domingo, 30 de março de 2014
A pobreza e os pobres de espírito
1-Nesta semana tivemos notícias do chamado programa de ajustamento. Há quase dois milhões de portugueses a viver com menos de 409 euros por mês, um terço das famílias não pode aquecer satisfatoriamente a sua residência e praticamente metade dos nossos concidadãos não pode acudir a uma despesa de 400 euros sem recorrer a crédito. Ser velho ou ter filhos é uma porta aberta para a pobreza (é bom que as pessoas do Governo percebam que alguém ainda perde a cabeça se se persistir em falar que é preciso ter mais filhos), e vale a pena lembrar que mais de metade das pessoas em situação de desemprego não recebem subsídio.
Os números divulgados pelo INE não deixam margem para dúvida: há cada vez mais pobres e os pobres estão cada vez mais pobres. A isto deve ser somado o aumento da desigualdade, que já sendo das maiores da Europa ainda cresceu mais. É a nova comunidade que estamos a construir, é o caminhar a passos largos para um passado que pensávamos não poder regressar.
Claro que esta queda no abismo da pobreza não surpreenderá ninguém. Muito menos os agentes externos e os fundamentalistas internos da execução da política suicida que vem sendo posta em prática. É este o plano, é esta a visão: criar um exército de pobres disposto a trabalhar por uma malga de sopa e esvaziar o País duns milhões de almas para que haja, digamos assim, mais espaço. É a já nossa conhecida estratégia de empobrecimento. Como acredito que ainda resta um mínimo de preocupação pelos outros cidadãos, um mínimo de decência, um mínimo de noção de bem comum, um mínimo de caridade, imagino que os estrategos desta loucura pensem que esta miséria provoque no final um milagre - um prodígio como o nascimento de árvores das patacas ou o súbito jorrar de petróleo no Bombarral. Tudo isto seria assim uma espécie de sacrifício para expiar pecados e depois viria, por obra e graça do Deus Desconhecido, a bonança. Francamente, já não se conseguem encontrar explicações racionais para a persistência num caminho que está a conduzir a estes resultados.
Mas, no mesmo dia em que foram divulgados mais números da tragédia em curso, Passos Coelho, reagindo pela enésima vez ao Manifesto dos 74 e não prescindindo do acinte com que tem brindado os subscritores, afirmou que este mostrava uma conceção infantil da Europa. Os assinantes do manifesto "estão a falar de uma Europa que não existe, nem existirá e ainda bem, porque ninguém aceitaria uma Europa em que uns poupam para que outros possam gastar". A colagem às teses que dominam a ausência de pensamento europeu é evidente. E é bom que fique claro, não há ponta de ideologia nelas. Passos Coelho está, na prática, a alinhar num conjunto de preconceitos quase racistas, repugnantes e mentirosos, e em assunções pretensamente morais. Não em nenhuma escolha ideológica.
Fica mais uma vez claro que o primeiro-ministro de Portugal pensa que os seus concidadãos são uns esbanjadores, uma malta que andou, e anda, para aí a gastar à tripa-forra. Os povos do Norte, claro está, poupados e sérios, estão fartos da nossa desbunda.
Não ignorando, Passos Coelho, os números da pobreza, do desemprego, da emigração no nosso país, parece perfeitamente razoável chegar à conclusão de que acha que ainda não são suficientes. Não pode ser mesmo doutro modo. E, assim sendo, resta a pergunta: quantos mais pobres e desempregados serão necessários para que sejamos considerados uns probos e dedicados cidadãos, senhor primeiro-ministro?
2-Nesta semana ficou claro que o ministro Maduro não faz ideia do que está a fazer no Governo, que Marques Guedes acha os jornalistas uns manipuladores, que o ministro Mota Soares não é tido nem achado em questões do seu ministério e é substituído por um secretário de Estado dum outro em que Maria Luís Albuquerque manda e acha que não tem de dar confiança a ninguém. O primeiro-ministro ainda não percebeu bem as funções que exerce e pensa que os membros do Governo devem contribuir para um debate sereno... aquele cavalheiro que em 2011 dizia que "a única coisa que aproveito para enfatizar é que todos aqueles que produziram os seus descontos e que têm hoje direito às suas reformas e às suas pensões as deverão manter no futuro, sob pena de o Estado se apropriar daquilo que não é seu".
Entretanto, vêm para aí mais cortes nas pensões (e salários) e foram anunciados de forma a instalar o pânico e a gerar incerteza numa parte já muito fragilizada da população. O costume, portanto.
A novidade veio de Portas. Segundo o vice-primeiro-ministro, cerca de 85 mil pessoas, nos últimos dois anos, deixaram de ter direito ao Rendimento Social de Inserção porque todas elas tinham mais de 100 mil euros na conta bancária. Das duas uma: ou, afinal, havia para aí muito dinheiro sem que ninguém soubesse, ou Paulo Portas mente despudoradamente, miseravelmente, irrevogavelmente, mesmo. É aguardar.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Promessas cumpridas
Texto de Manuel José Manuel Pureza hoje publicado no Diário de Noticias
O descrédito
social da política contemporânea passa, e muito, pela noção cada vez
mais disseminada de que só as promessas de regressão são sérias e de que
todas as promessas de transformação que acrescentam dignidade e
direitos às nossas vidas são demagogia irresponsável. Quando rigor só
pode rimar com sofrimento e melhoria de condições passou a ser uma
questão de fé e não uma possibilidade efetiva, a política só pode ser
repudiada.
O Governo prometeu empenhar-se em fazer o País "sair
desta situação, empobrecendo". Cumpriu uma parte: a do empobrecimento.
Os dados esta semana publicados pelo INE relativos a 2012 mos- tram, de
facto, como o Governo honrou a promessa de empobrecer a grande maioria
dos portugueses. Há neste relatório duas informações essenciais sobre o
que é o País depois do choque de empobrecimento prometido e cumprido.
A
primeira é a de que a austeridade agravou e espalhou a pobreza. Um
milhão e cem mil pessoas - mais 200 mil do que em 2010 - vivem em
condição de pobreza severa (ou seja, não conseguem satisfazer as suas
necessidades mais elementares). Um em cada quatro portugueses é pobre -
uma subida de 25% em apenas quatro anos. A taxa de risco de pobreza -
correspondente a 60% do rendimento mediano, o qual desceu
significativamente descendo por isso a fasquia de contagem da pobreza -
subiu mesmo assim, dramaticamente, de 17,9% em 2009 para 24,7% em 2012.
Sabemos bem que por trás destes números estão vidas concretas de
indizível sofrimento e indignidade: ter de escolher entre os
medicamentos que se tomam e os que não se podem comprar, não ter
dinheiro para manter a casa minimamente aquecida, não ter meios para
comprar uma peça de roupa, não ter dinheiro para que um filho possa
estudar, etc., etc. Quarenta anos depois do 25 de Abril, este país que o
INE faz ver ao espelho volta a ver as mesmíssimas imagens que a
democracia primeiro e a Europa depois fizeram crer que estariam banidas
para sempre.
