Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

A revolução em marcha

Algo não bate verto no reino laranja.
Pedro Marques Lopes, conhecido propagandista do PSD, apresenta hoje no "Diário de Noticias" um forte texto contra Passos Coelho.

"Que o primeiro-ministro me aconselhe a não ser piegas, por eu pensar que ele com a inestimável orientação dos irresponsáveis líderes europeus está a conduzir Portugal para uma gigantesca catástrofe, é apenas uma tolice. Não estou desempregado, ganho mais do que a maioria dos portugueses e consigo sustentar a minha família. Serei então piegas, na opinião do primeiro-ministro. Eu e mais uns milhares que conseguem, com menos dificuldades, aguentar os sacrifícios impostos. Até poderia argumentar que a minha revolta não tem a ver comigo mas com os meus filhos, cujo futuro, sempre na minha opinião, o primeiro-ministro está a ajudar, e de que maneira, a hipotecar. Mas, se calhar, é só pieguice minha. Ficamos assim: o primeiro-ministro acha-me piegas e eu acho que ele disse uma tolice. Tudo jóia.

Já não me parece que os meus concidadãos que viram ser-lhes retirado 50% do décimo terceiro mês sem qualquer razão, os funcionários públicos que vão ficar sem dois salários, os pensionistas que descontaram toda a vida para agora lhes ser dito que foi em vão, os empresários que não encontram crédito para as suas empresas funcionarem, são capazes de não ter o mesmo fair play que eu. São mesmo capazes de se sentir insultados.

Também não me parece que os quase oitocentos mil desempregados, os pensionistas que sobrevivem com quatrocentos euros por mês, os que ganham o salário mínimo ou os afortunados que ganham a perfeita loucura de setecentos e cinquenta euros se sintam propriamente elogiados quando o homem que devia saber das suas terríveis condições de vida lhes dá uma virtual pancadinha nas costas e lhes diz para não serem piegas.

É que eles até são complacentes e portam-se bem. Sabem que trabalham mais horas que os outros trabalhadores europeus, que têm menos férias e que ganham menos, e não se queixam. Apesar de saberem que a culpa do actual estado de coisas não é deles, aceitam pagar os desmandos do sistema financeiro internacional, a incompetência e a falta de visão de quem esteve ao leme dos destinos de Portugal, a loucura das Merkels, Sarkozys e quejandos. Aceitam porque pensam que não há grandes alternativas, porque interiorizaram, certa ou erradamente, que a austeridade é inevitável.

Mas até poderíamos ser complacentes com o primeiro-ministro. Já sabemos que Passos Coelho tem pouco cuidado com as palavras. O problema é que na prelecção que proferiu "o menos piegas" não surgiu do nada. Veio, sim, abrilhantar um discurso prenhe de moralismo revolucionário. Desde casar o fim da tolerância de ponto no Carnaval com uma espécie de nascimento de homem novo de "comportamento aberto e competitivo", mostrando que quem critica a medida é "um agarrado ao passado" e quem a defende "tem ambição", passando pela lembrança de que quando a troika trabalhava os portugueses gozavam feriados como se isso fosse um sinal de "velhos comportamentos preguiçosos e demasiado autocentrados", até à acusação de que quem acha que a austeridade desmesurada nos levará a um beco sem saída quer "voltar para trás" e "gastar o dinheiro que Portugal não tem", sem que faltasse o épico-revolucionário "transformação de velhas estruturas", valeu quase tudo. Os velhos reaccionários contra os jovens revolucionários, os preguiçosos contra os trabalhadores, os que celebram um glorioso futuro e os que se agarram às velhas tradições.

A Passos Coelho só faltou mesmo exprimir claramente que, na sua opinião, as razões da crise que atravessamos são fruto da suposta preguiça e indolência portuguesa.

O "menos piegas" encaixou bem no discurso de quem pensa que é preciso destruir tudo, arrasar um modo de vida para depois construir um mundo novo em que os fortes e competitivos vencerão e os fracos chorarão na sua pieguice. Foi um discurso de um revolucionário, não de um reformador. Um discurso de um radical, não de um moderado. Um discurso de um líder de um partido qualquer, mas não de um partido social-democrata ou sequer de um liberal.

Ninguém negará ao primeiro-ministro legitimidade para impor o que acha melhor para o País e ninguém o pode acusar de, honesta e frontalmente, o não anunciar. O que talvez fosse conveniente é já em Março, durante o congresso do Partido Social Democrata, mudar o nome do partido. É que as palavras são importantes e ainda têm significado."

Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

O minúsculo País de Pedro Passos Coelho

O "Jornal de Negócios" publica hoje um texto de Nicolau do Vale Pais que, pela sua objectividade, merece ser aqui reproduzido.

É caso para dizer que o encanto de Passos Coelho começa a desvanecer-se e que mais e mais pessoas já o estão a ver como ele realmente é e no que quer transformar este pobre País.

"São afirmações usadas no limite da decência, as de Passos Coelho. Ironicamente só "um piegas" responsabilizaria um colectivo abstracto, "o povo", sobre o qual tem poder e responsabilidade, para encontrar desculpa para o fracasso de uma missão que é sua. A parte arrepiante é a forma como rapidamente se transforma o assunto em "fait-divers", sem que ninguém nos "media" tenha percebido (ou tenha querido perceber) o essencial; não importa o quanto Passos ofende ou deixou de ofender, ou se o fez, ou deixou de o fazer, "de propósito" - o essencial é que a culpa está entregue, e a água sacudida do capote. O País é o problema; a pátria possível de Passos Coelho passou ser a troika e dessa devoção dependerá, em última linha, a sua reeleição e, sobretudo, a sua desresponsabilização caso nos vejamos gregos. Mas não há que ficar surpreendido; afinal, quanto tempo levou o "país televisão" a pensar direito sobre Sócrates?

Depois da violência liminar rude do Socratismo, sem precedentes desde o Estado Novo, competia ao novo Governo quebrar com o ciclo enfermo do descrédito impensável a que tínhamos chegado, ao nível da credibilidade dos governantes junto do eleitorado. Muita da expectativa dos portugueses baseava-se na ideia de que a requalificação do papel do Estado na economia, nomeadamente através da diminuição da sua influência partidária directa e promíscua, pudesse relançar o tecido produtivo, com base em pressupostos mais liberais do que proteccionistas, mais democráticos do que populistas. Sucede que esta catrefa de intenções foi usada como um mero "slogan" publicitário, condenando-nos ao rápido desalento assim que figuras utilizadas para credibilizar pactos durante a campanha eleitoral - como Eduardo Catroga - começaram a cobrar os favores prestados. Os portugueses tinham expectativas legítimas, e votaram de acordo com elas; não foi o eleitorado que desiludiu.

José Sócrates precisaria sempre de se enganar a si e aos outros, pois a génese do seu sucesso dentro do próprio PS foi sempre uma mentira, alimentada pela venalidade obscena e pela arrogância surda e decadente das gradas figuras do Partido, prontas para trocar a ética por dinheiro, comerciando o ópio do sucesso; essa mentira começou no segundo governo de António Guterres e no assalto ao projecto (ou ao pacto) assumido nos Estados Gerais, às mãos dos mais obscuros perfis do Partido, de António Vara a José Lello. Já Passos Coelho não precisa de mentir a ninguém: quando se vê o País a sofrer e se é insensível ao ponto de largar "postas" como a da como emigração juvenil ou esta recente "boutade" sobre a pieguice nacional, estamos perante um caso de tecnocracia tão agudo, quanto vulgar. E quando se é um tecnocrata, está-se protegido da desilusão do eleitorado porque, precisamente, a tecnocracia se destina a reduzir toda a política à estreiteza de vistas dos seus fiéis executores, noção de "pátria" incluída. Pedro Passos Coelho é um tecnocrata proficiente, com raiz política num neo-liberalismo feroz, muito bem disfarçado pelo som melífluo da sua belíssima voz. Estamos perante um desastre de insensibilidade e inconsequência, disfarçado com pose de Estado; se há coisa que precisávamos era de confiança institucional, mas o Chefe do Governo decidiu esquecer-se que até mesmo um cão pode morder o dono, se este lhe der demasiados pontapés.

Seria de elementar humildade perceber que se o País fosse outro - porventura mais exigente, mais objectivo e lúcido por se encontrar melhor governado - o Sr. nunca teria chegado a primeiro-ministro. Mas não se preocupe: esse país, estamos a fazê-lo no espaço que nos sobra para lá dos Partidos e da hipocrisia. Sem pieguice, e com uma grandeza a milhas de qualquer promessa eleitoral."


* Nicolau Pais

Docente na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto
Consultor em desenvolvimento estratégico nas áreas da produção e comunicação.

