Texto de Manuel José Manuel Pureza hoje publicado no Diário de Noticias
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
A nebulosa e os seus facilitadores
sábado, 9 de novembro de 2013
OIT: um relatório oportuno
Texto de Carvalho da Silva hoje publicado no "Jornal de Noticias"
O relatório da Organização Internacional
do Trabalho (OIT) "Enfrentar a crise do emprego em Portugal",
apresentado no passado dia 4, em Lisboa, pelo seu diretor-geral (Guy
Rider), é, por múltiplas razões, de enorme importância para o nosso
debate social, económico e político e para a construção de alternativas
às políticas injustas e de retrocesso a que estamos sujeitos.
A
OIT, observando as políticas seguidas em Portugal e em outros países,
considera "a austeridade como ameaça à prosperidade" e assume que é
preciso trabalhar-se no sentido de garantir "melhores empregos para uma
melhor economia". A OIT assume historicamente que a pobreza e as
desigualdades são os grandes perigos para o caminhar equilibrado das
sociedades e que "só se pode fundar uma paz universal e duradoura com
base na justiça social". As questões do emprego têm de ser absolutamente
centrais na nossa sociedade.
Esta semana, ficamos a saber que no
último ano, enquanto os trabalhadores e o povo sofriam, houve um aumento
de 11% do número de ricos com fortunas pessoais acima de 25 milhões de
euros. Quanto desemprego, quantos milhões de portugueses foram roubados
nos seus salários, nos seus direitos sociais, nas suas pensões, para
engordar estes 870 portugueses?
O relatório da OIT não foi
produzido como ato isolado. O Grupo de Ação Interdepartamental sobre os
Países em Crise, responsável pelo relatório sobre Portugal, também está a
produzir relatórios sobre a situação da Grécia, da Espanha e da
Irlanda. A decisão da OIT de elaborar relatórios relativos a países
sujeitos a programas de "assistência financeira" foi tomada pelo
conjunto dos 51 países da Europa e Ásia Central que participaram, em
abril passado, na Cimeira de Oslo.
A OIT, desde 2009 - quando os
governantes ainda diziam que os responsáveis pela crise teriam de ser
castigados e que a especulação e o roubo institucionalizado tinham de
acabar -, vem desenvolvendo importantes iniciativas (como foi o Pacto
Global para o Emprego, em 2009), estudos e orientações que, se tivessem
sido seguidos, poderiam ter evitado o desemprego, o empobrecimento e o
sofrimento dos portugueses e de centenas de milhões de cidadãos em todo o
mundo.
É ridícula a sobranceria com que governantes e
comentadores de serviço encaram as recomendações, as propostas e a
disponibilidade de ação apresentadas pela OIT. Com quase um século de
atividade, a OIT, por variadas razões, é talvez a organização
internacional que mais prestígio e confiança granjeia à escala global.
O
que nos diz o relatório sobre Portugal? Que a nossa situação
socioeconómica é crítica, em reflexo das condições macroeconómicas
"excecionalmente apertadas" (a austeridade), e que "é necessária uma
nova estratégia", exequível "através da mudança para uma abordagem mais
centrada no emprego".
A OIT vem dizer que não é sustentável o
atual desemprego e que devemos combatê-lo; que o desemprego de longa
duração, a destruição de atividades e a situação criada aos jovens
comprometem o nosso futuro coletivo; que é irracional o país ter mais de
1/5 da sua população com vontade de emigrar; e que a "reestruturação do
setor público" da chamada reforma do Estado contribui diretamente para o
desemprego.
A OIT denuncia a injustiça das políticas fiscais e de
juros da União Europeia, que matam as pequenas e médias empresas e
enriquecem os acionistas dos grandes bancos. Incentiva-nos a combater a
brutal precariedade do trabalho, a aumentar o salário mínimo nacional e a
proteção social, a desenvolver a contratação coletiva e o diálogo
social sério. Propõe investimento na criação de emprego, em particular
para os jovens. E disponibiliza-se a trabalhar em Portugal, com respeito
pelas nossas instituições, para ajudar à resolução dos problemas.