Mas os números do INE revelam-nos uma segunda imagem
do País sob as políticas de austeridade. A diferença entre o rendimento
dos 10% mais ricos e dos 10% mais pobres passou de 9,2 vezes em 2009
para 10,7 vezes em 2012. Os números são como o algodão: não mentem. E
neles vai clara a demonstração de que houve uma parte do País a quem a
promessa governamental de empobrecimento não se aplicou de todo. Há
notoriamente mais pobres em Portugal, há uma mancha social muito mais
ampla afundada na pobreza quotidiana e na falta de horizontes de saída
dela. Mas o alastramento e o agravamento da pobreza da grande maioria
reverteram a favor de uns poucos muito ricos, sempre incólumes aos
sacrifícios.
Da grande promessa programática de 2011 - empobrecer o
País para o "tirar desta situação" -, o Governo cumpriu a parte mais
fácil: empobrecer os pobres e trazer para a pobreza os remediados. Aos
ricos ajudou a que ficassem mais ricos. E, mais grave que tudo, sem que
no fim se tire o País da situação que justificou isto tudo -, a dívida
agigantou--se e a capacidade de a pagar diminui na mesma proporção. A
resposta do Governo a este diagnóstico do INE será a confirmação, já
anunciada, da natureza permanente dos cortes nas pensões e reformas. Ou
seja, à vulnerabilidade da pobreza o Governo responde com a eternização
dessa vulnerabilidade nos segmentos sociais mais frágeis.
É séria
uma coisa assim? É realista? É razoável? Ou realista, razoável e sério é
antes ouvir o clamor dos pobres e centrar toda a política na criação de
um horizonte de mudança que assuma o quotidiano destas tantas centenas
de milhares de pessoas como a única prioridade?
domingo, 9 de março de 2014
O bafo do Minotauro
Texto de Pedro Marques Lopes hoje publicado no "Diário de Noticias".
sábado, 1 de março de 2014
Alguém está muito melhor
Texto de Carvalho da Silva hoje publicado no "Jornal de Noticias"
Parte significativa dos portugueses está tão manietada nas suas vidas, incapacitada na resposta aos problemas do dia a dia, que anda a fugir da vida, sendo tentada a acolher uma ilusão ou a dar crédito a um milagre como formas de abrir perspetivas de futuro.
O Partido Socialista, que no quadro político-partidário existente é, no senso comum, a força política que mais se afigura como alternativa, está hoje rendido ao domínio do poder económico e financeiro e a dimensões "necessárias" da austeridade, mesmo que uma parte dos seus quadros e bases sinta que essa cedência é desastrosa.
Neste cenário, o Governo e as forças políticas e sociais que o apoiam têm o caminho aberto para ampliar a venda de ilusões e empurrar os problemas com a barriga. Entretanto as faturas a pagar no futuro vão aumentando!
Num exercício de criatividade manipuladora, Luís Montenegro disse, no contexto do recente congresso do PSD, que "A vida das pessoas não está melhor, mas não tenho dúvidas de que a vida do país está muito melhor". Esta afirmação, tomada à letra, coloca uma irracional dicotomia entre condições das pessoas e condições do país. Mas merece ser analisada em duas vertentes.
Primeira, de facto há quem vá ficando com uma vida bem melhor ao lado do aumento generalizado do sofrimento do povo: os grandes capitalistas transformaram riqueza virtual em riqueza efetiva; acionistas da banca, e não só, ganharam com os roubos e a especulação que gerou a crise e continuam a ganhar com a sua gestão; os empresários poderosos deixaram de ter qualquer risco uma vez que o Estado (o Governo) tem agora por missão assegurar-lhes sempre lucros (veja-se os negócios das PPP), à custa dos impostos e sacrifícios dos cidadãos; apenas no espaço de um ano o número de multimilionários e as suas fortunas cresceram 11%; os sistemas de saúde, de ensino, de proteção social e os recursos do país estão agora mais disponíveis para serem explorados pelos capitalistas nacionais e estrangeiros em seu favor. Certamente são estes interesses que os Montenegro consideram como país.
Segunda, se tomarmos o PIB como uma medida do estado do país, o país pode parecer melhor quando o PIB cresce um pouco, como terá crescido nos dois últimos trimestres, mas a situação dos portugueses continuar a piorar. Isso acontece porque são transferidos para o exterior recursos sob a forma de juros e outros rendimentos de capital. É esta a perspetiva de futuro próximo anunciada pelo Governo e pela troika. Mesmo que "o país melhore" - o PIB deixe de cair - os portugueses vão continuar pior. É a consequência de uma dívida insustentável, que devia ser reestruturada, mas que jamais será com este Governo ao serviço dos credores.
A austeridade mata mas, dentro do quadro atualmente vigente no país e na UE, a morte lenta aparece como inevitável. Como a morte certa não é algo que alguém na posse do seu perfeito juízo possa desejar, é preciso alterar o quadro político existente no país e na UE. Isso exige muita luta, muita vontade, muita persistência. São precisas ruturas que pressupõem escolhas difíceis dos portugueses. Enquanto não o fizermos, alguns ficarão sempre melhor e o povo cada vez pior.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Falácias e mentiras sobre pensões
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
A má moeda circula entre São Bento e Belém
Texto de Tomás Vasques hoje publicado no jornal "i".
O
discurso de Ano Novo do senhor Presidente da República roçou o patético
porque, ao contrário de todos os seus antecessores, esvazia as funções
que a Constituição lhe atribui
Depois da declaração de inconstitucionalidade da "convergência de pensões" dos sistemas público e privado, tal como foi formulada, o governo apressou-se a apresentar as "medidas alternativas" que repusessem a prevista poupança de 388 milhões de euros. Como não podia deixar de ser, tais medidas vieram recair, outra vez, sobre os reformados, aumentando a incidência do imposto extraordinário sobre as pensões de reforma, agora a partir dos mil euros, e aumentando a contribuição dos funcionários públicos para a ADSE. Estas medidas "alternativas" cheiram a um revanchismo persecutório de que o ainda primeiro-ministro é useiro e vezeiro: só queríamos diminuir as pensões de reformas do sector público, mas como o tribunal Constitucional não permitiu, teremos de reduzir as pensões de todos os reformados, dos sistemas público e privado.
Esta sanha, esta insensibilidade social revela-se tão evidente que, ao mesmo tempo que essas medidas foram anunciadas, pelo ministro Marques Guedes, numa conferência de imprensa recheada de "recalibragens" e outros eufemismos da nova linguagem do poder, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, informava que a regularização de dívidas fiscais e à Segurança Social, que decorreu em Novembro e Dezembro de 2013, tinha permitido ao Estado arrecadar mais de mil e duzentos milhões de euros, quando a previsão era de setecentos milhões de euros. O que significou mais de quinhentos milhões de euros do que o objectivo traçado pelo governo. Só este facto era suficiente, mesmo que as suas consequências se reportem à descida do défice ao ano de 2013, para evitar mais esta punição sobre os reformados e os funcionários públicos. Mas, para este governo, o que está em causa não é o cumprimento dos défices, fixados pela troika, mas sobretudo o empobrecimento da maioria dos portugueses para agradar a credores e mercados, de quem se sente mandatário.