Bio

Estudou Teatro no "Drama Center, London" entre 1996 e 1998.
Divide o seu tempo entre a actividade de docente na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto, e o trabalho de consultoria e desenvolvimento estratégico nas áreas da produção e comunicação.

Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

Os insustentáveis

Texto de Baptista Bastos hoje publicado no "Diário de Notícias"

" Aguiar-Branco chegou e disse. Na cara de generais, coronéis e afins, decretou que a tropa, tal como está, é financeiramente insustentável. A afirmação caiu mal, ainda por cima porque pressupunha a redução drástica de efectivos. É um sinal dos tempos. Desde que este Governo ascendeu ao poder, fomos sabendo, com sobressalto e resignação, que a pátria é insustentável. Na saúde, na educação, na assistência social, na justiça, na segurança, nos transportes públicos, na RTP, na RDP, nas pensões e nas reformas, sem a supressão dos subsídios de férias e do décimo segundo mês, com a manutenção da tolerância de ponto no Carnaval, a pátria não consegue sustentar-se a si mesma. Pergunta-se: então, como se aguentou, até agora? Com dívidas, golpadas, ardis e manigâncias?

Nesta teoria de "insustentabilidade", os próprios portugueses estão incluídos. O Governo não sabe o que fazer deles, e incita-os a emigrar, com o descaramento de quem é incapaz de solucionar o problema e assim dissimula a sua incompetência política e ética.

Mas as coisas complicam-se. E as decepções vão-se acumulando. A solidariedade parece estar desempregada na Europa. O imigrante é olhado de soslaio. Uma das facetas essenciais do neoliberalismo é reduzir a democracia às funções de "superfície" e estimular o individualismo. O "estrangeiro" é o inimigo. A possibilidade de escolha, apanágio das sociedades democráticas, dissolveu-se: não há oásis; o conceito de pluralidade transformou-se numa hostilidade que ronda a abjecção. O jornalista Noé Monteiro, correspondente na Suíça da RTP, foi o autor, no domingo, p.p., de uma pungente reportagem sobre portugueses que tentaram fugir à fome e à miséria e entraram num outro crisol do inferno. A Suíça, outrora acolhedora, embora áspera e burocrática, ela própria feita de politeísmo de culturas e de valores, é uma incerteza irredutível. O neoliberalismo impôs a normalização das estruturas e dos comportamentos. O mundo, hoje, é um lugar de vazio, de afronta e de desumanização.

Em Portugal, ameaçados pelas contingências de uma filosofia política que alastrou como endemia, os portugueses não sabem que fazer. Aliás, como as hesitações, as derivas e as perplexidades de quem nos governa. Esta gente quer-nos levar para aonde?

Parece que ninguém possui capacidade e talento para enfrentar a realidade circundante. "Todos somos culpados." A frase, utilizada por quem, realmente, é responsável, serve de encobrimento a uma experiência político-económica que deixou a Europa de rastos e promoveu a mediocridade como norma. O surgimento de Merkel e de Sarkozy pertence a essa lógica do absurdo, incapaz de resolver a complexidade criada pela sua própria irracionalidade.

Estamos num ponto da História em que todos somos "insustentáveis"."

Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Ambrósio

Texto de Paulo Morais hoje publicado no "Correio da Manhã".

"Mesmo com provas evidentes, os tribunais não conseguem, mais uma vez, apanhar os poderosos.

O sistema de Justiça absolveu Valentim Loureiro no caso da quinta do Ambrósio. Mesmo com provas evidentes, os tribunais não conseguem, mais uma vez, apanhar os poderosos.

Na Câmara de Gondomar, com a participação ou patrocínio de Valentim Loureiro, um terreno agrícola é adquirido por um milhão de euros. A classificação do solo é alterada e em seis dias o terreno é vendido pelos protegidos de Valentim por cerca de quatro milhões. Esta operação de tráfico de terrenos, caucionada pela câmara, gerou uma margem de lucro de 300 por cento.

Mas as vigarices não ficam por aqui. O terreno é adquirido a um preço exorbitante por uma empresa pública, a STCP, cujo presidente de então dependia organicamente de... Valentim Loureiro. Na posse do terreno, a STCP deixou-o ao abandono. Até hoje.

Chegado o caso a tribunal e ao fim de um longo processo com mais de dez anos (!), Valentim é absolvido.