Se
o objetivo das políticas não for o de bater recordes de criação de
milionários, se corrermos com a troika e os resgates que ela nos
receita, se soubermos interpretar o significado de o relatório ser
apoiado pelas centrais sindicais e pelas confederações patronais, se
despedirmos este Governo e criarmos uma alternativa credível, se
soubermos utilizar esta ajuda da OIT e outras que se podem encontrar,
ainda podemos ter futuro.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Os pobres que paguem a crise
Texto de Tomás Vasques hoje publicado no jornal I-online
Esta "nova crise", decorrente da anterior, teve início no princípio de 2010, depois dos socialistas gregos, recém-eleitos, terem denunciado falcatruas nas contas públicas, perpetradas pelos seus antecessores, que colocavam em causa a capacidade de pagamento das dívidas contraídas pelo Estado grego. Daí para cá, sob o comando dos conservadores alemães, chefiados pela senhora Merkel, começou um doloroso processo de desconstrução europeia - desconstrução civilizacional, democrática e económica. A "economia de casino" que até aqui nos conduziu, os desmandos e os crimes financeiros de banqueiros e correctores, dos Madoff e companhia, e à nossa escala, dos Oliveira e Costa e Rendeiro, tinham que ser pagos, até ao último tostão, com língua de palmo, e com juros avultados, por quem anda por cá mais a vegetar do que a viver. Mais: pagar as dívidas do Estado e recapitalizar os bancos, autores de todas estas "proezas". Apareceram, então, para sustentar o engodo, os slogans que sustentaram esta revolução invertida - a expropriação dos pobres para dar aos ricos: "viveram acima das suas possibilidades, agora têm de pagar", "não há dinheiro, qual das três palavras não perceberam", "é preciso baixar os salários ainda mais" e muitos outros do mesmo género. Não é por acaso que os principais defensores destas "ideias" do governo são banqueiros, como Fernando Ülrich ou o falecido António Borges.
Esta lógica imoral e infernal, segunda a qual os que menos têm, devem suportar os luxos dos que mais têm - numa estratégia premeditada, que Dante desconhecia quando escreveu "O Inferno" - tem levado a esta permanente expropriação de quem mais precisa: subsídios de natal e férias, salários, indemnizações por despedimento, reformas e pensões de sobrevivência, impostos e tudo o mais, deixando incólume as PPP, os contratos swap, as rendas à EDP e tudo o que esteja relacionado com os autores do grande crime: os bancos e o sistema financeiro. É este o governo que temos e não há no horizonte a menor brisa de mudança.
PS - Dizem que, depois da falência do Lehman Brothers, o mundo mudou, mas é mentira. Nada mudou a não ser a pobreza em que muitos milhões de cidadãos caíram. Um exemplo: realizou-se há dias uma feira de automóveis, na Alemanha. Entrevistado o vendedor de um automóvel em exposição, cujo preço ultrapassa largamente os salários de centenas de pessoas durante toda a vida, o vendedor declarou: "Claro que se vende. O cliente Bugatti tem em regra 32 carros na garagem."
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Residente da República
Este regime constitucional está agonizante: a Assembleia da República, sede da democracia, abastardou-se, os governantes mentem todos os dias, o povo tem sede duma justiça que nunca chega. O representante máximo do sistema, Cavaco Silva, já não exerce as suas funções presidenciais.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Os empresários portugueses e a "maminha" das tetas sagradas da vaca do Estado
Texto de João Lemos Esteves hoje publicado na edição online do "Expresso".
2. E depois quem paga a factura? Os portugueses, claro. Os cidadãos comuns a quem o Estado não dá "maminha. Pelo contrário: o Estado vive à "mama" do nível brutal de impostos que cobra a todos nós, sem que tenhamos qualquer contrapartida em termos de excelência dos serviços públicos prestados. Não só pagamos impostos, não só somos alvo de um verdadeiro confisco fiscal, como teremos de pagar mais para beneficiar dos serviços estatais de saúde e educação. Ele é impostos, ele é taxas, ele é contribuições especiais. Ao fim e ao resto, em Portugal, quase que se paga para trabalhar! Mas, claro, que vivemos todos à mama do Estado! O culpado da crise somos nós...claro que sim!
3.Claro que para Alexandre Soares dos Santos é muito fácil falar. Perante o confisco fiscal levado a cabo pelo Governo Passos Coelho, Soares dos Santos transfere o seu dinheirinho para uma conta off-shore e vai acumulando a sua riqueza. Muito bem: investiu, ganhou o seu lucro e agora disfruta desse lucro. A maioria dos portugueses também gostaria de ter o ordenado que recebem depois de um mês intenso de trabalho livre de impostos, gostava de acumular numa off-shore para depois viver à grande. Ou o Dr. Alexandre Soares dos Santos acha que os portugueses gostam de ser pobres? Eu próprio gostaria de mamar na mesma teta de Alexandre Soares dos Santos: ganhava o meu dinheiro, dava-me com todos os Governos, pirava-me com o dinheiro antes de pagar impostos. E depois pregava a moral de bom cidadão aos portugueses.