Nestas circunstâncias (de termos um governo que afronta, todos os dias, deliberadamente, a maioria dos portugueses), o discurso de Ano Novo do senhor Presidente da República roçou o patético, não só porque, ao contrário de todos os seus antecessores, esvazia as funções que a Constituição lhe atribui, ao colocar-se completamente ao serviço das desastrosas políticas do governo, mas também porque a sua voz perdeu toda e qualquer autoridade política que o cargo lhe conferia. É doloroso, para quem acredita na democracia, ouvir o "mais alto magistrado da Nação" cair no ridículo de apelar a "consensos", que se resumem a atrelar o Partido Socialista a esta política de terra queimada e ao inevitável "programa cautelar" que se seguirá ao actual resgate. Definitivamente, a "má moeda" circula entre São Bento e Belém, tornando irrelevante o cargo de Presidente da República, o que desequilibra os pratos da balança da arquitectura constitucional que enforma a nossa fragilizada democracia. E vamos caminhar, assim, sem apelo, mas com muitos agravos, pelo menos, até às próximas eleições legislativas.
domingo, 5 de janeiro de 2014
Cavaco e a estratégia do relógio
Texto de Pedro Marques Lopes hoje publicado no "Diário de Noticias".
domingo, 24 de novembro de 2013
Não é justiça
O secretário de Estado da Administração Pública considera mais justo cortar nos salários acima de 675 euros brutos do que a partir dos 1500 euros.
Bombeiros pirómanos
Texto de Pedro Marques Lopes hoje publicado no "Diário de Noticias".
Depois de ter
promovido várias nacionalizações de empresas portuguesas por Estados
estrangeiros, EDP e REN por exemplo, o Governo decidiu dar um outro
passo no caminho da colectivização dos meios de produção. A estratégia
consiste em criar um banco público que ajude, nas palavras do Governo,
as empresas.
Acaba-se com o mercado interno, mantém-se a
electricidade, gás, gasolina, a preços acima dos concorrentes europeus,
não se mexe uma palha para acabar com a burocracia e até se acabam com
as poucas boas medidas nesse sentido do anterior governo, acaba-se com o
crédito, aumentam-se os impostos, fazem-se disparar as taxas. E agora o
Governo cria a Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD), que vai
não só poder participar no capital das empresas como participar na sua
gestão - logo o Estado, esse fantástico gestor. Estamos regressados ao
condicionamento industrial do Estado Novo: será o Estado a escolher quem
deve ser ou não financiado, qual a actividade a ser apoiada e, com
jeito, quem devem ser os gestores.
Diz que é um Governo liberal.
Mas é mais um Governo que se comporta como um bombeiro pirómano: vai
tentar salvar as empresas que ele próprio se encarregou de incendiar.
Esqueçamos
o pormenor de passarmos a ter não um, mas dois bancos públicos.
Esqueçamos também que este era o primeiro-ministro que queria privatizar
a CGD. Façamos uma força extra e ignoremos que este era o Governo que
tiraria o Estado da Economia... O resultado é que acaba não só por fazer
exactamente o contrário, mas também por promover nacionalizações por
outros Estados de empresas portuguesas.
O facto é que a economia
portuguesa está ainda mais dependente de decisões políticas do que
alguma vez esteve. Ou será que alguém pensa que a EDP não seguirá à
risca o que for melhor para o Estado chinês? Ou será que alguém sonha
que a REN não criará problemas graves a Portugal por um qualquer
interesse de um dirigente do PC chinês? Ou será que há ingénuo que
imagina a IFD com critérios gerais e abstractos quando tiver de escolher
financiar esta ou aquela empresa, sugerir este ou aquele gestor - os
boys do CDS e do PSD devem estar a esfregar as mãos de contentes e os do
PS a afiar os dentes -, procurar um ou outro fornecedor?
O
resultado de toda a política que até agora tem sido seguida era
previsível e está a confirmar-se: uma economia destruída acaba por se
tornar dependente do único poder que permanece: o do Estado. A
sistemática destruição económica dos últimos anos deixou o tecido
empresarial tão enfraquecido que se torna praticamente inevitável a
intervenção estatal.
Daqui até à intromissão do Estado em
assuntos que não devem estar na sua esfera, ao aumento do clientelismo,
ao crescimento do poder arbitrário do Governo nas mais diversas áreas,
vai o passo dum anão.
Com a mesma lógica, não surpreendem os
números, que esta semana vieram a público, que mostram que meio milhão
de crianças e jovens perderam o direito ao abono de família em três anos
e que há muito menos pessoas a receberem o rendimento social de
inserção e o complemento solidário para idosos (dados do Instituto de
Ciências Sociais da Universidade de Lisboa). Não será preciso lembrar
que não haverá altura em que estes apoios seriam mais necessários. Por
outro lado, o Estado está a investir fortemente em cantinas sociais.
O
que se está a tirar em direitos e apoios para que as pessoas mudem de
vida e se diminuam as desigualdades está a dar-se em esmolas. É o
regresso da sopa dos pobres.
Também diz que o Governo é apoiado por um partido social-democrata.
No
fundo, o Estado sai de onde devia estar, diminui as suas funções
essenciais, reduz drasticamente os apoios sociais - que já eram dos
mais baixos da Europa - e aumenta muito a sua presença onde não devia
estar e que quando está só estraga. O Estado torna-se mais fraco onde
devia ser forte, e decisivamente forte onde devia ser apenas regulador e
facilitador. É a inversão total da lógica do funcionamento do Estado
numa democracia que quer ter uma sociedade civil forte e independente e
uma economia mais livre e com mais iniciativa.
O Governo não é
nem liberal, nem social-democrata, nem nada. É apenas incompetente e
ignorante. O pior é que essa incompetência e ignorância está a
transformar o país num lugar em que apoiar as empresas é pôr o Estado a
financiá-las e a geri-las e os apoios sociais acabarão por ser apenas
sopas para os pobres.
sábado, 16 de novembro de 2013
A escravatura do FMI
Texto de Nuno Saraiva hoje publicado no "Diário de Noticias"
A 18 de outubro,
um estudo da ONG australiana Walk Free Foundation confrontou-nos com a
realidade trágica de que, em 2013, ainda existem cerca de 30 milhões de
escravos em todo o mundo. Destes, 14 milhões estão recenseados na Índia
do senhor Lall, chefe de missão do Fundo Monetário Internacional (FMI)
em Portugal.
Não sei se por inspiração histórica, devoção
ideológica ou deformação cultural, o modelo de sociedade que este
aspirante a capataz nos quer impor deriva do tipo esclavagista em que a
dignidade dos salários não existe, os direitos no trabalho e ao trabalho
são para abolir e o acesso à justiça por parte de quem trabalha é para
revogar.
Diz-nos o senhor Lall, no douto relatório às oitava e
nona avaliações do ajustamento português, que, apesar dos cortes já
efetuados, os salários continuam elevados, que os empregados menos
qualificados e com ordenados mais baixos devem estar à mercê de uma
maior flexibilização salarial em nome da competitividade, que as pensões
permanecem uma enormidade, que os trabalhadores despedidos sem justa
causa devem ser desincentivados de recorrer aos tribunais para se
defenderem, que os sindicatos devem ser conduzidos à irrelevância na
concertação social, que o esbulho nos rendimentos do trabalho,
proclamado aos quatro ventos como temporários pelo Governo, é para ser
definitivo... E por aí adiante.