Na leitura da sentença, o juiz veio declarar que a Câmara de Gondomar funciona como uma agência de intermediação imobiliária.

Mas não tira daí qualquer consequência. As razões da absolvição não se percebem. Mas serão uma de três: ou o crime julgado não foi bem identificado ou definido, o que será inadmissível; ou a acusação foi mal conduzida e estamos perante uma enorme incompetência do Ministério Público; ou o julgamento foi condicionado pela política.

Em suma: os amigos de Valentim compraram um terreno que Valentim, na câmara, valorizou; os amigos venderam a uma empresa pública gerida por outros amigos de Valentim e a um preço influenciado por este. Os amigalhaços ficaram milionários. "Foi sorte", diz ele. Sorte deles e azar nosso, dos contribuintes que pagamos esta fraude com o dinheiro dos nossos impostos.

Este caso tornou-se emblemático. Incorpora todos os ingredientes: autarcas, familiares destes, advogados ardilosos, fuga ao Fisco, empresas públicas mal geridas, urbanismo nada sério, tribunais incompetentes.

Perante esta política nauseabunda, Ambrósio, apetecia-me algo. Tomei a liberdade de pensar nisso. Talvez uma revolução."

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

Mais um mail de indignação que circula pela internet, este sobre as magnificas habilitações de Pedro Passos Coelho para ser gerir os destinos deste País.
Trata-se, afinal, de mais um produto dos partidos, mais um politico de carreira, com um percurso profissional tardio e em empresas de outros "companheiros" do partido.
A verdade é que não basta arranjar um diploma depois de beber uns quantos ensinamentos de economia neo-liberal para ficar a liderar um governo e o resultado está à vista. Não é só a deficiente preparação de Passos Coelho que está em causa mas também a qualidade da gente de quem se rodeia como, por exemplo, o todo poderoso Miguel Relvas que, em termos éticos, está ao nivel do vigarista José Sócrates. Com políticos destes Portugal nunca mais sairá do abismo em que se encontra. Está na altura do povo se erguer, dizer "BASTA" e correr com a corja partidária. Ao contrário do que os escribas do regime dizem e redizem, é possível ter democracia sem partidos!


EIS O CURRICULUM DO NOSSO 1º MINISTRO...

Nome: Pedro Passos Coelho

Data de nascimento: 24 de Julho de 1964


Formação Académica: Licenciatura em Economia - Universidade Lusíada (concluída em 2001, com 37 anos de idade)


Percurso profissional: Até 2004, apenas actividade partidária na JSD e PSD;

A partir de 2004 (com 40 anos de idade) passou a desempenhar vários cargos em empresas do amigo e companheiro de Partido, Engº Ângelo Correia, de quem foi diligente e dedicado 'moço-de-fretes', tais como :

(2007-2009) Administrador Executivo da Fomentinvest, SGPS, SA;

(2007-2009) Presidente da HLC Tejo,SA;

(2007-2009) Administrador Executivo da Fomentinvest;

(2007-2009) Administrador Não Executivo da Ecoambiente,SA;

(2005-2009) Presidente da Ribtejo, SA;

(2005-2007) Administrador Não Executivo da Tecnidata SGPS;

(2005-2007) Administrador Não Executivo da Adtech, SA;

(2004-2006) Director Financeiro da Fomentinvest,SGPS,SA;

(2004-2009) Administrador Delegado da Tejo Ambiente, SA;

(2004-2006) Administrador Financeiro da HLC Tejo,SA.


Este é o "magnífico" CV do homem que 'teoricamente' governa este País!

Um homem que nunca soube o que era trabalhar até aos 37 anos de idade!

Um homem que, mesmo sem ocupação profissional, só conseguiu terminar a Licenciatura (numa Universidade privada...) com 37 anos de idade!

Mais: um homem que, mesmo sem experiência de vida e de trabalho, conseguiu logo obter emprego como ADMINISTRADOR... em empresas de Ângelo Correia, "barão" do

PSD e seu tutor e patrão político!... E que nesse universo continua a exercer funções!...

É ESTE O HOMEM QUE FALA DE "ESFORÇO" NA VIDA E DE"MÉRITO"!

É ESTE O HOMEM QUE PRETENDE DAR LIÇÕES DE VIDA A MILHARES DE TRABALHADORES

DESTE PAÍS QUE NUNCA CHEGARÃO A ADMINISTRADORES DE EMPRESA ALGUMA, MAS QUE LABUTAM ARDUAMENTE HÁ MUITOS E MUITOS ANOS NAS SUAS EMPRESAS, GANHANDO
ORDENADOS DE MISÉRIA!