4. Pois, mas este Governo, que se diz liberal, a única política que consegue executar é a de aumento de impostos. Eu é que sou "mamado" pelo Estado. E, no fim do mês", Dr. Alexandre Soares dos Santos, a "vaca" não sou eu? A "vaca" das maminhas económico-financeiras não somos nós, portugueses comuns? Confirma-se: todas as vacas são iguais, mas umas são mais iguais do que outras...Para alguns, as maninhas do Estado dão, apenas, um pingo (muito) doce."
As tetas de Alexandre Soares dos Santos
Texto de Tiago Mesquita, publicado no seu blogue "100 reféns" no "Expresso"
"Sou a favor de manifestações que tenham conteúdo. Que no fim da passeata apresente alguma coisa. Não é com Grândolas Vilas Morenas que a gente resolve nada" - defendeu, durante a apresentação dos resultados da empresa em 2012. Pois não, é a levantar vinte euros no multibanco de cada vez que queremos gastar vinte cêntimos no Pingo Doce. Isso sim, é luta.
Ninguém estava à espera que a Jerónimo Martins anunciasse os resultados líquidos de 360,4 milhões de euros referentes a 2012 ao som de música de intervenção. Agora, seria expectável, até aconselhável, num ano em que quase todos os portugueses saíram a perder, que um (dos poucos) que saiu a ganhar - milionário - tivesse algum decoro ao falar de assuntos que lhe passam ao lado.
Com lucros destes, muito português guardava os vinis do Zeca Afonso no baú, pendurava a boina e ia viver para um paraíso qualquer. Fiscal ou não. Daqueles em que a sede do banco é uma cabana de colmo, o céu é azul, o mar é quentinho e onde até as palmeiras sorriem.
Não satisfeito, Soares dos Santos decidiu dar mais um conselho aos pobres. Aparentemente, também especialista em subsídios, provavelmente pelas muitas horas passadas à porta da Segurança Social, afirmou o senhor que "andamos sempre a mamar na teta do Estado". "Porquê, porquê?" - questionou indignado, quase irado, como se alguém lhe estivesse a ir ao bolso.
Ora bem, a propósito de "passeatas" e de "mamar do Estado", recordo a Soares dos Santos as seguinte notícias:
"Soares dos Santos muda participação na Jerónimo Martins para a Holanda - Os 56% que a família Soares dos Santos detém na Jerónimo Martins, dona da marca Pingo Doce, passaram a ser controlados indiretamente, através de uma sociedade com sede na Holanda. A operação deverá estar relacionada com o agravamento da tributação fiscal (...)". "Soares dos Santos garantiu que não tinham sido os impostos a levar a empresa para a Holanda. Admitiu, contudo, que poderá ter vantagens fiscais no futuro devido a esta alteração da holding que detém acções na Jerónimo Martins." Expresso e Negócios Online
Infelizmente, hoje em dia, nem todas as famílias podem tomar "opções". Continuam, em desespero, a ser ordenhadas pelo Estado até o leite sair em pó. Enquanto isso, os de sempre, com as tetas bem sedeadas na Holanda ou noutro país qualquer, para fugir à sede (e à sede!) do Estado português, que assim não pode mamar o doce pingo delas como desejaria, estão, a cada dia que passa, mais "afortunados" e, principalmente, mais moralistas e hipócritas."
domingo, 13 de maio de 2012
Advogado de Isaltino
Texto de Francisco Moita Flores, Professor Universitário, hoje publicado no "Correio da Manhã".
"O caso Isaltino Morais tornar-se-á um dos casos emblemáticos de como o sistema judiciário, à falta de melhor, se transforma em mito justicialista, com todas as fantasias que se geram à sua volta, prometendo-se grandes descobertas e grandes parangonas, prometendo-se espectáculo, tipo circo e feras, elevando expectativas de condenações onde já nem era Isaltino o condenado, mas nele, todos os políticos corruptos, porque ‘eles são todos iguais’.
Já há algum tempo fora arquivado por ausência de provas um desses monstruosos delitos por causa de urbanização na Aldeia do Meco. A coisa passou discretamente depois de um ruído monstruoso sobre as suspeitas. A seguir confirmaram uma sentença de dois anos de prisão efectiva, ainda passível de recurso, que ilustra melhor a farsa. Se alguém consultar as diárias decisões judiciais que se passam por esse país fora, são excepções aquelas que mandam para a cadeia pessoas com esta medida da pena.