O país de que fala o senhor Lall, e
de que antes falava o senhor Selassie, é o mesmo que aceita como uma
inevitabilidade o facto de haver mais de um milhão de portugueses a
ganhar menos de 600 euros por mês, que tem um Governo que recusa
discutir a subida do salário mínimo para essa fortuna que são 500 euros,
que já sorri com uma taxa de desemprego que cai para os 15,6% sem se
questionar sobre o impacto nestes números da emigração de 120 mil
portugueses num só ano - e também na sustentabilidade da Segurança
Social - que, a par da habilidade contabilística dos subempregados e dos
chamados "inativos", reduz drasticamente o universo da população ativa
em cima da qual se calcula a taxa de desemprego, que acha normal que a
destruição de postos de trabalho seja três vezes superior à criação de
emprego.
Não sei se foi neste país das maravilhas que o Dr. Pires
de Lima, qual pastorinho de Fátima, teve a epifania do "milagre
económico" e do "momento de viragem" que, nas palavras do ministro da
Economia, deveria encher de "satisfação" os portugueses todos. Sei, no
entanto, que à retórica da discordância afirmada pelo Governo
relativamente às posições mais radicais da troika tem correspondido
sempre o alinhamento com a austeridade cega e a submissão à lógica de
empobrecimento. Aos métodos e discursos punitivos que nos são impostos
segue-se sempre a mansidão do discurso e a resignação.
É óbvio que
a notícia de que saímos da situação de recessão é positiva, ninguém no
seu juízo perfeito pode contestar. Mas tal como é dito pelo senhor Lall,
o País ainda tem "riscos significativos" pela frente. E o maior de
todos não é nem o Tribunal Constitucional nem "o regresso à incerteza
política". A pior das ameaças é mesmo a ortodoxia do FMI.
Se ao
brutal Orçamento do Estado para 2014 se vier a somar a receita prescrita
neste relatório, depois de nos terem arrancado a carne, os senhores da
troika preparam-se para nos comer os ossos.
Aos credores não pode
ser permitido tudo. Aos credores, tal como aos capatazes, também é
preciso dizer basta. Não chega desvalorizar um relatório que é ofensivo
da dignidade humana. Talvez no país do senhor Lall a escravatura seja
cultural e socialmente aceitável. Talvez, antes dele, o senhor Selassie
se tenha esquecido ou até desconheça que, na Etiópia, os escravos foram
abolidos em 1942. Mas o que aqui está em causa é uma visão ultraliberal
que, à viva força, nos quer fazer retroceder a um passado do qual
devíamos todos envergonhar-nos e que não é compatível com a liberdade e a
civilização.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
As escolhas de Cavaco
Texto de Manuel José Manuel Pureza hoje publicado no Diário de Noticias
O velho sonho da
direita - um governo, uma maioria, um presidente - é realidade. Mas,
como o demonstram as sucessivas crises da maioria e do Governo, este
inédito alinhamento não tem selo de garantia.
Ele carece de um
aditivo de estabilidade e de força política que o ponha a salvo das
tensões e contradições que resultam da natureza atentatória de direitos e
de expectativas essenciais que é a das suas políticas.
Maioria e
Governo de direita oscilaram já vezes demais diante da turbulência
social para se poder negar a evidência: são politicamente frágeis.
Dois
fatores cruciais têm permitido contornar essa evidente fragilidade que,
numa democracia normal, teria há muito resultado na devolução da
palavra ao povo.
O primeiro é o uso da troika como argumento de
autoridade que se sobrepõe ao povo soberano e à constituição
democrática, como dispositivo de legitimação sem recurso dos extremismo
das escolhas políticas, económicas e sociais impostas às pessoas dia
após dia. O segundo fator é um desempenho do cargo de Presidente da
República que se afasta da lógica de pesos e contrapesos que a
Constituição sabiamente consagra e se apresenta como um seguro de vida -
e, mais do que isso, como um suplemento vitamínico - de uma governação
crescentemente agressiva.
Estamos no auge do choque entre dois
constitucionalismos em Portugal. De um lado, o constitucionalismo do
Estado de direito recebido na Lei Fundamental da República. Do outro, o
constitucionalismo do estado de exceção que arvora o memorando de
entendimento com a troika em Lei Fundamental de facto para, a partir
daí, eliminar direitos e descaracterizar o modelo democrático plasmado
na Constituição da República. Ora, mais do que qualquer outro órgão de
soberania, o Presidente da República está obrigado a fazer escolhas
claras entre esses dois constitucionalismos. É nessas escolhas que o
Presidente evidencia - ou não... - a sua lealdade ao povo e à
democracia. Ora, a verdade é que Cavaco Silva tem feito essas escolhas
claras.
Na tensão entre o povo que o elegeu e a troika que se lhe
contrapõe, Cavaco Silva nunca se furtou a assumir-se como garante de
aplicação do memorando com a troika e das políticas nele inspiradas.
Quando
a legalidade constitucional, cuja defesa é o seu único mandato, e a
excecionalidade imposta do exterior entraram em choque, Cavaco Silva
expressou sempre com clareza a sua prioridade: impedir que a
Constituição incomode os mentores do estado de exceção.
De tal
modo essa escolha é clara que nunca se lhe ouviu a mínima palavra de
defesa do Tribunal Constitucional contra as insuportáveis pressões sobre
este exercidas por entidades internacionais como a Comissão Europeia.
Qualquer presidente com pergaminhos de patriotismo - fosse de direita ou
de esquerda - o teria, evidentemente, feito. Cavaco Silva escolheu não o
fazer. Escolheu um lado.
Cavaco Silva assume-se como o melhor
Presidente imaginável para um protetorado, ou seja, um amigo leal dos
tutores, mesmo quando - ou sobretudo quando - seja necessário impor a
vontade deles contra os direitos do povo. A democracia portuguesa fica
claramente empobrecida com os mandatos presidenciais de Cavaco Silva.
O
ciclo político que está a aproximar-se exige um polo presidencial
liderado por alguém nos antípodas de Cavaco Silva: um amigo dos
direitos, um combatente inequívoco pela Constituição, um patriota contra
a humilhação do País, alguém que a grande maioria das pessoas - os mais
pobres - sintam como seu defensor. Um defensor do povo contra quem lhe
faz mal.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
O Presidente e o Governo estão surdos
Texto de Baptista Bastos hoje publicado no "Diário de Notícias"
A pátria está de pantanas, por uma governação aparentemente impune e alegremente estouvada. Os gritos de desespero que a fome e a desgraça despertam não são ouvidos em Belém. O crime terá, mais tarde ou mais cedo, de ser punido, e cada vez mais se acentuam as responsabilidades políticas e morais de um Governo que o não é, e de um Presidente que não há. Todos os dias da semana há protestos nas ruas, os governantes andam com um batalhão de "gorilas" a resguardar-lhes o corpo, os suicídios aumentam, milhares de famílias não têm pão para pôr na mesa, o País despovoa-se da sua juventude e temos a gelada sensação de que ninguém nos ajuda. Nas Jornadas Parlamentares do PSD-CDS, Paulo Portas, cuja imagem, distorcida e embaciada, está cada vez mais parecida com a do espelho em que se revê, abriu a sessão garantindo que já se vislumbra melhorias na economia. Mas que é isto? Vivemos nesta mentira, neste embuste, nesta pouca--vergonha que degrada a ética republicana e provoca amolgadelas maiores nos valores e nos padrões morais do nosso modo de relação social.
