia ser ajustado entre os amigos vendedores e compradores, quiçá com umas comissões a transferir para a Suíça.
6. Duarte Lima tinha sido vogal da comissão de ética (!) do IPO entre 2002 e 2005, estava bem dentro de todos os assuntos e tinha óptimas relações para propiciar o negócio. Além disso, construiu a imagem de
homem que venceu o cancro, história lacrimosa com que apagava misérias anteriores. O filho e o companheiro do PSD Vítor Raposo eram os escolhidos para dar o nome, pois ao Lima pai não convinha que o seu nome figurasse como interessado no negócio.
7. Em Junho de 2007 Isaltino dizia ainda que as negociações para a compra dos terrenos em causa estavam "em fase de conclusão" (só não disse nunca foi a quem os ia comprar, claro). E pressionava o ministro da Saúde: "Se se der uma mudança de opinião do governo, o cancelamento do projecto não será da responsabilidade do município de Oeiras."
8. Como assim, "mudança de opinião do governo"?
9. Na verdade, Correia de Campos apenas dissera à Lusa que o governo encarava a transferência do IPO para fora da Praça de Espanha e que estava a procurar um terreno, em Lisboa ou fora da cidade, para esse efeito. Nenhuma decisão tinha sido tomada, nem nunca o seria antes das eleições para a Câmara de Lisboa, que iam realizar-se pouco depois, em Julho de 2007.
10. No decorrer do ano de 2007, porém, a Câmara de Lisboa, cuja presidência foi conquistada por António Costa, anunciou que ia disponibilizar um terreno municipal para a construção do novo IPO no Parque da Bela Vista Sul, em Chelas, Lisboa. Foi assim que se lixou o projecto Lima-Isaltino: o ministro Correia de Campos não cedeu às pressões de Isaltino e a nova Câmara de Lisboa pretendia que o IPO se mantivesse em Lisboa. Com Santana à frente da autarquia e um ministro da Saúde do PSD teria tudo sido muito diferente. E os Limas e Raposos não teriam hoje as chatices que se sabe. E Duarte Lima até talvez já tivesse uma estátua no Parque dos Poetas do amigo Isaltino.
11. Sabemos como, alguns meses depois deste desfecho, o ministro Correia de Campos foi atacado por Cavaco no discurso presidencial de Ano Novo, em 1 de janeiro de 2008. Desgostado com as críticas malignas do vingativo Presidente, Correia de Campos pediu a sua demissão ainda nesse mês.
Não sabemos o que terá levado Cavaco a visar dessa maneira um ministro do governo Sócrates, por sinal um dos mais competentes. Que Cavaco queria a pele de Correia de Campos, foi bem visível. Ele foi a causa do fracasso do projecto do IPO/Oeiras e dos prejuízos causados ao clan do seu amigo Duarte Lima e ao polvo laranja (ª).
É bem possível que essa tenha sido a razão.
(ª) - é bom que se entenda que o polvo laranja tem o seu pai no Senhor Silva que nunca falou sobre o BPN, mas o lodo deste senhor é bem maior !!! Oxalá Portugal fosse uma França !!!"sábado, 23 de outubro de 2010
O senhor de fato cinzento
Contava o inesquecível Raul Solnado numa das suas inesquecíveis rábulas que em sua casa andava um senhor de fato castanho que ninguém sabia quem era nem o que fazia.
Portugal está como o Solnado. com um senhor de fato cinzento que, embora todos saibam quem é, ninguém sabe o que faz.
Esse "senhor" é Cavaco Silva, presidente da republica há cinco anos e que se prepara para ver o mandato renovado por mais outros cinco.
Numa entrevista hoje publicada no "Expresso", Cavaco Silva diz, entre outras tretas, sentir-se cada vez mais perto dos portugueses e presenteia-nos com algumas tiradas "memoráveis".
Diz o "senhor" ser uma das pessoas que melhor sabe o que se passa sobre a situação em que o país se encontra mas, logo a seguir, admite não saber que estava tão mal e sentir-se triste por ter chegado a este ponto.
Não foi este "senhor" que começou a aumentar o peso do estado promovendo a criação de institutos públicos para colocar os seus militantes do psd?
Não foi este "senhor" que desbaratou incontáveis milhões e milhões de euros de fundos estruturais recebidos da Europa e que ninguém sabe onde foram parar?
Não foi este "senhor" que, quando era primeiro ministro e "bom aluno" da Europa, destruiu a industria e a agricultura nacionais a troco de mais uns quantos subsídios que entraram nos bolsos dos seus correlegionários do psd?
Diz o "senhor" que Portugal tem de se virar para o mar porque aí reside o futuro da economia.
Mas não foi este "senhor" que, quando era primeiro ministro e "bom aluno" da Europa, destruiu as frotas nacionais, da mercante à pesqueira?
Diz o "senhor" que não lhe passa pela cabeça demitir Sócrates e o seu governo porque defende a estabilidade.
O facto do primeiro ministro ter conduzido o país à quase ruina é, na opinião do "senhor", totalmente acessória pelo que dá o aval à manutenção do governo e à estabilidade do caminho para o abismo.
Diz o "senhor" que passa muitas horas a ler jornais e revistas.
Perfeitamente compreensível já que o "senhor" precisa de ocupar o muito tempo que tem livre por não fazer nada.
Fosse o povo português menos fatalista e resignado e este "senhor" estaria atrás das grades acompanhado por Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e, claro, José Sócrates.
Infelizmente, para Portugal, o "senhor" vai ter mais cinco anos sem fazer nada.