Agora, o crime mais grave que lhe era imputado, o crime de corrupção, prescreveu. E chegados aqui, quando a montanha já pariu um rato, a versão oficial é de que a parição do rato se deveu às manobras do advogado de Isaltino. Quinze anos depois, descobriu-se o verdadeiro culpado: o advogado, cujo nome desconheço, é tão manhoso, tão matreiro, que destruiu a preocupação de todo o sistema judiciário em conduzir ao cadafalso maior o mais emblemático criminoso político do país.
O advogado, tipo Cristiano Ronaldo, fintou, pôs os olhos em bico à Justiça portuguesa. É claro que só os tontos acreditam nisto. Ora é exactamente para defender os direitos de um cidadão acusado que servem os advogados. Tal como é o Estado que acusa e tem de provar os factos. E todos têm prazos – polícias, acusadores e defensores, juízes pelo meio – para cumprir, pois não se pode perseguir eternamente alguém. Para se chegar à prescrição, ao fim de quinze anos, alguém não cumpriu os prazos e até pode não os ter cumprido por razões justificadas.
Porém, a culpa não é do advogado de Isaltino. Porque é o único a quem não se permite a dilatação dos prazos. Mas é assim o mundo da fantasia. Vai liquidando a vida das pessoas, é certo. Mas o escorrer do sangue está associado a todos os festins de barbárie. "
sábado, 28 de abril de 2012
Falta de decoro
Texto de José Eduardo Moniz hoje publicado no "Correio da Manhã"
"É indecoroso o que se passa com a eleição dos novos membros para o Tribunal Constitucional. O processo de escolha em curso só confirma que o peso partidário na instituição se torna cada vez mais indisfarçável. A questão já não é apenas conseguir que os partidos se entendam quanto a uma lista única. O problema assenta no facto de este episódio deitar por terra quaisquer veleidades que ainda existissem sobre a autonomia e independência daquele Tribunal.
Curiosamente, ainda ontem, na AR, o primeiro-ministro quis acentuar as reformas na Justiça como essenciais para as mudanças estruturais a operar na sociedade e na economia. Disse mesmo que "a Justiça tem de ser célere e estar ao serviço dos portugueses, além de dar exemplo de parcimónia". Quase humor negro na altura em que se assiste a um verdadeiro comércio de nomes em torno de interesses partidários num processo que abala a credibilidade do Constitucional e mina ainda mais o sistema judicial.
Ter a Justiça refém da política constitui uma ameaça à qualidade da democracia. No fundo, estamos perante a insistência na hipocrisia que levou à criação de um sem número de entidades e agências de supervisão supostamente independentes, mas que mais não são do que autênticos braços armados dos partidos dominantes em áreas importantes de actividade, com base num modelo que replica a proporcionalidade parlamentar. Portugal não será uma sociedade plenamente livre enquanto as coisas assim funcionarem.
Nesta semana em que se celebrou o Dia da Liberdade, quase passou despercebida uma afirmação relevante do governador do Banco de Portugal. Disse Carlos Costa que os bancos centrais estão a dar tempo aos políticos para se organizarem.
A declaração, aparentemente bondosa, traduz uma atitude paternalista e tutelar preocupante.
O sistema político não pode, ele próprio, independentemente dos erros e inépcias de governos, partidos e seus agentes, ficar refém de ninguém, muito menos da Banca e dos banqueiros, que estão longe de ser modelos de virtude e cujo contributo para a crise foi claro. No caso português, relembre-se a passividade do ex-governador Vítor Constâncio em relação aos delírios e derrapagens do consulado de Sócrates e a cumplicidade do nosso sistema financeiro com a situação que deu alimento às PPP, a projectos megalómanos como o aeroporto de Lisboa e o TGV, e a tantas outras iniciativas do género em que o interesse nacional e o privado se confundiram profusamente.
A democracia não vive em liberdade condicional. A necessidade desesperada de pôr em ordem as contas públicas não justifica tudo, nem avaliza enviesamentos que legitimem a subordinação da política ao poder económico.
Nestes tempos de incerteza, a solidez das instituições é crucial. Por isso, o que se passa com o Tribunal Constitucional não dá tranquilidade a ninguém. "
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Impunidade
Texto de Manuela Moura Guedes hoje publicado no "Correio da Manhã".