António José Seguro permanece ofuscado por qualquer problema que se desconhece. Nada diz, nada faz, em nada age. Cumplicia-se com o silêncio tenaz dos que se não querem comprometer. E as hostes agitam-se, cada vez mais, no PS, adquirindo proporções de que se registou uma pálida ideia na sessão de lançamento de um livro de José Sócrates. Esta agitação impeliu o antigo ministro Catroga ao beligerante comentário de que o ex-primeiro-ministro do PS deveria ser julgado. Bom. Neste caso e decorrências, o Catroga passaria ao lado? Ele, os que o antecederam e sucederam são santos impolutos e criaturas intocáveis?
O mal-estar que envolve o País tem muito a ver com este distúrbio, da natureza da consciência e de uma identidade própria que eles desagregam.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Os inimputáveis
Texto de Nuno Ramos de Almeida, Editor-executivo, hoje publicado no jornal "i"
No dia das eleições autárquicas, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, sossegou o governo dizendo que a sua permanência não estava dependente da votação do povo.
Para dizer a verdade, mesmo que o primeiro-ministro fosse apanhado em flagrante a cometer um crime de delito comum (entenda-se com um enquadramento jurídico diferente dos desmandos que pratica habitualmente contra a população portuguesa), só haveria uma certeza: o Presidente Aníbal ia fechar os olhos e garantir-lhe a sua total cumplicidade.
Este clima de impunidade contagiou todo o governo. A ministra de Estado e das Finanças garante nunca ter visto um swap, semanas depois prova- -se que participou em pareceres sobre os ditos na sua prévia actividade profissional. O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, pede desculpa ao governo de Angola por investigações da justiça portuguesa e garante que estas não vão dar em nada. Quando a procuradora-geral da República relembra ao governo a independência, consagrada na Constituição da República, do Ministério Público e lhe diz que numa democracia, como em Portugal, há separação de poderes e o governo não determina as investigações judiciais, depressa aparece o primeiro-ministro Passos Coelho a falar de um lapso de linguagem do ministro Machete.
Estes lapsos são recorrentes no titular da pasta dos Negócios Estrangeiros, os mesmos que o levaram a omitir deliberadamente a qualidade de accionista da SLN e o seu papel no BPN. Ao contrário dos contribuintes, que vão pagar cerca de 8 mil milhões de euros por causa das tropelias e das ilegalidades dos gestores da SLN/BPN, Rui Machete ganhou dinheiro com o BPN e foi presidente do Conselho Superior da SLN Valores. Ele é aliás o símbolo da total irresponsabilidade deste governo. Os papéis da embaixada dos Estados Unidos da América revelados pelo Wikileaks mostravam que os responsáveis da diplomacia de Washington consideravam pelo menos controversa, para ser diplomático, a sua gestão dos dinheiros da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). O embaixador dos EUA escrevia de Machete : "Continua a gastar 46% do seu orçamento de funcionamento nos seus gabinetes luxuosos decorados com peças de arte, pessoal supérfluo, uma frota de BMW com motorista e custos administrativos e de pessoal."
Depois de pedir recentemente desculpas diplomáticas por causa das investigações do Ministério Público português, veio a saber-se que o escritório em que esteve Machete faz a defesa de alguns dos investigados, o que torna as declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros mais graves. Apesar desta verdadeira tempestade, o inquilino de Belém continua mudo em relação ao mundo real e passeia- -se na Suécia a pregar a brilhante recuperação da economia nacional. Em qualquer outra função, isso exigiria um imediato controlo para substâncias alucinogénias. Aqui é motivo de bocejo.
Este clima de impunidade só é possível devido à legitimação que estas práticas recebem dos habituais intelectuais orgânicos e comentadores do regime. Eles querem que seja considerado normal que a lei não seja igual para todos. Defendem que a lei e a Constituição só são para cumprir quando isso for do "interesse geral", definindo os poderosos e os seus propagandistas de turno esse interesse, que se confunde sempre com a defesa das suas manigâncias. Não é de surpreender, portanto, que gente como Teresa de Sousa escreva que os juízes do Tribunal Constitucional "vivem fora do mundo e se acham com o direito de interpretar a Constituição como se nada mais existisse à face da Terra". Qual foi uma das duas palavras que ela não entendeu: "Tribunal" ou "Constitucional"? Como em qualquer parte do mundo, os tribunais constitucionais servem para averiguar se as leis respeitam a Constituição. Só isso. E ninguém pode estar acima da lei.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Eu sou masoquista
Texto de Bruno Proença hoje publicado no "Diário Económico"
O Presidente da República afirmou, a partir da
Suécia, que está surpreendido que em Portugal existam analistas e
políticos que digam que a dívida pública não é sustentável, para mais
quando os credores - Comissão Europeia, FMI e BCE - dizem o contrário. E
Cavaco Silva acrescentou: "Só há uma palavra para definir essa atitude:
masoquismo". Pois bem, eu assumo: sou um desses masoquistas. Vamos aos
factos e aos números.
Primeiro, infelizmente, os credores não
acreditam que a dívida pública portuguesa seja sustentável. Basta ouvir
as declarações dos representantes oficiais do FMI ou do Banco Central
Europeu para perceber que estão preocupados com a subida galopante do
endividamento estatal. Recordem-se as palavras de Abebe Selassie, antigo
responsável da missão do FMI em Lisboa, veja-se a classificação das
agências de ‘rating' que mantêm a dívida no "lixo" e, por fim, os juros
nos mercados internacionais continuam muito acima do sustentável. Se os
credores tivessem confiança na capacidade de Portugal pagar os seus
créditos, não pediam taxas de juro perto de 7%. Na verdade, a dívida
pública nacional é mais assunto de especuladores do que de investidores
institucionais estrangeiros.
Agora, os números. Há diversos
critérios para medir a dívida pública, mas em nenhum deles Portugal
aparece bem na fotografia. Segundo o último boletim da execução
orçamental do Governo, o ‘stock' da dívida directa do Estado atingiu
207,4 mil milhões de euros em Agosto, isto significa mais de 120% do PIB
- passou de 108% em 2011 para 124% no ano seguinte. Por outras
palavras, toda a riqueza criada num ano em Portugal não chegam para
pagar o endividamento acumulado pelo Estado.
Mas ainda mais
grave, Portugal não tem capacidade para aguentar o custo anual com a
dívida, por isso é que é insustentável. É uma bola de neve em movimento.
Desde logo, porque as contas do Estado continuam a registar défices
anuais que têm de ser financiados com mais crédito, por isso a dívida
pública continua a crescer. No mínimo, o Governo devia conseguir um
saldo primário positivo - saldo das contas públicas descontando os juros
e o serviço da dívida - mas depois de dois anos de intervenção externa
ainda estamos longe disso. Depois, o País não cria riqueza para pagar a
dívida. Mesmo no próximo ano, com a economia fora da recessão, o
crescimento económico será inferior aos juros associados à divida
pública - o PIB nominal será inferior aos juros médios da dívida
pública. Enquanto a realidade for esta, o endividamento estatal é
insustentável, com ou sem masoquismo.