É ESTE O HOMEM QUE, EM TOM MORALISTA, FALA DE "BOYS" E DE "COMPADRIOS", LOGO ELE QUE, COMO SE COMPROVA, NÃO PRECISOU DE "FAVORES" DE NINGUÉM... PARA

ARRANJAR EMPREGO!...

EDIFICANTE... NÃO É?...

DIGA LÁ... DAVA EMPREGO (QUE NÃO FOSSE O DE 'MOÇO-DE-RECADOS') A ALGUÉM COM ESTA 'FOLHA DE SERVIÇOS'?

POIS É...

ASSIM, PORTUGAL BEM VAI DEPRESSA PARA O ... ABISMO.

Domingo, 22 de Janeiro de 2012

Então e a verdade?

A propósito das ofensivas declarações do passarão Cavaco Silva sobre não ganhar que chegue para pagar as suas despesas Pedro Marques Lopes, conhecido propagandista do PSD, apresenta hoje um curioso texto no "Diário de Noticias".
Parece que algo começa a correr mal no reino da laranjada.

"O homem que inúmeras vezes apareceu perante os portugueses exigindo que se falasse verdade não falou verdade. O homem que afirmou solenemente que quem o acusava de condutas menos próprias na condução de alguns negócios particulares teria de nascer dez vezes para ser mais sério do que ele não foi sério. Deliberadamente, escondeu uma parte do que ganha. E não foi sério quando disse que não sabia quanto seria o valor total das suas pensões.

O homem frontal, que faz gala de que a sua vida seja um livro aberto, omitiu. Omitiu ou disse uma meia-verdade, que como toda a gente sabe é sempre uma redonda mentira, quando, sem um pingo de vergonha, fingiu ter de livre e espontânea vontade prescindido do seu salário como Presidente da República. Todos nós sabemos que lhe estava vedado por lei acumular as suas pensões com esse salário. Decidiu omitir que a escolha que fez foi entre receber cerca de dez mil euros mensais das reformas ou aproximadamente sete mil de salário.

Mas estou disposto a, pelo menos, negar parte do que acabo de escrever e admitir que, de facto, além de tudo isso, Cavaco Silva não consegue pagar as suas despesas, que dez mil euros não chegam para cobrir os seus gastos. Nesse caso tinha-nos enganado quando nos fez crer que era um homem austero e prudente nos seus investimentos, avesso a gastos desnecessários, que utilizava mantinhas em sua casa para não desperdiçar dinheiro em aquecimento central e que tinha um padrão de vida pautado pela contenção e sobriedade. É que, convenhamos, ganhar os tais dez mil euros somados aos oitocentos da sua mulher (será?), não pagar refeições, gasolina, telefones e demais despesas correntes, como é direito de um presidente da República, e, mesmo assim, não lhe sobrar dinheiro, é próprio de um verdadeiro estroina que anda para aí a deitar dinheiro à rua. Temo pelos seus seiscentos e cinquenta e um mil euros que até agora poupou e ainda conserva em vários bancos. Bom, não é que já não tivéssemos indícios de alguma negligência na condição das suas finanças. Como todos nos recordamos, Cavaco Silva comprou e vendeu acções da SLN, mas não sabia como o negócio tinha sido feito nem do que teria auferido em mais-valias.

O homem que se reclama do povo, que veio do povo, que sente que o povo está a escutar a sua mensagem, não tem pejo em dizer que só à custa das suas poupanças consegue sobreviver. Pois, não sei a que povo se está a referir. O povo que eu conheço não se indignará com os rendimentos dele, são fruto do seu trabalho e com certeza fez por os merecer. Não gostará é, estou certo, de que brinquem com ele. Não apreciará que um homem rico, e Cavaco Silva pelos padrões portugueses é um homem rico, insinue que está a fazer os mesmos sacrifícios que o povo a que diz pertencer.

É que esse povo é constituído por mais de seiscentos mil desempregados, por um milhão e meio de pessoas que trazem para casa quinhentos euros por mês, por trabalhadores por conta de outrem que ganham em média oitocentos euros mensais. Ninguém pediria ao Presidente da República que vivesse com oitocentos euros. Pedir-se-ia sim que compreendesse os sacrifícios, as terríveis condições de vida, a angústia dos que vivem desesperados por não verem perspectivas para os seus filhos e que se pusesse ao lado deles, que os guiasse para uma vida mais digna. Mas não, Cavaco Silva preferiu muito simplesmente gozar com o seu povo.

