Texto de Manuela Moura Guedes hoje publicado no "Correio da Manhã".
"Vítor Gaspar diz que não engana. Será, mas engana-se e muito. Previsões erradas, rectificações rectificadas, lapsos baralhados... tudo é transitório. A reposição dos subsídios em 2015 é apenas uma "perspectiva técnica", o Documento de Estratégia Orçamental é apenas um "documento de trabalho" em que as previsões para o desemprego, de há uma semana, já vão ter de ser revistas.
Moral e eticamente, fará toda a diferença saber se o ministro engana ou não, mas, na prática, vai tudo dar ao mesmo: lapsos, erros, enganar ou enganar-se.
A governação implica compromissos, não é uma navegação à vista a depender de dados que vão saindo como os números do desemprego que Gaspar "tem dificuldade em perceber" ou considera "inesperados", e que só se explica pela sua fé na austeridade que aplica e que apregoa. Mesmo a atravessar um momento na Europa de dúvidas e contestação, o Governo português continua inabalável a seguir o caminho traçado pela Alemanha e de que, praticamente, só mesmo ela beneficia. A extrema austeridade a que os alemães se impuseram na ultima década não serve como modelo a seguir. O seu sucesso foi feito à custa do consumo sem limite de produtos alemães por parte de países que se endividaram até ao tutano como a Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha... e por aí fora. Se, na época, a mesma política se tivesse generalizado pela Europa, não havia procura nem para as exportações alemãs nem para nenhumas outras. Era a recessão, tal como é agora, com as consequências que conhecemos para o desemprego e para a perda de direitos sociais e laborais tão duramente conseguidos. Portugal tem dos mais baixos salários entre os europeus e, mesmo assim, foi o que mais cortou no ano passado. Há dias, dizia Passos Coelho que o "modelo de crescimento assente em baixos salários é modelo de empobrecimento". De acordo, é também por isso que não há crescimento possível com esta política. Em vez de persistir às cegas neste modelo que está a dar os piores resultados, o Governo devia aproveitar o momento, que poderá ser único, para virar a correlação de forças dentro da Europa. Estamos muito mais próximos da Grécia e mesmo da França do que da Alemanha. Se não o fizer, será de lapso em lapso, até ao erro final."
sexta-feira, 11 de maio de 2012
De lapso em lapso
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