Cavaco Silva devia ser o
primeiro a dizer a verdade aos portugueses. Meter a cabeça na areia não
resolve os problemas. O Presidente da República devia fazer pressão para
melhorar as contas públicas. A mensagem de Belém devia ser outra:
masoquismo é falar em segundo resgate e perdão de dívida. Isto sim
assusta os credores e potenciais investidores. Ou seja, a dívida pública
como está é insustentável mas ainda é possível encontrar soluções
benignas que evitem a catástrofe de forçar um perdão como aconteceu na
Grécia. Quem anda a gritar "não pagamos" ou sempre a falar na
reestruturação de dívida está de facto a prestar um mau serviço ao País.
O caminho é estreito e difícil mas ainda vamos a tempo de
garantir um programa cautelar junto da Comissão Europeia e do BCE. O
primeiro passo será o Orçamento do Estado para 2014 que deve ser
realista e mostrar que o Estado caminha seriamente para um excedente
primário. Isto é árduo. Vai obrigar a reduzir a despesa pública e a
fazer a reforma do Estado - a mãe de todas as reformas de que todos
falam mas ninguém quer fazer.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Residente da República
Este regime constitucional está agonizante: a Assembleia da República, sede da democracia, abastardou-se, os governantes mentem todos os dias, o povo tem sede duma justiça que nunca chega. O representante máximo do sistema, Cavaco Silva, já não exerce as suas funções presidenciais.
terça-feira, 23 de julho de 2013
Salvação nacional
A austeridade que nos impingiram é socialmente insuportável, injusta e está apontada aos alvos errados. O Estado português tem de pôr as contas em dia.
domingo, 14 de julho de 2013
Insustentáveis
Texto de Pedro Marques Lopes hoje publicado no "Diário de Noticias".
1-
Cavaco não se importou que este Governo demonstrasse a sua
incompetência a toda a hora, conviveu calmamente com a profunda
impreparação, suportou o deslumbramento ideológico e a ignorância, mas
não aguentou ser humilhado e chantageado pelos líderes da coligação.
Enquanto foi com o País, o Presidente aguentou, quando lhe tocou a ele, a
conversa foi outra e acabou a confiança. Digamos que se esperava bem
mais de Cavaco Silva. Mas, convenhamos, nem este presidente, disposto a
tudo para não exercer as suas funções, poderia pactuar com o lamentável
espectáculo das últimas semanas. Nem o mais inconsciente dos presidentes
teria mantido a confiança nos presidentes dos partidos da coligação.
Passos
e o ex-político Portas são tão credíveis e Cavaco Silva confia tanto
neles que aquela espécie de golpe de Estado, em que um partido com 12%
dos votos passava a governar o País sob o olhar de um primeiro-ministro
que passaria a ser um rei das Berlengas com residência em São Bento, não
lhe mereceu uma palavrinha que fosse.
Como é que o Presidente
quer que CDS, PSD e PS façam um acordo, ou seja, que confiem uns nos
outros quando ele próprio não tem o mínimo de confiança nos líderes dos
dois partidos da coligação? Que parte do "vocês estão a mais" Passos e
Portas não perceberam?
2- Parece, porém, que Passos e Portas não perceberam que o Presidente não confia neles e nem quer ouvir falar do take-over
do Governo pelo CDS. O primeiro-ministro, aliás, confessou no debate do
Estado da Nação que ainda tem de interpretar "aquilo", leia-se o
discurso do Presidente da República. Talvez fosse por isso que repetiu
que tem um mandato e quer cumpri-lo, esquecendo que Cavaco já lhe tinha,
pelo menos, cortado um ano.
Já Portas, o politicamente
incompatível, ou pelo seu óbvio problema em entender o significado das
palavras ou por estar irritado por lhe terem estragado a barganha,
insistiu. Disse, no seu discurso, que a remodelação proposta era a
solução para todos os problemas de coesão governamental. Só faltou mesmo
dizer que ele e Passos beberam alguma coisa que lhes tinha finalmente
feito ter sentido de Estado.
Talvez por estar a ver que Passos e
Portas, o que obedece à sua consciência, não teriam percebido a parte
do discurso em que demonstrava que já não contava com eles, talvez por
não estar a gostar do espectáculo degradante que estava a ser levado à
cena no hemiciclo, em que um ex-ministro demissionário ou ex-futuro
vice-primeiro-ministro ou actual ninguém sabe o quê discursava,
ex-futuros ex-ministros sorriam como se nada fosse, ex-futuros ministros
fantasmas pairavam sobre a sala e um primeiro-ministro reafirmava o
sucesso da sua política sem sequer sorrir, o Presidente da República fez
um comunicado durante o debate do Estado da Nação ordenando aos
partidos que se despachassem. Mais, lembrou que transmitiu aos líderes
dos partidos quais eram os elementos que deviam ser tomados em conta.
Comunicar
aos partidos àquela hora que tinham de chegar depressa a um acordo e
quais eram os elementos que deviam ter em conta foi como dizer que o que
se estava a passar na Assembleia era uma perda de tempo e que ele, e
não os partidos, é que sabia o que estava em causa.
3-
Cavaco tinha razão: aquele debate foi uma perda de tempo. Como também é
uma perda de tempo o que ele está, tarde e a más horas, a tentar fazer.
Promover um acordo de regime com estes interlocutores, neste momento,
já não faz sentido. É inútil repetir que a perda de credibilidade em
Passos e Portas é total, que a falta de sentido de Estado dos dois é
chocante. É inútil voltar a lembrar o desastre das políticas. É inútil
recordar a carta de Gaspar, a demissão de Portas, a sucessão de
trapalhadas. É demasiado evidente que este Governo já não governa,
apenas estrebucha e que não há remodelação que o regenere.
Claro
que o Presidente sabe que um acordo com esta gente é impossível, que
manter o País onze meses em campanha eleitoral é insustentável, que
Seguro não pode aceitar nenhum tipo de acordo, que o resgate ou outro
nome que lhe queiram dar é inevitável. Cavaco está apenas a fingir que
acredita num acordo para que possa marcar eleições antecipadas agora
dizendo que tentou tudo.
Sim, fazer já eleições é uma péssima
solução, mas é a melhor de todas. A que permite limpar o ar, a que
permitirá montar uma solução de consenso com alguma credibilidade, sem
estes líderes, portanto.
Governo fora de prazo
Texto de José Mendes hoje publicado no "Jornal de Noticias".
Se o Governo fosse um produto transacionável, a ASAE já o teria
removido das prateleiras da democracia e responsabilizado os partidos da
maioria parlamentar que o suportam. Apesar de um prazo de validade
nominal de quatro anos, este "produto" começou a dar sinais de
degradação ao fim de apenas um ano, acabando por apodrecer ao fim de
dois, isto é, apenas a meio do prazo.
Na linha da deriva populista e irrefletida que norteou o período pós-eleitoral de 2011, o primeiro-ministro desenhou um Governo de orgânica minimalista, com apenas 11 ministros. A gestão de um país num mundo moderno, onde os tempos são difíceis e os problemas complexos, exige equipas de dimensão adequada. Por exemplo, o Governo finlandês, que tomou posse também em 2011, tinha 19 ministros. Como seria de esperar, o Governo tornou-se numa máquina enferrujada, quase paralisada. Qualquer principiante teria percebido que não se faz um Governo com menos de 15 ministros.