"Enquanto a Justiça for ajustada a cada cliente, tipo fato por medida, Portugal nunca será um país decente. É com total despudor que se passa por cima de princípios, regras e evidências, que os agentes do próprio Sistema mentem, fazem de conta ou dão explicações estúpidas para justificar atrasos, interpretações, arquivamentos e absolvições.
A sentença do caso Portucale é de estarrecer. Nada, mas mesmo nada o tribunal deu como provado, a não ser a versão pura dos "flagelados e inocentes arguidos". Três ministros, dias antes das eleições, consideraram de "imprescindível utilidade pública" o projecto turístico do Grupo Espírito Santo, autorizando o abate de mais de 2500 sobreiros, depois de dez anos de chumbos, e Abel Pinheiro foi apanhado ao telefone com um administrador do GES a dizer "fazendo as contas, nós metemos na mão [com decisões amigas] da sua gente mais de 400 milhões de euros nas últimas 3 semanas". Entre as suspeitas de financiamento ao CDS, ficou o processo dos submarinos, agora em águas paradas, depois de ciclicamente vir à tona conforme as conveniências políticas. Agora, é obviamente fase de pousio justificada com desculpas do PGR desmentidas pelo Ministério da Justiça. São nódoas que se estendem, enormes, para o Freeport, com catadupas de testemunhas a incriminarem Sócrates, que não foi acusado nem arguido, nem sequer ouvido e que continua a ser "Engenheiro" porque a Dra. Cândida Almeida se recusa a reabrir um processo que ela arquivou porque quis, tal como o Presidente do Supremo quis apagar as escutas do ‘Face Oculta’. O multifacetado professor António J. Morais, acusado de corrupção no caso Cova da Beira, está para ir a julgamento há ano e meio, mas continua a fazer a sua vidinha, tal como Dias Loureiro faz a sua e muitos outros ligados ao buraco de cinco mil e tal milhões do BPN. A lista é interminável porque se vai ajustando à medida das necessidades, tal como se ajusta a composição dos juízes do Tribunal Constitucional de acordo com as políticas de austeridade do Governo. O problema atravessa de alto a abaixo todo o Sistema, não é novo, e à força da repetição faz jurisprudência – a impunidade é lei. Mas um país que a aceita e nada faz para mudar, merece mesmo ser tratado abaixo de cão."
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Ambrósio
Texto de Paulo Morais hoje publicado no "Correio da Manhã".
"Mesmo com provas evidentes, os tribunais não conseguem, mais uma vez, apanhar os poderosos.
O sistema de Justiça absolveu Valentim Loureiro no caso da quinta do Ambrósio. Mesmo com provas evidentes, os tribunais não conseguem, mais uma vez, apanhar os poderosos.
Na Câmara de Gondomar, com a participação ou patrocínio de Valentim Loureiro, um terreno agrícola é adquirido por um milhão de euros. A classificação do solo é alterada e em seis dias o terreno é vendido pelos protegidos de Valentim por cerca de quatro milhões. Esta operação de tráfico de terrenos, caucionada pela câmara, gerou uma margem de lucro de 300 por cento.
Mas as vigarices não ficam por aqui. O terreno é adquirido a um preço exorbitante por uma empresa pública, a STCP, cujo presidente de então dependia organicamente de... Valentim Loureiro. Na posse do terreno, a STCP deixou-o ao abandono. Até hoje.
Chegado o caso a tribunal e ao fim de um longo processo com mais de dez anos (!), Valentim é absolvido.
Na leitura da sentença, o juiz veio declarar que a Câmara de Gondomar funciona como uma agência de intermediação imobiliária.
Mas não tira daí qualquer consequência. As razões da absolvição não se percebem. Mas serão uma de três: ou o crime julgado não foi bem identificado ou definido, o que será inadmissível; ou a acusação foi mal conduzida e estamos perante uma enorme incompetência do Ministério Público; ou o julgamento foi condicionado pela política.
Em suma: os amigos de Valentim compraram um terreno que Valentim, na câmara, valorizou; os amigos venderam a uma empresa pública gerida por outros amigos de Valentim e a um preço influenciado por este. Os amigalhaços ficaram milionários. "Foi sorte", diz ele. Sorte deles e azar nosso, dos contribuintes que pagamos esta fraude com o dinheiro dos nossos impostos.
Este caso tornou-se emblemático. Incorpora todos os ingredientes: autarcas, familiares destes, advogados ardilosos, fuga ao Fisco, empresas públicas mal geridas, urbanismo nada sério, tribunais incompetentes.
Perante esta política nauseabunda, Ambrósio, apetecia-me algo. Tomei a liberdade de pensar nisso. Talvez uma revolução."