Pode ser, no entanto, pior. Às tantas, o político profissional com mais anos de carreira não conhece a real situação dos portugueses. O homem que foi eleito primeiro--ministro três vezes e Presidente da República duas, ignora como os cidadãos vivem. Nesse caso, o problema, infelizmente, não é dele, é nosso, pois temos votado num indivíduo que se está borrifando para nós e para a nossa vida.

Anteontem tive vergonha de ter votado algumas vezes neste senhor."

Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

A Teia

Texto de Manuela Moura Guedes hoje publicado no "Correio da Manhã".

"Só ficou espantado e indignado com as nomeações do Governo quem ainda acredita nas virtudes deste sistema partidário e eleitoral. Confesso que houve uma altura em que, perante o que se tinha passado na era socrática, pensei que era possível, de facto, uma mudança de comportamento político.

Mas, passado meio ano, voltei à conclusão de que está tudo montado para vivermos numa teia de interesses que liga o poder aos partidos e a grupos económicos e que se ramifica por todas as áreas da sociedade, da Justiça à Comunicação Social.

O número de nomeações feitas até agora não assusta, aliás, porque o PS enxameou de tal forma a Administração Pública e cargos afins com os chamados boys inúteis que uma limpeza era necessária. O critério para a escolha de muitos dos novos nomes é que é assustador.

O que terá feito nomear para a COMPETE, o programa que dispõe de 5500 milhões de euros para incentivos às empresas, um dos administradores da sociedade (SLN) que controlava o BPN e que não avisou o Banco de Portugal quando encontrou fraudes e prejuízos ocultos? Ao contrário, na altura, aprovou as contas. Franquelim Alves é social-democrata, o que seria apenas um pormenor se não tivesse esta mancha gigantesca do BPN no seu currículo.

Que garantias dá de gerir e distribuir bem os milhares de milhões de euros públicos do COMPETE? Com a falta de dinheiro que há, facilmente se percebe a importância desta nomeação. Isto é poder real.

Sabe-se como o anterior Governo, com as escolhas para lugares na Banca, condicionava os empréstimos e as suas condições... A impressão de "déjà vu" acentua-se, apenas muda nas condições, impostas por quem nos fez o empréstimo, de reduzir o peso do Estado na economia. E, de facto, todos nós já o sentimos, na parte que correspondia ao dinheiro dos impostos aplicado em bem-estar social. De resto, os interesses "reais" do País continuam a sobrepor-se e a tentar novas formas de organização que encaixem nas privatizações e num Estado menor.

Está para lá do alcance da troika pôr fim a esta teia que estende a partidarização à decisão política. Só mesmo os portugueses o poderiam fazer, se não fossem eles próprios adeptos do clientelismo, da cunha e do favor. "

Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

A lista de aniversário de Pedro Passos Coelho

O "Correio da Manhã" publica hoje dois textos muito interessantes que contrariam a tese ontem proclamada por Passos Coelho de não ter nada a ver com as recentes nomeações para a EDP e outras que tais. Passos Coelho é tão mentiroso (ou mais) que Sócrates, Miguel Relvas é tão vigarista como Sócrates e os cidadãos que neles votaram começam a dar corpo à enorme decepção que sentem por terem sido vilmente enganados.

Texto de João Miguel Tavares

A lista de aniversário de Pedro Passos Coelho

"Tenho esta teoria: alguém confundiu as novas nomeações para o Conselho de Supervisão da EDP com a lista de convidados para a festa de anos de Pedro Passos Coelho. É verdade que o primeiro-ministro só faz anos em Julho, mas os chineses regem-se por outro calendário e têm dificuldades com o português.

Passos Coelho entregou a Cao Guangjing um convite para passar por Massamá daqui a cinco meses e ele achou que a lista de convidados era uma sugestão para enfiar os melhores amigos do primeiro-ministro na empresa que tinha acabado de comprar. Essa é a única explicação para que Eduardo Catroga, Braga de Macedo, Paulo Teixeira Pinto, Ilídio Pinho ou Celeste Cardona acabem com os seus belos rabiosques sentados em cadeiras que valem no mínimo cinco mil euros por mês, em part-time.