A missão - governar - inscreve-se sempre no quadro de uma visão e de uma orientação ideológica. Sabia-se da predileção de Passos Coelho pela linha mais liberal do tipo "quanto menos Estado, melhor". A este pressuposto acresceu uma crença inamovível nos méritos da austeridade extrema, uma espécie de trilho perfeito ao longo do qual a economia afundaria por um tempo curto, tudo o que era ativo tóxico (empresas, instituições, pessoas) desapareceria e, na sequência, uma esplendorosa primavera, aí pela metade do mandato, daria vida a uma robusta recuperação, com os mercados e a Europa ajoelhados ao milagre português.
Assim não foi, como qualquer economista médio anteciparia, porque não há crescimento sem investimento. O primado das finanças sobre a economia imposto pela dupla Gaspar-Coelho resultou no decréscimo do PIB, no aumento dos impostos, do desemprego e da dívida, no descontrolo do défice e, por fim, na constatação de que as yields não desceram após todo este esforço. O Governo falhou na missão.
A liderança, corporizada pelo primeiro e pelos restantes ministros, deixou dúvidas desde o primeiro dia. Entregar megaministérios a governantes inexperientes, sem peso político para se imporem perante os pares e sem o conhecimento necessário para trabalharem com os atores da sociedade e da economia é, naturalmente, erro de principiante. Mas o melhor diagnóstico deste elenco ministerial foi a imagem derrotada e acabrunhada da bancada do Governo no debate do estado da Nação de sexta-feira. Ministros que não se olhavam, um ministro demissionário que ao que parece tinha já arrumado o gabinete, outro que tem guia de marcha para ser substituído, outra que poderá ver o seu Ministério partido a meio, enfim, uma vergonha para a nossa democracia.
A ASAE é, neste caso, o presidente da República. E, ao contrário da atenta e diligente ASAE da vida real, Cavaco Silva foi dando espaço a um produto em decadência, ao ponto de, quando finalmente a podridão se manifestou de dentro para fora, ver o seu espaço de manobra muito limitado. O caminho, por muito que custe ao presidente, será fatalmente uma eleição antecipada, quanto antes, melhor.
Porque em democracia não há artifício político que contorne o sufrágio. Tem consequências na execução do plano de assistência? Certamente que sim. Mas se há dois anos foi possível juntar as três principais forças políticas e negociar um memorando com a troika num quadro de eleições antecipadas, não vejo por que razão não se pode agora renegociar o programa de ajuda, envolvendo as mesmas forças, partindo para um ato eleitoral que nos traga um Governo mais capaz.
Vale aqui recordar o famoso artigo de Cavaco escrito em 2004, no qual recuperou a lei de Gresham para estabelecer o paralelo entre a má moeda que expulsa a boa moeda e os políticos incompetentes que expulsam os políticos competentes. O professor alertava à data para a necessidade de inverter este efeito. Pois bem, esta é a hora de, na primeira pessoa, o agora presidente protagonizar aquilo que no passado defendeu: substituir o mau produto, fora de prazo, por um outro com validade.
terça-feira, 2 de julho de 2013
O presidente da República
Texto de António Marinho e Pinto, ontem publicado no Diário Económico.
Constitucionalmente, o presidente da
República desempenha um papel extraordinariamente relevante no nosso
regime democrático. Ele é o garante da independência nacional, da
unidade do Estado e do regular funcionamento das instituições
democráticas. O presidente da República é, de acordo com a nossa
Constituição, o primeiro órgão de soberania, logo seguido pela
Assembleia da República, Governo e tribunais. A natureza
semipresidencialista do nosso regime não deixa, contudo, de lhe conferir
competências de um verdadeiro líder político do povo português. O papel
que a Constituição reserva ao PR assume uma importância ainda maior nos
momentos de crise em que a confiança nas instituições democráticas e a
credibilidade dos agentes políticos se desvanece.
As várias
gerações de titulares de órgãos de soberania, que ao longo das últimas
décadas se fizeram eleger ou designar para as respetivas funções, não só
não souberam evitar a crise como não foram capazes de criar condições
para que ela fosse encarada e ultrapassada com dignidade. Constitui uma
inominável vergonha nacional que Portugal, o mais antigo Estado-Nação da
Europa, esteja hoje, por vontade de alguns partidos, reduzido ao
estatuto de um protetorado, governado de facto por um triunvirato de
instituições internacionais não democráticas. Mais do que a sua
independência política e económica, Portugal perdeu, de facto, a sua
dignidade de país soberano.
Talvez em nenhum outro momento da
nossa história quase milenar o povo português se tenha sentido tão
derrotado como agora. Talvez em nenhum outro período da nossa história
coletiva tenha havido tão pouca esperança no futuro como agora. As
nossas elites - os nossos melhores - venderam-se e nesse ato de
degenerescência moral alienaram também o que de melhor havia neste povo
de marinheiros: a coragem para enfrentar as grandes adversidades, a
força para vencer adamastores e mostrengos, a capacidade, em suma, de,
nos piores momentos, gerar esperança e confiança no destino coletivo.
Há
menos de 30 anos, prometeram-nos com cerimoniais grandiloquentes uma
Europa do progresso e do bem-estar; uma Europa da cidadania; uma Europa
da solidariedade. Tudo isso nos foi garantido com a pompa e a
circunstância com que ao longo da história se enfeitaram as grandes
mentiras coletivas. Esse projeto grandioso nasceria aqui neste
território há mais de quatro mil anos dilacerado por sangrentas guerras
civis e que, por egoísmos nacionais, gerou algumas das maiores
catástrofes da história da humanidade.
Eu, que fui, na dimensão
dos meus mundos pessoais, um cidadão entusiasmado com esse ideal
helenista, deixei há muito de acreditar nessa mentira e, hoje, quase
sinto vergonha de ser europeu. Essa Europa, renascida das cinzas da
guerra mais devastadora de sempre, que nos prometeram de paz e de
prosperidade, está hoje novamente dilacerada por uma outra guerra entre
os seus vários egoísmos nacionais, em que o papel outrora pertencente às
espadas, tanques e canhões é agora desempenhado pelo dinheiro e pelos
antagonismos tribais que ele gera e exacerba.
Neste contexto,
muitos portugueses olharam para o presidente da República como um líder à
altura das melhores tradições de um povo digno e independente.
Esperavam dele uma postura de primeiro magistrado do país, capaz de
despertar o que há de mais genuinamente português na alma de cada
português e de mobilizar este povo para as gigantescas tarefas de
reconstrução (da identidade) nacional.
Mas não, o que o atual
presidente da República nos oferece é a postura de um ajudante do
Governo tentando dourar as pílulas com que anestesiam as frustrações do
nosso descontentamento coletivo. O que o presidente da República nos
oferece são promessas vagas e longínquas de ilusões historicamente
irrealizáveis porque, entretanto, deixaremos de ser povo, Estado e
Nação. Identificado politicamente com a agenda ideológica dos partidos
do Governo, o PR não exerce o cargo com lealdade constitucional, mas sim
com subserviência em relação a essas lideranças partidárias.
