Esta transcrição é algo que nunca se pensou ser possivel neste blogue. Dar razão e promover a palavra de Pacheco Pereira? Nunca, jamais, seria impensável tal acontecer mas, neste caso, merece mesmo destaque e promoção. É caso para dizer que "se até já houve quem visse um porco a andar de bicicleta" ...
Texto de Pacheco Pereira hoje publicado no jornal Publico.

Na verdade, estou farto de exibições de confrangimento público e exercícios de “preocupação social”.
Eu gostaria muito de escrever artigos racionais, ponderados, que
merecessem uma aura académica e sensata, que unissem em vez de dividir,
que me permitissem ter a minha quota de lugares, prémios e prebendas,
mas estou condenado, nestes tempos, a escrever cada vez mais panfletos.
Acontece. Isto do imperativo categórico, como Kant sabia, é uma maçada.
Isso deve-se ao facto de
não querer ter nenhuma falinha mansa, daquelas que enchem o balofo da
nossa política de mútuos cumprimentos e salamaleques, com gente que se
mostra impiedosa por indiferença, hostil com os fracos que estão do lado
errado da “economia”, subserviente com os fortes, capaz de usar todos
os argumentos para dividir, se daí vier alguma pequena folga para as
suas costas.
Tenho dito e vou repetir: a herança que estes dois anos de “Governo” Passos Coelho-Portas-
troika vai
deixar ultrapassará muito o seu tempo de vida como governantes. Se não
for antes, em 2015, passarão à história como um epifenómeno dos tempos
da crise e sobreviverão incrustados nos partidos de onde lhes vem o
poder, como um fungo que não se consegue limpar. Vão continuar a
estragar muita coisa, mas a própria lógica de onde vieram os substituirá
por outros mais ou menos maus. A maldição portuguesa é esta. Aquilo que
mais precisamos, não temos.
Mas, mesmo que desapareçam como as
figuras menores que realmente são, vão deixar estragos muito profundos
no tecido já de si muito frágil da nossa vida colectiva, cavando fundo
divisões e conflitos, destruindo o pouco de humanidade social que algum
bem-estar tinha permitido. Eles estão, como as tropas romanas, a fazer
no seu Cartago, infelizmente no nosso Portugal, o terreno salgado e
estéril. Pode-se-lhes perdoar tudo, os erros de política, a
incompetência, o amiguismo, uma parte da corrupção dos grandes e dos
médios, menos isto, este salgar da terra que pisamos, apenas para obter
uns ganhos pequeninos no presente e com o custo de enormes estragos no
futuro.
Um exemplo avulta nos últimos dias, que já vem de trás,
mas que ganha uma nova dimensão: o ataque aos velhos por serem velhos,
uma irritação com o facto de haver tanta gente que permanece como um
ónus para o erário público apesar de já não ser “produtiva”, de não ter
saída no “mercado do trabalho”, de estar “gasta”. De ministros que não
leram Camões e nem sequer sabem quem são os “velhos do Restelo”, a gente
que pulula nesse novo contínuo dos partidos e do Estado que são os
blogues, a umas agências de comunicação que são as Tecnoforma dos dias
de hoje,
boys e empregados de todos os poderes para fazerem na Internet e nos jornais o
sale boulot,
todos, de uma maneira ou de outra, atacam os velhos, por serem velhos.
Numa sociedade envelhecida, isso significa atacar a maioria dos
portugueses, em nome de uma ideia de juventude “empreendedora”, capaz de
fazer uma empresa do nada só com “ideias”, “inovação” e
design,
sem os vícios do “passado”, capaz de singrar na vida sem “direitos
adquiridos”, nem solidariedade social, imagem que tem o pequeno problema
de ser tão mitológica como a Fada dos Dentinhos.
Grande parte do
ataque a Mário Soares e a muitos que estiveram na Aula Magna foi feito
em nome de eles serem “velhos”, logo senis. Nem sequer é por implicação,
é dito com clareza, com o mesmo tipo de “argumentos” com que os
soviéticos enviavam os dissidentes para os asilos psiquiátricos porque
quem estivesse no uso normal das suas faculdades não podia deixar de ser
comunista. Aqui é o mesmo: só pode ser senil quem duvidar da bondade
das medidas do Governo, apresentadas como sendo a realidade pura,
inescapável, inevitável. Como pode estar bom da cabeça quem coloca em
causa a versão em “economês” da lei da gravidade? Só um louco. E se for
velho, é-se senil, ultrapassado, antiquado, mesquinho, por definição.
Não há outra maneira de explicar que haja velhos com tantas ideias
“erradas” sobre a bondade do nosso “ajustamento” e que sejam empecilhos
para os “jovens” brilhantes que o aplicam com vigor e sem vergonha.