Nenhuma outra teoria é possível. Ninguém me vai convencer de que o Estado privatizou a EDP, disse que não queria ter mais nada a ver com aquilo, louvou o funcionamento do mercado, homenageou o pensamento liberal, e depois sentou no Conselho de Supervisão, por onde passam todas as orientações estratégicas da empresa, precisamente aquelas pessoas que lhe andaram a dar uma ajudinha nos últimos meses, incluindo o seu velho patrão (Pinho) e a inefável Cardona, que o CDS deposita em todas as prateleiras douradas da pátria. E, sobretudo, ninguém me convence de que os chineses chegaram a Portugal ao volante de vários camiões TIR de notas de euro para deixarem a EDP cheiinha de amigalhaços do poder estatal. Ou… Espera! Não me digam… Será possível que… os chineses tenham percebido tão depressa exactamente como este país funciona? "


A Loja dos Tachos

Texto de Manuela Moura Guedes

"Cheguei esta semana à conclusão de que a Maçonaria, afinal, é uma instituição muito mais democrática e abrangente para fazer o Bem do que um qualquer Governo. Há maçons do PS, do PSD, do CDS e nem se percebe que, sendo "igualitária, "não tenha gente assumida do PCP e do BE.

Independentemente da cor política, os maçons entreajudam-se, é uma coisa entre irmãos, pronto. No Governo, já não é assim. Aqui, o Bem (entendido, claro, como os lugares de nomeação política e que fazem bem financeiramente às pessoas) só é distribuído entre agradecimentos por serviços prestados ou lealdades partidárias e na exacta medida dos resultados eleitorais conseguidos pelos dois partidos do Governo. É por isso que o CDS só tem Celeste Cardona no Conselho de Supervisão da EDP enquanto o PSD tem 4 "simpatizantes" e mais o antigo patrão de Passos Coelho na Fomentivest, liderada por Ângelo Correia. Ou terão sido os zelosos accionistas privados a pensar também nesta proporção? Nada disto teria importância se não tivesse sido a mesma coisa na CGD, nas Direcções Regionais da Segurança Social, nas Administrações de alguns hospitais, na Águas de Portugal e no facto de a EDP ter, na prática, o monopólio da energia e de a cobrar aos preços mais elevados de toda a Europa. Somos nós que pagamos, na factura da luz, os ordenados destes senhores, em média 55 mil a cada um, por mês. Pagamos isso e as reformas que alguns acumulam. Catroga é um deles, mas o caso de Paulo Teixeira Pinto parece-me mais bizarro. Foi reformado aos 46 anos por decisão de uma Junta Médica que o considerou incapaz para continuar a trabalhar. Passou a receber de reforma entre 35 mil a 40 mil euros por mês. Até agora, era o Fundo de Pensões da Banca que a pagava, mas, com a sua transferência para o Estado, vai sair do bolso de todos nós esta e todas as outras reformas altíssimas, o que já é responsável por parte da derrapagem do défice este ano. Estas verbas são obscenas para quem ganha 600 euros e leva cortes nos subsídios. Mas o Governo perdeu completamente a vergonha (e os maçons preocupados em ser secretos!). O descaramento com que tudo isto se faz só mostra que os portugueses calam e consentem. E quando é assim, não são corajosos, são parvos!"

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

E você, acredita?

Texto de Manuela Moura Guedes hoje publicado no "Correio da Manhã".

"Só os pobres escapam ao raide de uma política fiscal que castiga quem trabalha como ninguém na Europa

Não me lembro de ter chegado ao fim de um ano tão mau e, mesmo assim, desejar que o novo não comece. As perspectivas são negras e nem mesmo as promessas de Passos de "democratizar a economia" suavizam o horizonte. Os seis meses de Governo mostram que entre as intenções e a prática há um enorme vazio.

A austeridade tem como alvo a classe média, da alta à baixa. Só os pobres escapam ao raide de uma política fiscal que castiga quem trabalha como ninguém na Europa, e deixa de fora quem vive de mais-valias e dividendos. E os que têm "acesso privilegiado ao poder" continuam a ser os poderes reais do País. Os interesses corporativos que se alimentam do Estado não acabaram, o que se alterou foi um faz-de-conta. As nomeações para cargos dirigentes da Administração Pública serão por concurso público mas o ministro terá a última palavra, anulando a escolha por concurso.