Triste
sorte a de um povo cujo dirigente máximo opta por ser pequeno
precisamente no momento em que a história lhe oferece as condições para
ser grande e, sobretudo, para despertar a grandeza moral do povo que
lidera.
terça-feira, 14 de maio de 2013
Uma semana negra
Texto de Mário Soares hoje publicado no "Diário de Noticias".
"Vamos de mal a
pior: a caminho da desgraça absoluta, se não houver uma mudança de
política. A austeridade só serve os mercados usurários e a troika,
criando cada vez mais de-sempregados e o empobrecimento geral, com as
exceções conhecidas dos adeptos do Governo, porque esses vivem bem.
A nossa pátria está a ser destruída aos poucos mas sistematicamente, como
a maioria esmagadora dos portugueses já percebeu, a começar pela fina
flor do PSD e do CDS-PP, isto é, os mais conhecidos e respeitados. Como,
por exemplo: Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, António Capucho e
Rui Rio ou, do CDS-PP, Pires de Lima e Bagão Félix, sem esquecer a
maioria dos autarcas, como se viu agora com o insuspeito Carlos Abreu
Amorim, dado que não brincam quando as eleições se aproximam...
O
Governo Passos Coelho está moribundo, como toda a gente já percebeu.
Paralisado, sem rei nem roque nem qualquer estratégia coerente. Como é
sabido, o poder efetivo depende do ministro das Finanças, Vítor Gaspar,
um economicista fanático, que não é venal (ao que dizem) mas desconhece
em absoluto as pessoas e o País em que nasceu. Só sabe de contas e
cifrões. Não é ministro das Finanças, quando muito ministro do
Orçamento!
Vítor Gaspar e Passos Coelho são uma dupla que se
completa e impõe. Paulo Portas, líder do segundo partido da coligação,
tem sido humilhado de várias formas. Basta dizer que é a terceira figura
do Governo e não a segunda, como seria normal. Às vezes, parece querer
impor-se, como aconteceu na semana passada. Puro bluff. O discurso que
proferiu, com exigências ligeiras, não serviu para nada. Traçou uma
linha vermelha que afinal não respeitou. Passos Coelho, meteu-o na ordem
e humilhou-o de novo, no próprio Parlamento, para que ficasse claro.
Tirou-lhe o tapete. Porque a ameaça de chantagem feita, discretamente,
por Passos Coelho paralisa Portas.
Assim é a vida, com outras - e
grandes - dificuldades com um Governo em que os ministros não se
entendem entre si. Uns são discretos e não falam; outros não, como o
ministro da Economia, que fala pelos cotovelos, mas ninguém o ouve, a
começar por Gaspar e Coelho...
Contudo, o senhor Presidente da
República reafirmou, publicamente, a legitimidade do Governo Passos
Coelho e Vítor Gaspar, depois de os ter ouvido, secretamente, num dos
momentos mais agudos da crise. Aceitou a austeridade que, como está
provado, mesmo na Europa, só leva à desgraça. Os portugueses não
gostaram nada dessa atitude e a sua popularidade, que já era muito
baixa, parece ter ficado ainda pior. É certo que as sondagens valem o
que valem... Mas a que foi publicada no Expresso de sábado último veio
revelar aos portugueses que a popularidade do Presidente se tornou
negativa, abaixo de zero, menos 1,2%. O que a ser verdade representa um
recorde nunca visto antes, que tem a ver, infelizmente, com a cólera do
povo - que já o tem vaiado, como aos ministros - e que se vai expressar,
de novo, na manifestação que ocorrerá, junto ao Palácio de Belém, no
próximo dia 25.
Seria bom que o senhor Presidente da República
refletisse e fosse bem aconselhado, porque os próximos tempos vão ser
cada vez mais duros. Não se esperam do Presidente palavras, mas sim
ações. Desista da austeridade e não apoie um Governo que o povo abomina -
até os banqueiros e grandes gestores - e que segundo a última sondagem
vale 25,4% de popularidade negativa.
Agora, convocou um Conselho
de Estado para o período "pós- troika" quando se admite um segundo
resgate... Note-se que se trata de um Governo insuportável, que em nome
de uma troika qualquer está a destruir um grande povo, como o português,
a nossa democracia e põe em causa a Constituição (que o senhor
Presidente jurou) e tem vindo a desrespeitar, pela segunda vez, o
Tribunal Constitucional, com projetos de Orçamento inconstitucionais.
Não seja cúmplice - ou pior, protetor - de um tal Governo. Tenha a
coragem de o demitir, que o povo - e todas as classes sociais -
agradecer-lhe-á. É Portugal e o patriotismo do nosso grande povo que
estão em causa, e com isso não se brinca.
De resto, o Governo, em
dois escassos anos, só cometeu erros sobre erros e disse disparates. Não
ouve ninguém nem dialoga sequer com os parceiros sociais, detesta os
sindicatos - seja a Inter seja a UGT - e tem em mira destruir o Estado
social. O primeiro-ministro fala, mas decide o que lhe diz Gaspar, sem
consultar ninguém e muito menos dialogar com os partidos da oposição e o
seu próprio partido. Procede como um déspota, sem prestar contas a
ninguém.
Por isso, quando celebrou os 39 anos de existência do
PSD, no jantar que promoveu, contou apenas com umas escassas dezenas de
militantes presentes. Todos os antigos líderes do PSD e os mais
conhecidos dos seus militantes primaram pela ausência. Nem isso o
impressionou? Daí que não seja um democrata e que tenha em vista a
destruição da nossa democracia e, com ela, a Constituição da República.
Este Governo tem de desaparecer. É absolutamente essencial para que
Portugal não caia no abismo, que o ameaça.
Como de costume, não se
conhece ainda o Orçamento Retificativo que vai apresentar ao Tribunal
Constitucional, depois de ter sido recusado, pela segunda vez, como
anticonstitucional. Mas conhecem-se os cortes que vão ser aplicados aos
funcionários e aos pensionistas, mesmo os idosos. Há hoje mais 30 mil
funcionários públicos a despedir, que se acrescentarão aos mais de 420
mil trabalhadores do sector privado que com este Governo já cessaram
funções por despedimento. É intolerável o roubo das pensões e uma
vergonha, que tem de ser denunciada em todos os tons. Quem pode ter
consideração por gente desta, ministros e secretários de Estado?
Pensarão
eles que vão passar impunes, porque a nossa justiça é lenta e protege
os ricos, mesmo que sejam provadamente gatunos, como todo o País sabe?
Um
dia chegará - mais cedo do que tarde - em que tudo mudará na política,
nas finanças e sobretudo na ética, para bem de Portugal e dos
portugueses. Porque a Europa está toda ela em crise e não vai deixar-se
cair no abismo. Seria o primeiro passo para um novo conflito
internacional. O neoliberalismo está a desacreditar-se e a globalização
desregulada também. Oiça-se o Papa Francisco, que denunciou o
neoliberalismo, a política de austeridade e a falta de solidariedade com
os pobres. Atrás de tempo, tempo vem. Atue-se enquanto não há
violência.
Senão, não. Sempre foi assim..."