Muito
do discurso contra os velhos, que começa, em bom rigor, cada vez mais
cedo, quando se perde o emprego e se fica “gasto” para o mercado de
trabalho, é um discurso que pretende ser utilitário no plano político, e
é isso que o torna moralmente desprezível. Destina-se a justificar o
violento ataque a reformas e pensões, a gente que trabalhou a vida toda,
e que ainda tem memória do que custou obter esses malfadados
“direitos”, resultado de “contratos” de “confiança” com o estado, tudo
coisas de velhos que estão a “roubar” aos mais novos do seu futuro.
Estão a mais. E se eles não percebem que estão a mais a gente vai
mostrar-lhes pelo vilipêndio e pelo saque que já há muito deveriam ter
desaparecido.
Muita coisa tem hoje a ver com esta demonização da
idade. Um caso entre muitos, é o que se está a passar com o despedimento
colectivo dos trabalhadores dos Estaleiros de Viana do Castelo. Nem
sequer discuto se a empresa tinha que encerrar ou não, porque a partir
de um certo nível de dolo e degradação da linguagem esse não é o
primeiro problema. Podia ser, mas com esta gente não é, porque, ao
fazerem as coisas como fazem, sempre obcecados em enganar-nos, merecem
que contra eles se volte tudo, o discurso empolgado dos “navegadores” e a
retórica do “mar”, ao mesmo tempo que se fecha o único estaleiro que
sobrava, a disparidade de não querer pagar 180 milhões de euros,
enquanto se aumenta a taxa para a RTP, que recebe todos os anos muito
mais do que isso, a displicência com que se apresenta como grande
vitória, mais de 600 despedimentos.
Acresce a soma de mentiras
habituais: que 400 trabalhadores vão ser reintegrados (afinal não há
nenhuma garantia), que vão ser pagas as devidas indemnizações (afinal
parece que só a parte deles), que vai continuar a construção naval
(quando não custa perceber que o que a Martifer vai fazer não são
navios). O que vai acontecer é um enorme despedimento colectivo feito
pelo Estado, o encerramento dos estaleiros à construção naval, o preço
de saldo para a Martifer após o Estado, como no BPN, pagar todos os
custos. E, na vaguíssima hipótese de alguns trabalhadores serem
empregados na nova empresa, serão sempre poucos, com salários mais
baixos, com uma folha de antiguidade a zero, e ficarão de fora os mais
velhos e os mais reivindicativos. Alguém vai contratar um membro da
comissão de trabalhadores, mesmo que seja um excelente soldador? Como
muita da mão-de-obra dos estaleiros já tem uma certa idade – os velhos
começam a ser velhos aos quarenta –, está-se mesmo a ver a sua
“empregabilidade”.
Não custa fazer o discurso politicamente
correcto de que a “esquerda não tem o monopólio da sensibilidade social”
(e não tem), nem dizer aqueles rodriguinhos do costume do género “que
bem sabemos como os portugueses estão a sofrer”, ou que “nenhum Governo
gosta de tomar estas medidas”, ou elogiar os portugueses pelo seu papel
“decisivo” no sucesso da aplicação do “ajustamento”, etc., etc. Na
verdade, estou farto de exibições de confrangimento público e exercícios
de “preocupação social”, já não posso ver a hipocrisia de Passos Coelho
e de Aguiar Branco, ao lado do exibicionismo pavoneado dos
soundbites de Portas.
Swift escreveu em 1729 uma sátira sobre a pobreza na Irlanda chamada
Uma
modesta proposta para evitar que as crianças dos pobres irlandeses
sejam um fardo para os seus pais e o seu país e para as tornar um
benefício público. Aconselhava os pobres a comerem os filhos, como
meio de combater a fome, “grelhados, fritos, cozidos, guisados ou
fervidos”. Na verdade, quando se assiste a este ataque à condição de se
ser mais velho – um aborrecimento porque exige pagar reformas e pensões,
faz uma pressão indevida sobre o sistema nacional de saúde, e, ainda
por cima, protestam e são irreverentes –, podia avançar-se para uma
solução mais simples. Para além de os insultar, de lhes retirar
rendimentos, de lhes dificultar tudo, desde a obrigação de andar de
repartição em repartição em filas para obter papéis que lhes permitam
evitar pagar rendas de casa exorbitantes, até ao preço dos medicamentos,
para além de lhes estarem a dizer todos os dias que ocupam um espaço
indevido nesta sociedade, impedindo os mais jovens de singrarem na
maravilhosa economia dos “empreendedores” e da “inovação”, será que não
seria possível ir um pouco mais longe e “ajustá-los”, ou seja,
exterminá-los?