A reforma do Poder Local acaba apenas com freguesias deixando as 308 autarquias do século XIX desfasadas das necessidades actuais. Os interesses partidários sobrepuseram-se e os caciques locais ganharam. Continuam as mais de 2ooo empresas municipais, quase todas endividadas e a albergar familiares e amigos de autarcas. Antes de ser Governo, o PSD prometia acabar com todas as que não tivessem "50% de receita privada". Também iam acabar com Fundações, Institutos, "o Estado gordo"... a dieta foi tão ligeira que até vai haver o novo Instituto Português da Moda (procuram um palacete). Em contrapartida, corta-se em coisas tão essenciais como medicamentos, médicos, enfermeiros ou nos 3 helicópteros do INEM à noite. Não estavam a ser rentabilizados. Custam 1,8 milhões de euros por ano e só às vezes é que há gente quase a morrer que precisa deles! Já a RTP custa mais de 100 milhões e vai deixar de ter publicidade para depender só do OE e do Governo que cedeu à pressão das privadas. Tal como tem cedido ao peso de quem intervém nas negociatas da PPP (60 mil milhões), grandes empresas, construtoras, banca e advogados.

Os sinais já são muitos e fortes de falta de vontade política do Governo para acreditar outra vez em promessas de "democratização da economia". Mas espero mesmo estar enganada – É o meu desejo para 2012! "

Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Passos em volta da exaustão

Texto de Baptista Bastos hoje publicado no "Diário de Notícias"

" O primeiro-ministro foi às televisões, admitindo-se, com modesta expectativa, que iria sossegar a nação. Não sossegou ninguém. Surgiu um homem alquebrado, de rosto fechado e descaído, exausto e confuso, conferindo ao discurso uma futilidade patética. Entre o apelo à confiança e a surpreendente declaração sobre a necessidade de se "democratizar a economia", com o concurso do povo, nada do que disse produziu o mínimo estremecimento de emoção. O dr. Passos não motiva, não congrega, não aquece nem arrefece. E é cada vez mais visível o esforço que faz para convencer aqueles dos outros e os próprios que o cercam.

Os áulicos do costume aplaudiram, com fervor inconsistente; e o CDS-PP, muito calado nos últimos tempos, mandou um moço grave e soturno, cujo nome não fixei, proferir umas irrelevâncias apropriadas. As televisões, preguiçosas e desprovidas de critério, têm dado espaço e tempo a pessoas que o são sem ser coisíssima nenhuma. E que os partidos recorrem ao rebotalho dos aparatchiks por inexistência de figuras de proa. Diz-se, também, que a coligação não afina com muitos diapasões, e que a ausência do dr. Portas nos "eventos" mais chamativos se deve a um certo mal-estar.

A verdade é que o presidente do CDS possui grande presciência política e as suas faltas em actos públicos talvez sejam um sinal de prudência e de distanciação de muitos actos do Governo. Enquanto o dr. Passos fala, fala e não diz nada, e dá entrevistas umas atrás das outras, numa fastidiosa rotina de vacuidades, o seu parceiro de aliança afasta-se, com um recato que lhe não é próprio, ele, tão dado à fotografia, à imagem, à primeira fila.

A sociedade portuguesa está gravemente enferma e o Executivo não consegue dar conta do recado. Embrulha-se em quezílias pessoais (caso da ministra da Justiça e do bastonário da Ordem dos Advogados); em afirmações desprovidas de sentido e logo apressadamente desmentidas (Álvaro Santos Pereira); ou em embaraçosas declarações de princípio (Miguel Relvas), reveladoras de impreparações políticas fulcrais. O que deveria ser dito pelo Governo é comentado pela Igreja, com argumentação sólida. O cardeal-patriarca de Lisboa, cuja independência de espírito já o opôs, por exemplo, ao Vaticano (celibato dos padres e ordenação das mulheres, verbi gratia), anunciou que as desigualdades sociais só seriam vencidas se a ordem económica sob a qual vivemos fosse rapidamente substituída. E a Conferência Episcopal, insistindo em que não há social sem cidadania, favorece, no resguardo peculiar à instituição, a necessidade do compromisso com o protesto e com a resistência às iniquidades.

Meu Dilecto: estamos no fecho de um ano desgraçado e nocturno. Que Hermes, o deus do bom caminho, ilumine o que aí vem, e não nos deixe enveredar por veredas e azinhagas."